Um assunto que deixou de ser tabu
Durante a maior parte do século 20, dizer que Joseph Smith trabalhou como caçador de tesouros e usou uma pedra de vidente para procurar objetos perdidos era coisa de literatura hostil. Isso mudou. Hoje o fato é aceito por historiadores de todos os lados, aparece nos ensaios oficiais da Igreja SUD e a própria pedra foi fotografada e publicada pela Igreja em 2015. O que continua em disputa não é se aconteceu, e sim o quanto isso pesa na compreensão do que ele fez depois.
O emprego com Josiah Stowell, 1825
Em outubro de 1825, um fazendeiro idoso do Condado de Chenango chamado Josiah Stowell (grafado Stoal no texto canônico) contratou Joseph Smith, então com dezenove anos, para ajudar a localizar uma lendária mina de prata aberta por espanhóis em Harmony, Condado de Susquehanna, na Pensilvânia. Lucy Mack Smith registra o motivo declarado de Stowell: ele soubera que o rapaz possuía certos meios pelos quais podia discernir coisas invisíveis ao olho natural. A escavação durou perto de um mês e foi abandonada em 17 de novembro de 1825. O próprio Joseph Smith conta o episódio na autobiografia canonizada, sem esconder a natureza do trabalho.
56 No ano de 1823, a família de meu pai passou por uma grande dor com a morte de meu irmão mais velho, Alvin. No mês de outubro de 1825, empreguei-me com um senhor idoso chamado Josiah Stoal, que morava no Condado de Chenango, Estado de Nova York. Ele tinha ouvido falar de uma mina de prata aberta pelos espanhóis em Harmony, Condado de Susquehanna, Estado da Pensilvânia; e antes de me empregar, havia feito escavações com o fim de, se possível, descobrir a mina. Depois que fui morar com ele, levou-me com o resto de seus empregados para escavar, em busca da mina de prata, no que continuei a trabalhar por aproximadamente um mês sem alcançar sucesso em nosso empreendimento; e finalmente convenci aquele senhor a desistir de procurar a mina. Assim surgiu a história muito divulgada de haver sido eu um cavador de dinheiro.
O salário de catorze dólares por mês é conhecido, mas convém saber de onde vem: não de um contrato, e sim do depoimento do próprio Joseph Smith preservado no registro judicial de 1826, onde ele observa que o serviço nunca foi muito lucrativo. Existe um documento de sociedade datado de 1 de novembro de 1825, que reparte eventuais achados entre os investidores e os Smith, mas os editores dos Joseph Smith Papers advertem que ele não pode ser autenticado: nenhum manuscrito sobreviveu e o texto vem de uma republicação de jornal de 1880. A afirmação de que foi ele quem convenceu Stowell a parar de cavar é dele mesmo, escrita em 1838, e não tem confirmação externa.
A pedra de vidente
A pedra mais associada a Joseph Smith é marrom escura, do tamanho e do formato de um ovo, e foi encontrada enquanto ele ajudava a cavar um poço na propriedade de Willard Chase, a cerca de oitocentos metros da fazenda dos Smith. O ano é disputado. Willard Chase, em depoimento hostil de 1833, diz 1822 e acrescenta que a pedra era dele e nunca lhe foi devolvida. Pomeroy Tucker, escrevendo em 1867, diz 1819; Fayette Lapham, em 1870, diz 1820. Antes dessa, é atestada uma pedra branca, de origem incerta, por volta de 1819 ou 1820.
Não havia apenas uma. Brigham Young declarou em 1855 que Joseph Smith teve cinco pedras de vidente, e há indícios de que ele obteve outras já como presidente da igreja. Sally Chase, irmã de Willard, tinha uma pedra verde e também praticava a leitura de pedras em Palmyra, o que ajuda a mostrar que ele não era exceção no lugar onde vivia.
