Um Gênesis em forma de sonho
O sonho não inventa um mundo qualquer. Ele reconta, em forma de história, o começo da Bíblia. O planeta feliz é o jardim do Éden esticado até virar um planeta inteiro: gente que vivia nua sem sentir vergonha, em paz com tudo, como Adão e Eva antes de comer do fruto proibido.
25 E ambos estavam nus, o homem e a sua mulher; e não se envergonhavam.
A corrupção que o narrador provoca segue, passo a passo, a Queda de Gênesis. Primeiro surge a vergonha, exatamente como Adão e Eva, que se escondem ao perceber que estão nus. Depois vem o primeiro sangue derramado, que ecoa Caim matando Abel. Por fim a humanidade se divide em nações e línguas, que lembra a torre de Babel.
6 E viu a mulher que aquela árvore era boa para se comer, e agradável aos olhos, e árvore desejável para dar entendimento; tomou do seu fruto, e comeu, e deu também a seu marido, e ele comeu com ela.
7 Então foram abertos os olhos de ambos, e conheceram que estavam nus; e coseram folhas de figueira, e fizeram para si aventais.
8 E falou Caim com o seu irmão Abel; e sucedeu que, estando eles no campo, se levantou Caim contra o seu irmão Abel, e o matou.
7 Eia, desçamos e confundamos ali a sua língua, para que não entenda um a língua do outro.
8 Assim o Senhor os espalhou dali sobre a face de toda a terra; e cessaram de edificar a cidade.
9 Por isso se chamou o seu nome Babel, porquanto ali confundiu o Senhor a língua de toda a terra, e dali os espalhou o Senhor sobre a face de toda a terra.
Ele quer ser crucificado
No fundo do desespero, vendo o estrago que causou, o narrador faz um pedido que nenhum leitor cristão lê por acaso: implora que o crucifiquem e ensina aquela gente a fazer uma cruz. Ele quer carregar sozinho a culpa de todos, sofrer no lugar de todos. É a figura de Cristo aparecendo dentro do sonho, em forma literária.
17 Eu estendia as mãos para eles em desespero, acusando, amaldiçoando e desprezando a mim mesmo. Eu lhes dizia que tudo aquilo era obra minha, só minha; que tinha sido eu a trazer a eles a corrupção, a contaminação e a falsidade. Eu lhes implorava que me crucificassem, eu lhes ensinava a fazer uma cruz.
Vale uma ressalva honesta: Dostoiévski não cita capítulo nem versículo em nenhum desses momentos. São alusões, não citações. Mas a estrutura de paraíso, queda e promessa de retorno é deliberada, e quem conhece Gênesis e os Evangelhos a reconhece sem esforço.