Imitação de Cristo - Livro III 49

Livro III: a consolação interior, em diálogo entre Cristo e o discípulo

Como o homem desolado deve entregar-se nas mãos de Deus

Senhor Deus, Pai santo, sede agora e para sempre bendito, porque assim como quereis, assim foi feito, e o que fazeis é bom. Alegre-se em Vós o vosso servo, não em si, nem em qualquer outra coisa, porque Vós sois a verdadeira alegria, Vós a minha esperança e a minha coroa, Vós o meu gozo e a minha honra, Senhor. Que possui o vosso servo, senão o que de Vós recebeu, mesmo sem mérito seu? Vossas são todas as coisas, as que destes e as que fizestes. Pobre sou e em trabalhos desde a minha juventude, e a minha alma se entristece, algumas vezes até as lágrimas, e por vezes também o meu espírito se perturba dentro de si por causa das paixões iminentes.
Desejo o gozo da paz, suplico a paz dos vossos filhos, que na luz da consolação são por Vós apascentados. Se dais a paz, se infundis o santo gozo, estará a alma do vosso servo cheia de melodia e devota no vosso louvor. Mas se Vos retirardes, como muitíssimas vezes costumais, não poderá ela correr o caminho dos vossos mandamentos, mas antes os joelhos se dobram para bater no peito, porque não lhe é como ontem e anteontem, quando a vossa lâmpada brilhava sobre a sua cabeça e à sombra das vossas asas era protegida das tentações que a assaltavam.
Pai justo e sempre louvável, vem a hora em que seja provado o vosso servo. Pai amável, é digno que nesta hora o vosso servo padeça algo por Vós. Pai perpetuamente venerável, vem a hora que desde a eternidade previstes haver de chegar, em que por breve tempo sucumba por fora o vosso servo; mas viva sempre junto de Vós por dentro, por um pouco seja desprezado, humilhado e desfaleça diante dos homens, seja moído pelas paixões e enfermidades, para que de novo convosco ressurja na aurora da nova luz e seja glorificado nas alturas celestiais. Pai santo, Vós assim ordenastes e assim quisestes, e isto foi feito que Vós mandastes.
Pois esta é uma graça concedida ao vosso amigo: padecer e ser atribulado no mundo por amor de Vós, todas as vezes e por quem quer que seja e de qualquer modo que o permitirdes acontecer. Sem o vosso conselho e providência, e sem causa, nada acontece na terra. Bom me foi, Senhor, que me humilhastes, para que aprenda as vossas justificações e rejeite toda a soberba do coração e as presunções. Útil me foi que a confusão cobrisse a minha face, para que Vos buscasse antes a Vós que aos homens para me consolar. Aprendi também com isto a temer o vosso inescrutável juízo, Vós que afligis o justo com o ímpio, mas não sem equidade e justiça.
Graças Vos dou, porque não poupastes os meus males, mas me moestes com açoites amargos, infligindo dores e enviando angústias por fora e por dentro. Não quem me console de todas as coisas que estão debaixo do céu, senão Vós, Senhor meu Deus, celeste médico das almas, que feris e sarais, conduzis aos infernos e de novo trazeis. A vossa disciplina está sobre mim, e a vossa própria vara me ensinará.
Eis, Pai amado, que estou nas vossas mãos; sob a vara da vossa correção me inclino: feri o meu dorso e o meu pescoço, para que eu dobre à vossa vontade a minha tortuosidade. Fazei-me piedoso e humilde discípulo, como bem costumais fazer, para que eu ande a todo o vosso aceno. A Vós entrego a mim e a tudo o que é meu para corrigir: melhor é ser corrigido aqui que no futuro. Vós sabeis todas as coisas e cada uma, e nada Vos escapa na consciência humana. Antes que se façam, conheceis as coisas que hão de vir, e não tendes necessidade de que alguém Vos ensine ou advirta acerca daquilo que se faz na terra. Vós sabeis o que convém ao meu proveito e quanto serve a tribulação para purgar a ferrugem dos vícios. Fazei comigo o vosso desejado beneplácito e não desprezeis a minha vida pecaminosa, a ninguém melhor e mais claramente conhecida que a Vós só.
Dai-me, Senhor, saber o que se deve saber, amar o que se deve amar, louvar o que mais Vos agrada, estimar o que Vos parece precioso, repudiar o que aos vossos olhos é vil. Não me deixeis julgar segundo a visão dos olhos exteriores, nem sentenciar segundo o ouvir dos ouvidos dos homens inexperientes; mas discernir em juízo verdadeiro acerca das coisas visíveis e espirituais, e sobre todas as coisas buscar sempre a vontade do vosso beneplácito.
Enganam-se muitas vezes os sentidos dos homens ao julgar; enganam-se também os amadores do século, amando somente as coisas visíveis. Que tem o homem de melhor por ser reputado maior pelos homens? Falso engana ao falso, vão ao vão, cego ao cego, fraco ao fraco, quando o exalta, e na verdade mais o confunde quando vãmente o louva. Pois quanto cada um é aos vossos olhos, tanto é e nada mais, diz o humilde e santo Francisco.