Capítulos

Juízes
Autoria e Data de Composição
A tradição rabínica atribui o livro ao profeta Samuel, mas o texto não menciona nenhum autor. O livro em si não contém qualquer indicação interna de autoria, e estudiosos modernos consideram a atribuição a Samuel improvável.
O consenso acadêmico desde Martin Noth (meados do século 20) é que Juízes faz parte da Obra Histórica Deuteronomista (OHDtr), junto com Josué, Samuel e Reis. O material foi composto e editado provavelmente durante o período do exílio babilônico (século 6 a.C.), usando fontes e tradições orais mais antigas. Alguns pesquisadores aceitam que um único editor cuidadoso selecionou, reescreveu e organizou as fontes disponíveis. Outras propostas apontam para uma primeira redação na época de Josias (final do século 7 a.C.) e uma revisão posterior durante o exílio.
Manuscritos
Data: Fragmentos de Qumran datados de cerca de 150 a.C. a 70 d.C.
Fragmentos do livro de Juízes foram identificados entre os Manuscritos do Mar Morto. A Septuaginta (LXX) possui duas tradições textuais distintas para Juízes: o manuscrito Vaticano (B) e o Alexandrino (A). Elas diferem consideravelmente em passagens importantes; estudiosos como Rahlfs consideram o Alexandrino mais próximo do grego original (Old Greek) para Juízes, embora ambos divirjam do Texto Massorético hebraico. Essa pluralidade textual indica que o livro circulou em formas variadas antes da padronização massorética.
Eventos do Livro
Prólogo: O Ciclo da Infidelidade

Juízes Maiores

- Otniel liberta Israel da opressão de Cusan-Risataim (Mesopotâmia) — (Jz 3:7)
- Eúde mata o rei Eglom de Moabe com uma faca oculta — (Jz 3:12)
- Débora, profetisa e juíza, lidera Baraque contra Sísera — (Jz 4:4)
- Cântico de Débora: um dos textos mais antigos da Bíblia Hebraica — (Jz 5:1)
- Chamado de Gideão para libertar Israel dos midianitas — (Jz 6:11)
- Gideão vence com 300 homens usando tochas e jarros (estratégia noturna) — (Jz 7:1)
- Israel oferece a Gideão a realeza; ele recusa, mas aceita ouro que vira ídolo — (Jz 8:22)
- Abimeleque (filho de Gideão) se proclama rei e massacra seus irmãos em Siquém — (Jz 9:1)
- Jefté, filho de prostituta, lidera Israel contra os amonitas — (Jz 11:1)
- Voto trágico de Jefté: promessa de sacrificar o que sair pela porta de sua casa — (Jz 11:30)
Sansão

- Nascimento de Sansão, nazireu dedicado antes do nascimento — (Jz 13:2)
- Sansão mata um leão com as mãos nuas; casamento com uma filisteia — (Jz 14:5)
- Sansão mata mil filisteus com uma queixada de jumento — (Jz 15:14)
- Dalila descobre o segredo de Sansão; ele é capturado e cegado — (Jz 16:4)
- Morte de Sansão: derruba as colunas do templo de Dagom sobre os filisteus — (Jz 16:28)
Apêndices: Caos Moral e Tribal

- Mica e o ídolo de prata: santuário improvisado com levita como sacerdote — (Jz 17:1)
- A tribo de Dã migra, rouba o ídolo de Mica e conquista Laís — (Jz 18:1)
- Crime em Gibeá: concubina violentada e assassinada por benjaminitas — (Jz 19:1)
- Guerra civil contra Benjamim pelas tribos de Israel — (Jz 20:1)
- Busca de esposas para Benjamim para evitar a extinção da tribo — (Jz 21:1)
Estrutura e Teologia
O livro é organizado em torno de um ciclo repetitivo: Israel apostata, cai sob opressão estrangeira, clama a Deus, recebe um libertador (o juiz), obtém paz, e recomeça o ciclo. Essa estrutura é reconhecida tanto como recurso literário quanto como argumento teológico do editor deuteronomista.
Evidências Históricas e Arqueológicas
Os eventos descritos em Juízes são situados grosseiramente entre 1200 e 1050 a.C., período que coincide com o colapso da Idade do Bronze Tardio e a chegada dos Povos do Mar (entre eles os filisteus) ao Mediterrâneo Oriental. A arqueologia confirma esse contexto de instabilidade regional. Porém, nenhuma figura específica como Gideão, Sansão ou Jefté foi confirmada por fontes externas ou inscrições. O Cântico de Débora (jz5), por sua linguagem arcaica, é considerado por vários linguistas um dos textos mais antigos da Bíblia Hebraica, possivelmente anterior ao século 11 a.C.