Imitação de Cristo - Livro III 47

Livro III: a consolação interior, em diálogo entre Cristo e o discípulo

Do dia da eternidade e das angústias desta vida

Bem-aventurada mansão da cidade celeste! Ó dia claríssimo da eternidade, que noite alguma escurece, mas que a suma Verdade sempre ilumina! Dia sempre alegre, sempre seguro, que nunca muda o seu estado em coisa contrária. Ó, quem dera houvesse raiado aquele dia, e tivessem fim todas estas coisas temporais! Para os santos, na verdade, ele resplandece com perpétua e esplêndida claridade; mas para os que peregrinam na terra, de longe e como por um espelho.
Sabem os cidadãos do céu quão jubiloso é aquele dia; gemem os filhos exilados de Eva, porque este é amargo e enfadonho. Os dias deste tempo são poucos e maus, cheios de dores e angústias: nele o homem se mancha com muitos pecados, se enreda em muitas paixões, é apertado por muitos temores, é distendido por muitos cuidados, é distraído por muitas curiosidades, é envolvido por muitas vaidades, é cercado por muitos erros, é desgastado por muitos trabalhos, é oprimido por muitas tentações, é enervado pelos deleites e é atormentado pela indigência.
Ó, quando haverá fim destes muitos trabalhos? Quando serei libertado da miserável servidão dos vícios? Quando me lembrarei, Senhor, somente de Vós? Quando me alegrarei plenamente em Vós? Quando estarei sem impedimento algum, em verdadeira liberdade, sem nenhum peso da mente e do corpo? Quando haverá paz sólida, paz imperturbável e segura, paz por dentro e por fora, paz firme de toda parte? Bom Jesus, quando estarei diante de Vós para Vos ver? Quando contemplarei a glória do Vosso reino? Quando sereis para mim tudo em todas as coisas? Ó, quando estarei convosco no Vosso reino, que preparastes desde a eternidade para os Vossos amados? Fui deixado pobre e exilado em terra inimiga, onde guerras cotidianas e desventuras grandíssimas.
Consolai o meu exílio, mitigai a minha dor, porque para Vós suspira todo o meu desejo. Pois é todo peso para mim quanto este mundo oferece por consolo. Desejo gozar de Vós intimamente, mas não consigo alcançá-lo. Quero aderir às coisas celestes, mas me deprimem as coisas temporais e as paixões não mortificadas. Quero, pela mente, estar acima de todas as coisas, mas pela carne sou forçado, contra a vontade, a estar sujeito. Assim eu, homem infeliz, luto comigo mesmo e me tornei pesado a mim próprio, enquanto o espírito busca o alto e a carne busca estar embaixo.
Ó, quanto sofro por dentro, quando trato pela mente das coisas celestes e logo, ao orar, me sobrevém a turba das tentações e dos pensamentos carnais! Deus meu, não Vos afasteis de mim, nem Vos desvieis na ira do Vosso servo. Lançai o Vosso relâmpago e dissipai-as; enviai as Vossas setas e que se perturbem todos os fantasmas do inimigo. Recolhei a Vós todos os meus sentidos; fazei-me esquecer de todas as coisas mundanas; concedei-me lançar fora depressa e desprezar os fantasmas dos vícios. Socorrei-me, Verdade eterna, para que vaidade alguma me mova. Vinde, suavidade celeste, e fuja de diante da Vossa face toda impureza. Perdoai-me também e indulgentemente me relevai, todas as vezes que, na oração, revolvo outra coisa que não Vós. Confesso, na verdade, que muito distraído costumo estar. Pois muitas vezes não estou ali onde corporalmente estou de ou sentado, mas estou antes ali para onde sou levado pelos pensamentos. Ali estou, onde está o meu pensamento; e onde frequentemente está o meu pensamento, ali está aquilo que amo. Ali me ocorre depressa o que naturalmente deleita ou por costume agrada.
Por isso Vós, Verdade eterna, dissestes abertamente: Onde está o teu tesouro, ali está também o teu coração. Se amo o céu, de bom grado penso nas coisas celestes. Se amo o mundo, congratulo-me com as felicidades do mundo e me entristeço com as suas adversidades. Se amo a carne, imagino com muita frequência as coisas que são da carne. Se amo o espírito, deleito-me em pensar nas coisas espirituais. Pois tudo o que amo, disso de bom grado falo e ouço, e levo comigo para casa as imagens de tais coisas. Mas bem-aventurado aquele homem que, por amor de Vós, Senhor, concede a todas as criaturas licença de partir, que faz violência à natureza e crucifica as concupiscências da carne com o fervor do espírito, para que, serenada a consciência, Vos ofereça oração pura e seja digno de tomar parte nos coros angélicos, excluídas todas as coisas terrenas por fora e por dentro.