Imitação de Cristo - Livro III 48
Livro III: a consolação interior, em diálogo entre Cristo e o discípulo
Do desejo da vida eterna, e quão grandes são os prêmios prometidos aos que combatem
Filho meu, quando sentes que do alto se infunde em ti o desejo da bem-aventurança eterna, e anseias por sair do tabernáculo do corpo, para que possas contemplar a minha claridade sem sombra de mudança, dilata o teu coração e recebe com todo o desejo esta santa inspiração. Rende as mais amplas graças à bondade soberana, que assim dignamente trata contigo, te visita com clemência, te desperta com ardor, te levanta com poder, para que não venhas a cair, pelo próprio peso, nas coisas terrenas. Pois isto não o recebes por pensamento ou esforço teu, mas unicamente pela dignação da graça soberana e pelo divino olhar, a fim de que progridas nas virtudes e em maior humildade, e te prepares para os combates futuros, e te esforces por aderir a mim com todo o afeto do coração e por servir-me com vontade fervorosa.
Filho, muitas vezes arde o fogo, mas a chama não sobe sem fumaça. Assim também os desejos de alguns ardem para as coisas celestiais e, contudo, não estão livres da tentação do afeto carnal. Por isso, nem inteiramente com pureza agem pela honra de Deus naquilo que com tanto anseio dele pedem. Tal é também, muitas vezes, o teu desejo, que insinuaste ser tão importuno. Pois não é puro e perfeito aquilo que está infectado de proveito próprio.
Pede não o que te é deleitável e cômodo, mas o que me é aceitável e honroso; porque, se julgas retamente, deves preferir a minha disposição ao teu desejo e a todo o desejado, e segui-la. Conheço o teu desejo e ouvi os teus frequentes gemidos. Já quiseras estar na liberdade da glória dos filhos de Deus; já te deleita a casa eterna e a pátria celestial cheia de alegria. Mas ainda não chegou essa hora; há ainda outro tempo, o tempo de guerra, a saber, o tempo do trabalho e da provação. Desejas ser enchido do sumo bem, mas não podes consegui-lo agora. Eu sou; espera-me, diz o Senhor, até que venha o reino de Deus.
Ainda hás de ser provado na terra e exercitado em muitas coisas. Às vezes te será dada consolação, mas não te será concedida abundante saciedade. Conforta-te, pois, e sê forte, tanto em agir quanto em padecer o que é contrário à natureza. Convém que te revistas do homem novo e que te transformes em outro varão. Convém que faças muitas vezes o que não queres, e que deixes o que queres. O que agrada aos outros terá êxito; o que a ti agrada não prosperará mais. O que os outros dizem será ouvido; o que tu dizes será tido por nada. Os outros pedirão e receberão; tu pedirás e não alcançarás.
Outros serão grandes na boca dos homens; de ti, porém, se calará. A outros se confiará isto ou aquilo, mas tu serás julgado inútil para tudo. Por causa disso a natureza se contristará, mas grande fruto colherá para si calando-se. Nestas coisas e em muitas outras semelhantes costuma ser provado o servo fiel do Senhor, em quão grande medida procura negar-se a si mesmo em tudo e quebrantar-se em tudo. Dificilmente há algo em que tanto precises morrer quanto ver e padecer aquilo que é contrário à tua vontade; e sobretudo quando se manda fazer o que é desconveniente e o que te parece menos útil. E porque não ousas resistir ao poder superior, posto sob o domínio de outrem, por isso te parece duro andar ao aceno de outro e abrir mão de todo sentir próprio.
Mas pondera, filho, o fruto destes trabalhos, o seu fim breve e o prêmio sobremaneira grande, e não terás daí gravame, mas o mais forte alívio para a tua paciência. Pois também por esta pouca vontade, que agora espontaneamente abandonas, terás sempre a tua vontade nos céus. Ali, na verdade, encontrarás tudo o que quiseres, tudo o que possas desejar. Ali estará à tua disposição a faculdade de todo bem, sem temor de o perder. Ali a tua vontade será sempre uma comigo; nada cobiçarás de estranho ou privado. Ali ninguém te resistirá, ninguém se queixará de ti, ninguém te impedirá, nada se oporá: mas todas as coisas desejadas estarão juntamente presentes, e restaurarão todo o teu afeto, e o encherão até o cume. Ali te darei glória pela injúria sofrida, manto de louvor pela tristeza, pelo lugar último o trono do reino para sempre. Ali aparecerá o fruto da obediência; alegrar-se-á o trabalho da penitência, e a humilde sujeição será gloriosamente coroada.
Agora, pois, inclina-te humildemente sob as mãos de todos, e não te importe quem disse ou ordenou isto: mas cuida com grande empenho de que, seja o Prelado, seja o inferior ou o igual, quando algo te pedir ou indicar, tudo recebas por bem e te esforces por cumpri-lo com sincera vontade. Busque um isto, outro aquilo; glorie-se aquele nisto e este naquilo, e sejam louvados mil vezes mil; tu, porém, nem nisto nem naquilo: mas alegra-te com o teu próprio desprezo e somente no beneplácito e na honra de mim. Isto é o que deves desejar: que, seja pela vida, seja pela morte, Deus seja sempre glorificado em ti.