Atos de André 2

Atos apócrifo do apóstolo André, preservado em grande parte pelo epítome de Gregório de Tours, com o martírio por crucificação em Patras

Filipos, Tessalônica e os milagres na Macedônia

Em Filipos havia dois irmãos, um dos quais tinha dois filhos, e o outro, duas filhas. Eram ricos e nobres, e disseram: "Não família tão boa quanto a nossa neste lugar; casemos nossos filhos com nossas filhas." Ficou combinado, e o pai dos rapazes pagou o penhor. No dia do casamento, uma palavra de Deus veio a eles: "Esperem até que meu servo André venha; ele lhes dirá o que devem fazer." Todos os preparativos tinham sido feitos e os convidados, chamados, mas eles esperaram. No terceiro dia André chegou; eles saíram ao seu encontro com grinaldas e lhe contaram como tinham sido ordenados a esperá-lo, e como estavam as coisas. Seu rosto resplandecia, de modo que se maravilharam diante dele. Ele disse: "Não se deixem enganar, meus filhos; antes, arrependam-se, pois pecaram ao pensar em unir aqueles que são parentes próximos. Não proibimos nem evitamos o casamento (esta não pode ser a opinião original do autor; é contradita por tudo o que sabemos sobre os Atos). Ele é uma instituição divina; mas condenamos as uniões incestuosas." Os pais ficaram perturbados e pediram perdão. Os jovens viram o rosto de André como o de um anjo, e disseram: "Temos certeza de que seu ensino é verdadeiro." O apóstolo os abençoou e partiu.
Em Tessalônica havia um jovem nobre e rico, Exoos, que veio sem o conhecimento dos pais e pediu que lhe mostrassem o caminho da verdade. Ele foi ensinado, creu, e seguiu André sem se preocupar com seus bens terrenos. Os pais souberam que ele estava em Filipos e tentaram suborná-lo com presentes para que deixasse André. Ele disse: "Quem dera vocês não tivessem essas riquezas; então conheceriam o verdadeiro Deus e escapariam de sua ira." André também desceu do terceiro andar e pregou a eles, mas em vão; retirou-se e fechou as portas da casa. Eles reuniram um bando e vieram queimar a casa, dizendo: "Morte ao filho que abandonou seus pais"; e trouxeram tochas, juncos e feixes de lenha e atearam fogo à casa. Ela se incendiou. Exoos tomou um frasco de água e orou: "Senhor Jesus Cristo, em cuja mão está a natureza de todos os elementos, que umedeces o seco e secas o úmido, esfrias o quente e acendes o apagado, apaga este fogo, para que teus servos não se tornem maus, mas se inflamem ainda mais na fé." Ele aspergiu as chamas, e elas se extinguiram. "Ele virou feiticeiro", disseram os pais, e arranjaram escadas para subir e matá-los, mas Deus os cegou. Eles permaneceram obstinados, mas um certo Lisímaco, um cidadão, disse: "Por que persistir? Deus está lutando por estes. Desistam, para que o fogo do céu não os consuma." Eles se comoveram e disseram: "Este é o verdadeiro Deus." era noite, mas uma luz brilhou, e eles recuperaram a visão. Subiram e caíram diante de André e pediram perdão, e o arrependimento deles fez Lisímaco dizer: "Verdadeiramente, Cristo, que André prega, é o Filho de Deus." Todos se converteram, exceto os pais do jovem, que o amaldiçoaram e voltaram para casa, deixando todo o seu dinheiro para uso público. Cinquenta dias depois, morreram de repente, e os cidadãos, que amavam o jovem, devolveram a ele a propriedade. Ele não deixou André, mas gastava sua renda com os pobres.
O jovem pediu a André que fosse com ele a Tessalônica. Todos se reuniram no teatro, contentes de ver seu favorito. O jovem pregou a eles, com André permanecendo em silêncio, e todos se admiraram de sua sabedoria. O povo gritou: "Salve o filho de Carpiano, que está doente, e creremos." Carpiano foi à sua casa e disse ao menino: "Você será curado hoje, Adimanto." Ele disse: "Então meu sonho se realizou; vi este homem numa visão curando-me." Levantou-se, vestiu-se e correu ao teatro, ultrapassando o pai, e caiu aos pés de André. O povo, ao vê-lo andar depois de vinte e três anos, gritou: "Não ninguém como o Deus de André."
Um cidadão tinha um filho possuído por um espírito imundo e pediu sua cura. O demônio, prevendo que seria expulso, levou o filho para um quarto e o fez enforcar-se. O pai disse: "Tragam-no ao teatro; creio que este estrangeiro é capaz de ressuscitá-lo." Disse o mesmo a André. André disse ao povo: "De que lhes adiantará ver isto realizado e não crerem?" Eles disseram: "Não tema, creremos." O jovem foi ressuscitado, e eles disseram: "Basta, cremos de fato." E escoltaram André até a casa com tochas e lâmpadas, pois era noite, e ele os ensinou por três dias.
