Imitação de Cristo - Livro III 53

Livro III: a consolação interior, em diálogo entre Cristo e o discípulo

Dos diversos movimentos da natureza e da graça

Filho, observa atentamente os movimentos da natureza e da graça, porque se movem de modo muito contrário e sutil, e dificilmente são discernidos, a não ser pelo homem espiritual e interiormente iluminado. Todos, de fato, desejam o bem, e algo de bom alegam em suas palavras ou em suas obras: por isso, sob a aparência do bem, muitos são enganados.
A natureza é astuta e atrai a muitos, prende-os com laços e os engana, e tem sempre a si mesma por fim. A graça, porém, caminha com simplicidade, desvia-se de toda aparência de mal, não recorre a falsidades, e tudo faz puramente por amor de Deus, no qual também finalmente repousa.
A natureza de vontade quer morrer, e não quer ser oprimida nem vencida, nem ser submetida nem subjugar-se espontaneamente. A graça, ao contrário, esforça-se pela própria mortificação, resiste à sensualidade, busca ser submetida, deseja ser vencida, e não quer usar da própria liberdade, ama ser mantida sob disciplina, e não deseja dominar sobre ninguém: mas viver, permanecer e existir sempre sob Deus, e por amor de Deus está prontamente disposta a inclinar-se humildemente diante de toda criatura humana.
A natureza trabalha por seu próprio proveito, e atenta para todo o lucro que lhe possa advir, a ela e a outrem. A graça, porém, não considera tanto o que lhe é útil e cômodo, mas antes o que aproveita a muitos.
A natureza de bom grado recebe honra e reverência. A graça, porém, fielmente atribui a Deus toda honra e glória.
A natureza teme a humilhação e o desprezo. A graça, porém, alegra-se em sofrer afronta pelo nome de Jesus.
A natureza ama o ócio e o descanso do corpo. A graça, porém, não pode permanecer ociosa, mas de bom grado abraça o trabalho.
A natureza busca possuir o que é curioso e belo, e abomina o que é vil e grosseiro. A graça, porém, deleita-se nas coisas simples e humildes; não despreza o que é áspero, nem se recusa a vestir-se de roupas velhas.
A natureza olha para as coisas temporais, alegra-se com os ganhos terrenos, entristece-se com a perda, irrita-se com uma leve palavra injuriosa. A graça, porém, atenta para as coisas eternas, não se apega às temporais, nem se perturba com a perda das coisas, nem se amargura com palavras mais duras, porque colocou o seu tesouro e a sua alegria no céu, onde nada perece.
A natureza é cobiçosa, e mais de bom grado recebe do que dá; ama o que é próprio e particular. A graça, porém, é piedosa e comum, evita o que é singular, contenta-se com pouco, julga mais bem-aventurado dar do que receber.
A natureza inclina-se para as criaturas, para a própria carne, para a vaidade e para a dispersão. A graça, porém, atrai para Deus e para as virtudes, renuncia às criaturas, foge do mundo, odeia os desejos da carne, refreia as divagações, envergonha-se de aparecer em público.
A natureza de bom grado tem algum consolo externo, no qual se deleite segundo os sentidos. A graça, porém, busca consolar-se somente em Deus, e deleitar-se no sumo bem acima de todas as coisas visíveis.
A natureza tudo faz por lucro e proveito próprio, nada pode fazer gratuitamente: mas espera obter, pelos benefícios que presta, ou algo igual, ou melhor, ou louvor, ou favor, e deseja que muito sejam ponderados os seus feitos, dons e palavras. A graça, ao contrário, nada temporal busca, nem pede outro prêmio senão Deus somente por recompensa, nem deseja das coisas temporais mais do que o necessário, a não ser na medida em que estas lhe possam servir para a obtenção das eternas.
A natureza alegra-se com muitos amigos e parentes, gloria-se da nobreza do lugar e da origem da linhagem; sorri aos poderosos, lisonjeia os ricos, aplaude os que lhe são semelhantes. A graça, porém, ama até os inimigos, nem se exalta pela multidão de amigos, nem valor ao lugar ou à origem do nascimento, a não ser onde houver virtude maior; favorece mais o pobre do que o rico, compadece-se mais do inocente do que do poderoso, alegra-se com o que é verdadeiro e não com o falso, exorta sempre os bons a aspirar aos melhores dons, e a assemelhar-se ao Filho de Deus pelas virtudes.
A natureza logo se queixa da falta e do incômodo. A graça suporta com constância a indigência.
A natureza tudo refere a si, por si luta e argumenta. A graça, porém, tudo reconduz a Deus, de quem originalmente as coisas emanam, nada de bom atribui a si nem presume com arrogância, não contende, nem prefere o seu parecer ao dos outros, mas em todo sentido e entendimento submete-se à eterna sabedoria e ao exame divino.
A natureza deseja conhecer os segredos e ouvir novidades; quer aparecer exteriormente e experimentar muitas coisas pelos sentidos; deseja ser reconhecida e fazer aquilo de que provém louvor e admiração. A graça, porém, não se preocupa em perceber novidades nem coisas curiosas, porque tudo isso nasceu da antiga corrupção, que nada de novo e durável sobre a terra. Ensina, pois, a refrear os sentidos, a evitar a complacência e a ostentação, a esconder humildemente o que é louvável e dignamente admirável, e a buscar em toda coisa e em toda ciência o fruto da utilidade, e o louvor e a honra de Deus. Não quer que seja exaltada a si mesma nem o que é seu; mas deseja que Deus seja bendito nos seus dons, ele que tudo concede por pura caridade.
Esta graça é luz sobrenatural, e um certo dom especial de Deus, e propriamente o selo dos eleitos, e o penhor da salvação eterna: ela eleva o homem das coisas terrenas para amar as celestiais, e de carnal o torna espiritual. Quanto mais, pois, a natureza é reprimida e vencida, tanto maior graça é infundida, e cada dia, com novas visitações, o homem interior é formado segundo a imagem de Deus.