Evangelho da Natividade de Maria 7
Reescrita latina sóbria (séc. IX) da primeira parte do Pseudo-Mateus, falsamente atribuída a Jerônimo. Narra o nascimento de Maria de Joaquim e Ana, sua infância no templo e o noivado com José até a natividade de Jesus. Despojada dos prodígios mais extravagantes, foi a forma que entrou na Legenda Áurea e na devoção mariana do Ocidente
Maria recusa o casamento e o sinal da vara escolhe seu esposo
Mas a virgem do Senhor crescia em idade e em virtudes; e, segundo as palavras do salmista, ainda que seu pai e sua mãe a tivessem abandonado, o Senhor a acolheu. Pois diariamente era visitada por anjos, diariamente desfrutava de uma visão divina, que a preservava de todo mal e a fazia abundar em todo bem.
E assim ela chegou aos seus catorze anos; e não somente os perversos eram incapazes de acusá-la de qualquer coisa digna de reprovação, mas todos os bons, que conheciam sua vida e seu modo de proceder, julgavam-na digna de admiração.
Então o sumo sacerdote anunciou publicamente que as virgens que estavam estabelecidas no templo e haviam alcançado essa idade deviam voltar para casa e casar-se, segundo o costume da nação e a maturidade de seus anos.
As outras prontamente obedeceram a essa ordem; mas somente Maria, a virgem do Senhor, respondeu que não podia fazer isso, dizendo tanto que seus pais a haviam consagrado ao serviço do Senhor, quanto que ela mesma fizera ao Senhor um voto de virgindade, o qual jamais violaria por qualquer união com homem.
E o sumo sacerdote, posto em grande perplexidade de espírito, vendo que não julgava que o voto devesse ser quebrado contra a Escritura, que diz: Faze votos e cumpre-os, nem ousava introduzir um costume desconhecido da nação, ordenou que, na festa que estava próxima, todas as pessoas principais de Jerusalém e das vizinhanças estivessem presentes, para que, do conselho delas, soubesse o que se devia fazer em caso tão duvidoso.
E quando isso aconteceu, resolveram por unanimidade que o Senhor fosse consultado sobre esse assunto. E quando todos se inclinaram em oração, o sumo sacerdote foi consultar a Deus do modo costumeiro.
E não tiveram que esperar muito: à vista de todos, uma voz saiu do oráculo e do propiciatório, declarando que, segundo a profecia de Isaías, se devia buscar um homem a quem a virgem deveria ser confiada e desposada.
Pois é claro que Isaías diz: Uma vara sairá da raiz de Jessé, e uma flor ascenderá de sua raiz; e o Espírito do Senhor repousará sobre ele, o espírito de sabedoria e entendimento, o espírito de conselho e fortaleza, o espírito de sabedoria e piedade; e ele será cheio do espírito do temor do Senhor.
Segundo essa profecia, portanto, ele predisse que todos os da casa e família de Davi que fossem solteiros e aptos para o casamento deviam trazer ali suas varas ao altar; e que aquele cuja vara, depois de trazida, produzisse uma flor, e sobre cuja extremidade da vara o Espírito do Senhor pousasse em forma de pomba, era o homem a quem a virgem deveria ser confiada e desposada.