Médias de Filipos veio e orou por seu filho doente. André enxugou-lhe as faces e acariciou-lhe a cabeça, dizendo: "Console-se, apenas creia", e foi com ele a Filipos. Ao entrarem na cidade, um velho os encontrou e suplicou pelos seus filhos, que Médias, por um crime indizível, tinha aprisionado, e que estavam apodrecendo com feridas. André disse: "Como você pode pedir ajuda para seu filho enquanto mantém estes homens presos? Solte as correntes deles primeiro, pois sua crueldade obstrui minhas orações." Médias, arrependido, disse: "Soltarei estes dois e outros sete de quem você não foi informado." Foram trazidos, tratados por três dias, curados e libertados. Então o apóstolo curou o filho, Filomedes, que estivera doente por vinte e dois anos. O povo gritou: "Cure também os nossos doentes." André disse a Filomedes que os visitasse em suas casas e os mandasse levantar-se em nome de Jesus Cristo, pelo qual ele mesmo tinha sido curado. Assim foi feito, e todos creram e ofereceram presentes, que André não aceitou.
Um cidadão, Nicolau, ofereceu uma carruagem dourada, quatro mulas brancas e quatro cavalos brancos, como sua posse mais preciosa, pela cura de sua filha. André sorriu. "Aceito seus presentes, mas não estes visíveis. Se você oferece isto por sua filha, o que ofereceria por sua alma? É isso que desejo de você: que o homem interior reconheça o verdadeiro Deus, rejeite as coisas terrenas e deseje as eternas..." Ele persuadiu todos a abandonarem seus ídolos e curou a menina. Sua fama correu por toda a Macedônia.
No dia seguinte, enquanto ensinava, um jovem gritou: "O que tens a ver conosco? Vieste para nos expulsar do nosso próprio lugar?" André o chamou: "Qual é a sua obra?" "Habito neste menino desde a juventude dele e pensei nunca deixá-lo; mas, três dias atrás, ouvi seu pai dizer: 'Irei a André'; e agora temo os tormentos que tu trazes sobre nós, e vou partir." O espírito deixou o menino. E muitos vieram e perguntaram: "Em nome de quem curas os nossos doentes?" Filósofos também vieram e disputaram com ele, e ninguém conseguia resistir ao seu ensino.
Nessa época, alguém que se opunha a ele foi ao procônsul Virino e disse: "Surgiu um homem em Tessalônica que diz que os templos devem ser destruídos, as cerimônias abolidas, toda a lei antiga revogada, e um Deus adorado, de quem ele diz ser servo." O procônsul enviou soldados e cavaleiros para buscar André. Eles encontraram sua morada; quando entraram, seu rosto resplandeceu de tal modo que caíram de medo. André contou aos presentes o propósito do procônsul. O povo se armou contra os soldados, mas André os deteve. O procônsul chegou; não encontrando André no lugar combinado, enfureceu-se como um leão e enviou mais vinte homens. Estes, ao chegarem, ficaram confusos e nada disseram. O procônsul enviou um grande contingente para trazê-lo à força. André disse: "Vocês vieram me buscar?" "Sim, se você é o feiticeiro que diz que os deuses não devem ser adorados." "Não sou feiticeiro, mas o apóstolo de Jesus Cristo, a quem prego." Diante disso, um dos soldados desembainhou a espada e gritou: "O que tenho a ver contigo, Virino, que me envias a um homem que não pode me expulsar deste vaso, mas me queimar com seu poder? Quem dera viesses tu mesmo! não lhe farias mal algum." E o demônio saiu do soldado, e ele caiu morto. Diante disso, veio o procônsul e se pôs diante de André, mas não conseguia vê-lo. "Sou eu a quem buscas." Seus olhos se abriram, e ele disse com ira: "Que loucura é esta, que desprezas a nós e aos nossos oficiais? Tu és certamente um feiticeiro. Agora te lançarei às feras por desprezares nossos deuses e a nós, e veremos se o crucificado que pregas te ajudará." André: "Tu deves crer, procônsul, no verdadeiro Deus e em seu Filho que ele enviou, especialmente agora que um dos teus homens está morto." E, depois de longa oração, ele tocou o soldado: "Levanta-te; meu Deus Jesus Cristo te levanta." Ele se levantou e ficou são. O povo gritou: "Glória ao nosso Deus." O procônsul: "Não creiam, ó povo, não creiam no feiticeiro." Eles disseram: "Isto não é feitiçaria, mas ensino são e verdadeiro." O procônsul: "Lançarei este homem às feras e escreverei a César a respeito de vocês, para que pereçam por desprezarem suas leis." Eles quase o apedrejaram, e disseram: "Escreve a César que os macedônios receberam a palavra de Deus e, abandonando seus ídolos, adoram o verdadeiro Deus."
