A Origem das Espécies - Capítulo III: A Luta pela Existência 3
A Luta pela Existência
Struggle for Life most severe between Individuals and Varieties of the same Species
Como as espécies de um mesmo gênero costumam ter (embora nem sempre) muita semelhança de hábitos e de constituição, e sempre de estrutura, a luta geralmente será mais severa entre elas, caso entrem em competição umas com as outras, do que entre espécies de gêneros distintos. Vemos isso na recente expansão de uma espécie de andorinha por partes dos Estados Unidos, que provocou o declínio de outra espécie. O recente aumento do tordo-maior em partes da Escócia causou a redução do tordo-músico. Com que frequência ouvimos falar de uma espécie de rato tomando o lugar de outra nos climas mais diversos! Na Rússia, a pequena barata asiática expulsou por toda parte sua congênere maior. Na Austrália, a abelha-de-mel importada está rapidamente exterminando a pequena abelha nativa sem ferrão. Sabe-se que uma espécie de mostarda-silvestre suplantou outra, e o mesmo acontece em outros casos. Conseguimos entrever vagamente por que a competição deveria ser mais severa entre formas aparentadas, que ocupam quase o mesmo lugar na economia da natureza. Mas provavelmente em nenhum caso poderíamos dizer com precisão por que uma espécie venceu outra na grande batalha da vida.
Das observações anteriores pode-se deduzir um corolário da maior importância: a estrutura de todo ser orgânico está relacionada, de modo profundamente essencial mas muitas vezes oculto, à de todos os outros seres orgânicos com os quais ele entra em competição por alimento ou abrigo, dos quais precisa escapar, ou dos quais se alimenta. Isso é evidente na estrutura dos dentes e das garras do tigre, e na das pernas e garras do parasita que se prende aos pelos do corpo do tigre. Mas na semente do dente-de-leão, lindamente provida de penachos, e nas pernas achatadas e franjadas do besouro-d'água, a relação parece à primeira vista limitada aos elementos do ar e da água. No entanto, a vantagem das sementes com penachos sem dúvida está intimamente ligada ao fato de a terra já estar densamente coberta por outras plantas, de modo que as sementes possam se espalhar amplamente e cair em solo desocupado. No caso do besouro-d'água, a estrutura de suas pernas, tão bem adaptada para mergulhar, permite que ele compita com outros insetos aquáticos, cace sua própria presa e evite servir de presa a outros animais.
A reserva de nutrientes armazenada dentro das sementes de muitas plantas parece, à primeira vista, não ter relação alguma com outras plantas. Mas, pelo crescimento vigoroso de plantas jovens nascidas de sementes como as de ervilha e feijão, quando semeadas em meio a capim alto, pode-se suspeitar que a função principal do nutriente da semente é favorecer o crescimento das mudas enquanto elas lutam contra outras plantas que crescem com vigor ao redor.
Observe uma planta no meio de sua área de distribuição! Por que ela não dobra ou quadruplica seus números? Sabemos que ela aguenta perfeitamente um pouco mais de calor ou frio, de umidade ou seca, pois em outros lugares ela se estende por regiões um pouco mais quentes ou frias, mais úmidas ou secas. Nesse caso, vemos com clareza que, se quiséssemos imaginar dar à planta o poder de aumentar em número, teríamos de lhe conceder alguma vantagem sobre seus competidores ou sobre os animais que dela se alimentam. Nos limites de sua área geográfica, uma mudança de constituição em relação ao clima seria claramente uma vantagem para a nossa planta. Mas temos motivos para crer que apenas poucas plantas ou animais se estendem tão longe a ponto de serem destruídos exclusivamente pelo rigor do clima. A competição só vai cessar quando chegarmos aos limites extremos da vida, nas regiões árticas ou nas bordas de um deserto absoluto. A terra pode ser extremamente fria ou seca, e ainda assim haverá competição entre algumas poucas espécies, ou entre os indivíduos de uma mesma espécie, pelos pontos mais quentes ou mais úmidos.
Daí podemos ver que, quando uma planta ou um animal é colocado num novo país, em meio a novos competidores, as condições de sua vida geralmente vão mudar de modo essencial, ainda que o clima seja exatamente o mesmo de seu antigo lar. Se quisermos que seu número médio aumente no novo lar, teríamos de modificá-lo de maneira diferente do que faríamos em seu país de origem, pois teríamos de lhe conceder alguma vantagem sobre um conjunto diferente de competidores ou inimigos.
É bom, então, tentar imaginar como dar a uma espécie qualquer alguma vantagem sobre outra. Provavelmente em nenhum caso saberíamos o que fazer. Isso deveria nos convencer de nossa ignorância sobre as relações mútuas de todos os seres orgânicos, uma convicção tão necessária quanto difícil de adquirir. Tudo o que podemos fazer é manter firmemente em mente que cada ser orgânico se esforça para aumentar numa razão geométrica; que cada um, em algum período de sua vida, em alguma estação do ano, em cada geração ou a intervalos, tem de lutar pela vida e sofrer grande destruição. Quando refletimos sobre essa luta, podemos nos consolar com a plena convicção de que a guerra da natureza não é incessante, que nenhum medo é sentido, que a morte geralmente é rápida, e que os vigorosos, os saudáveis e os felizes sobrevivem e se multiplicam.