Juízes 19
Aconteceu também naqueles dias, em que não havia rei em Israel, que houve um homem levita, que, peregrinando aos lados da montanha de Efraim, tomou para si uma concubina, de Belém de Judá.
O refrão "naqueles dias não havia rei em Israel" abre este bloco final de Juízes (capítulos 17-21) e fecha o livro em 21:25, agora completado: "cada um fazia o que parecia reto aos seus olhos". A crítica histórico-literária costuma ver aí uma moldura redacional de viés pró-monarquia: ao retratar o período sem rei como caos moral, o redator (frequentemente situado na reforma josiânica do séc. VII a.C. ou no período pós-exílico) justifica a instituição da realeza. Há ainda uma camada de polêmica regional: a história localiza o horror em Gibeá de Benjamim, cidade natal de Saul, primeiro rei de Israel, enquanto a heroína é de Belém de Judá, cidade de Davi. Muitos estudiosos leem o conjunto como propaganda pró-Judá e antissaulida.A figura central é um levita peregrino que toma uma concubina. Os levitas, tribo sacerdotal sem território próprio, dependiam da hospitalidade das demais tribos. Nos apêndices de Juízes os levitas aparecem em papel ambíguo: nos capítulos 17-18 um levita serve de sacerdote mercenário no santuário particular de Mica e depois migra com a tribo de Dã; aqui, outro levita protagoniza a tragédia. A crítica vê nesses retratos uma desvalorização do clero não centralizado em Jerusalém, coerente com a agenda do redator.