Então o procônsul, enfurecido, retirou-se para o pretório, e pela manhã levou feras ao estádio e mandou que o apóstolo fosse arrastado para pelos cabelos e espancado com cacetes. Primeiro soltaram um javali feroz, que andou três vezes ao redor dele e não o tocou. O povo louvou a Deus. Um touro, conduzido por trinta soldados e açulado por dois caçadores, não tocou André, mas despedaçou os caçadores, rugiu e caiu morto. "Cristo é o verdadeiro Deus", disse o povo. Viu-se um anjo descer e fortalecer o apóstolo. O procônsul, enfurecido, soltou um leopardo feroz, que deixou todos em paz, mas agarrou e estrangulou o filho do procônsul; mas Virino estava tão irado que nada disse a respeito nem se importou. André disse ao povo: "Reconheçam agora que este é o verdadeiro Deus, cujo poder subjuga as feras, embora Virino não o conheça. Mas, para que creiam ainda mais, ressuscitarei o filho morto e confundirei o pai insensato." Depois de longa oração, ele o ressuscitou. O povo quase matou Virino, mas André os conteve, e Virino foi ao pretório, confundido.
Depois disso, um jovem que seguia o apóstolo mandou chamar sua mãe para encontrar André. Ela veio e, depois de instruída, pediu-lhe que fosse à casa deles, devastada por uma grande serpente. Quando André se aproximou, a serpente sibilou alto e, com a cabeça erguida, veio ao seu encontro; tinha cinquenta côvados de comprimento; todos caíram por terra de medo. André disse: "Esconde tua cabeça, criatura imunda, que ergueste no princípio para a ruína da humanidade, e obedece aos servos de Deus, e morre." A serpente rugiu, enrolou-se em um grande carvalho ali perto, vomitou veneno e sangue, e morreu.
André foi à fazenda da mulher, onde jazia morta uma criança que a serpente havia matado. Ele disse aos pais: "Nosso Deus, que quer que vocês sejam salvos, me enviou aqui para que creiam nele. Vão e vejam o assassino morto." Eles disseram: "Não nos importamos tanto com a morte da criança, se formos vingados." Foram, e André disse à esposa do procônsul (a conversão dela foi omitida por Gregório): "Vá e ressuscite o menino." Ela foi, sem nenhuma dúvida, e disse: "Em nome do meu Deus Jesus Cristo, levanta-te são." Os pais voltaram e encontraram a criança viva, e caíram aos pés de André.
Na noite seguinte, ele teve uma visão que relatou. "Ouçam, amados, a minha visão. Eu olhei, e eis que um grande monte se erguia ao alto, que nada tinha de terreno, mas brilhava com tal luz que parecia iluminar o mundo inteiro. E eis que junto a mim estavam meus amados irmãos, os apóstolos Pedro e João; e João estendeu a mão a Pedro e o ergueu ao topo do monte, e voltou-se para mim e me pediu que subisse depois de Pedro, dizendo: 'André, tu deves beber o cálice de Pedro.' E ele estendeu as mãos e disse: 'Aproxima-te de mim e estende tuas mãos para uni-las às minhas, e põe tua cabeça junto à minha.' Quando o fiz, encontrei-me mais baixo do que João. Depois disso, ele me disse: 'Queres conhecer a imagem daquilo que vês, e quem é que fala contigo?'; e eu disse: 'Desejo conhecê-la.' E ele me disse: 'Eu sou a palavra da cruz em que tu pendurás em breve, por causa do nome daquele que pregas.' E muitas outras coisas ele me disse, das quais nada devo dizer agora, mas que serão declaradas quando eu chegar ao sacrifício. Mas agora que se reúnam todos os que receberam a palavra de Deus, e que eu os encomende ao Senhor Jesus Cristo, para que ele se digne mantê-los sem mancha em seu ensino. Pois estou agora sendo solto do corpo e vou para aquela promessa que ele se dignou prometer-me, ele que é o Senhor do céu e da terra, o Filho de Deus Todo-Poderoso, verdadeiro Deus com o Espírito Santo, permanecendo pelos séculos eternos." (Tenho certeza de que João, na última parte desta visão, foi substituído por Gregório no lugar de Jesus. Os ecos dos Atos de João e de Pedro são muito evidentes aqui.)
Todos os irmãos choraram e bateram no rosto. Quando todos estavam reunidos, André disse: "Saibam, amados, que estou prestes a deixá-los, mas confio em Jesus, cuja palavra prego, que ele os guardará do mal, para que esta colheita que semeei entre vocês não seja arrancada pelo inimigo, isto é, o conhecimento e o ensino do meu Senhor Jesus Cristo. Mas orem sempre e permaneçam firmes na fé, para que o Senhor arranque todo o joio da ofensa e se digne reuni-los em seu celeiro celestial como trigo puro." Assim, por cinco dias ele os ensinou e fortaleceu; depois estendeu as mãos e orou: "Guarda, eu te suplico, ó Senhor, este rebanho que agora conheceu tua salvação, para que o maligno não prevaleça contra ele, mas que o que, por tua ordem e por meu intermédio, ele recebeu, possa preservar inviolado para sempre." E todos responderam: "Amém." Ele tomou o pão, partiu-o com ação de graças, deu a todos, dizendo: "Recebam a graça que Cristo, nosso Senhor Deus, lhes por mim, seu servo." Beijou a cada um e os encomendou ao Senhor, e partiu para Tessalônica, e, depois de ensinar ali por dois dias, deixou-os.