Os mesmos fatos, lidos por duas lentes que discordam. Nenhuma das vozes fala pela posição da página: elas existem para que você veja o argumento mais forte de cada lado.
O plural de Elohim é plural de majestade, e o verbo singular confirma: ler a Trindade ali é anacronismo.
Do ponto de vista da filologia hebraica, a forma plural de Elohim é um dado bem mais domesticado do que o argumento sugere. O hebraico bíblico usa plurais morfológicos para expressar abstração, intensidade ou majestade sem qualquer ideia de contagem: assim como avot pode significar "paternidade" e não só "pais", Elohim funciona como um plural de excelência (o pluralis excellentiae de Gesenius), sinalizando plenitude divina, não quantidade de pessoas. A prova mais inconveniente para a leitura trinitária é que a mesma forma plural Elohim é aplicada a divindades pagãs estritamente individuais: Dagom dos filisteus e Camos dos moabitas são chamados de Elohim (Jz 11:24; Jz 16:23), e ninguém propõe uma trindade dentro de Dagom. O termo é até usado para juízes e seres humanos investidos de autoridade. Se a forma plural carregasse pluralidade de pessoas, ela a carregaria também ali, o que ninguém afirma.
A concordância verbal reforça a leitura singular, e isso é decisivo, porque em hebraico é o verbo que carrega o número. Em Gn 1:1 "bará" (criou) está no singular, e em Jz 16:23, quando o texto fala de Dagom como Elohim, o verbo que acompanha também é singular, marcando referência a um único deus. O hebraico tinha à disposição o plural verbal e o emprega quando quer dizer "deuses" de fato. A escolha sistemática do verbo singular junto a Elohim, ao longo de todo o corpus, é o sinal gramatical de que o referente é um, não muitos. Quanto a "façamos o homem" (Gn 1:26), "como um de nós" (Gn 3:22) e "desçamos" (Gn 11:7), a explicação mais econômica dentro do próprio mundo do texto não é o plural deliberativo isolado, mas a assembleia divina, o conceito de uma corte celeste em torno de Deus que é largamente atestado no Antigo Oriente Próximo e dentro da própria Bíblia hebraica (Sl 82, onde Elohim julga no meio dos "deuses"; 1Rs 22, com YHWH consultando o exército dos céus; Is 6:8, "quem irá por nós", com os serafins ao redor do trono).
O ponto historiográfico mais delicado é cronológico. A categoria de "pessoas distintas em uma só essência divina" é vocabulário forjado nos concílios dos séculos 4 e 5 (Niceia, Constantinopla, Calcedônia), com termos gregos de ousia e hypostasis que não têm equivalente no horizonte mental de um escriba do primeiro milênio antes de Cristo. Ler esse aparato dentro de Gn 1 é uma anacronia: importa-se para o texto uma distinção que ele não tinha como formular nem como pretender. Nada disso prova que a doutrina cristã posterior seja falsa enquanto teologia; é uma questão de método. O que a evidência gramatical e comparada sugere é que o plural de Elohim e os verbos no cohortativo são fenômenos hebraicos ordinários, e que a afirmação de inerrância tropeça quando precisa que o autor original já "soubesse", no idioma do seu tempo, de uma fórmula que só seria articulada quase mil anos depois.
Elohim sozinho não prova a Trindade, mas "façamos o homem à nossa imagem", seguido do singular, resiste à leitura de corte celeste.
Convém começar concedendo o que a crítica acerta. A forma plural de Elohim regida por verbo singular ("bará", criou) em Gn 1:1 não prova, por si, pluralidade de pessoas. A gramática hebraica conhece o pluralis excellentiae ou plural de majestade, catalogado por Gesenius e aceito pelo consenso semitista, no qual a forma plural intensifica grandeza ou plenitude sem indicar número. O próprio texto preserva as formas singulares El e Eloah, o que mostra que a língua tinha como dizer "Deus" no singular e ainda assim preferiu Elohim como designação corrente. Apologistas honestos reconhecem isto: "Elohim é plural, logo Trindade" prova demais (a mesma forma se aplica a deuses pagãos e a juízes humanos no Saltério) e, isolada, é um argumento fraco. Quem o usa como prova autônoma está pisando em terreno que a gramática não sustenta.
O caso mais resistente não está no substantivo, mas na cena deliberativa. Em Gn 1:26 lemos "façamos o homem à nossa imagem", e no versículo seguinte "criou Deus o homem à sua imagem": o plural da deliberação e o singular da execução aparecem colados na mesma unidade narrativa. A leitura do corte celeste (Deus dirigindo-se aos seres do conselho divino, hipótese séria defendida por estudiosos como Michael Heiser) explica o "façamos", mas tropeça no que vem depois. O ser humano não é feito à imagem dos anjos, e sim à imagem de Deus, que age sozinho no v. 27. Se o "nós" fosse a corte angelical, o texto teria de dizer que o homem foi feito à imagem deles também, e ele recusa exatamente isso. O plural deliberativo intradivino (Deus deliberando consigo) lida melhor com a alternância singular-plural do que o conselho externo, sem que se precise importar a Trindade para dentro da consciência do redator hebreu.
É aqui que o argumento honesto encontra seu limite e sua força ao mesmo tempo. O melhor caso não é gramatical, é canônico. Nenhum israelita do primeiro milênio antes de Cristo leu "façamos" (Gn 1:26), "um de nós" (Gn 3:22) ou "quem irá por nós" (Is 6:8) como doutrina trinitária, e seria anacrônico afirmar que leu. O que a fé cristã sustenta é mais modesto e mais interessante: que esses plurais, ambíguos e em aberto no horizonte do AT, ficam retrospectivamente coerentes à luz do Novo Testamento, sem que o texto antigo precise ser forçado. O dado linguístico não fecha a questão a favor da Trindade, e tampouco a fecha contra ela. Permanece em aberto se o plural deliberativo aponta para algo na interioridade de Deus ou é só convenção retórica; o que a evidência não autoriza é tratar o assunto como encerrado pela gramática, em qualquer das direções.