O contexto: magia popular no interior de Nova York
A referência acadêmica sobre isso é Alan Taylor, historiador de fora do universo mórmon, em dois artigos de 1986, um deles publicado na revista American Quarterly. A tese dele é que a caça a tesouros era uma prática difusa entre a população rural do nordeste dos Estados Unidos entre 1780 e 1830, ligada à chegada do mercado capitalista a regiões remotas, e que o registro jornalístico do período consiste sobretudo em zombaria das elites das vilas, o que por si só indica que a prática era comum o bastante para merecer zombaria. Varinhas de radiestesia, pedras de vidente, círculos e lendas sobre o tesouro do capitão Kidd faziam parte do repertório.
D. Michael Quinn levou o argumento mais longe em Early Mormonism and the Magic World View, sustentando que a cultura mágica é constitutiva do início do mormonismo, e não acessória. O livro ganhou prêmios de associações de história mórmon e recebeu críticas técnicas duras, a maior delas de William Hamblin, que acusa definição elástica de magia e citação seletiva. Richard Bushman, na biografia Rough Stone Rolling, fica no meio: escreve que os Smith eram tão suscetíveis quanto os vizinhos ao folclore dos tesouros, que magia e religião se fundiam na cultura da família, e que Joseph nunca repudiou as pedras nem negou o poder delas de achar tesouro, mas caracteriza o que houve depois de 1823 como uma reorientação, e não uma ruptura: a pedra continua, o objeto do olhar muda. Dan Vogel discorda do peso: para ele Joseph era um líder entre os videntes de tesouro de Manchester, e a tese de fraude piedosa que ele defende, a de um homem que se cria chamado por Deus e por isso se sentia autorizado a enganar, é interpretação, não achado documental.
O exame judicial de 1826
Em 20 de março de 1826, Joseph Smith foi levado perante o juiz de paz Albert Neely, em South Bainbridge, Condado de Chenango, Nova York. A denúncia partiu de Peter Bridgeman, sobrinho de Stowell. A acusação era de pessoa desordeira, sob a lei do estado de Nova York de 1813, que incluía nessa categoria quem fingisse dizer a sorte ou descobrir onde bens perdidos poderiam ser achados. Não foi um julgamento com júri: foi uma audiência perante um único juiz de paz. Gordon Madsen, que fez a análise jurídica mais detalhada do episódio, argumenta que foi uma audiência de mérito dentro da competência do próprio juiz, e não um mero exame preliminar, e esse ponto é discutido entre especialistas.
As quatro fontes que sobreviveram não contam a mesma história sobre o desfecho.
| Fonte | O que é | O que diz sobre o resultado |
|---|---|---|
| Conta de custas do juiz Albert Neely e conta do oficial de justiça De Zeng | Documentos de cobrança, achados por Wesley Walters em 1971 no porão da cadeia do Condado de Chenango, em Norwich | Nada. Registram a audiência, a causa como contravenção e a despesa; não trazem multa nem condenação |
| Abram Benton, 1831 | Artigo de jornal hostil, escrito cinco anos depois | Não detalha o desfecho |
| Oliver Cowdery, 1835 | Relato apologético publicado no Messenger and Advocate | Absolvido da acusação de pessoa desordeira |
| Charles Marshall, Fraser Magazine, Londres, fevereiro de 1873 | Transcrição de folhas do livro de registros de Neely, retiradas pela sobrinha dele, Emily Pearsall; as folhas originais se perderam | A corte considera o réu culpado |
| W. D. Purple, Chenango Union, 1877 | Recordação pessoal escrita 51 anos depois | Foi liberado |
É preciso ser preciso sobre o que essa documentação sustenta. Ela sustenta que a audiência ocorreu na data indicada, que a causa foi o uso de uma pedra de vidente para procurar tesouro, que Joseph Smith havia trabalhado para Stowell nesse tipo de serviço e que, segundo o registro do depoimento dele, admitiu a prática. As contas de custas são documentos físicos e contemporâneos, e é por isso que ninguém mais nega o episódio. O que a documentação não sustenta é um desfecho: não existe sentença conservada. A única fonte que diz culpado é a transcrição de um registro hoje perdido; as que dizem o contrário são apologéticas ou tardias. A própria página de tópicos históricos da Igreja SUD afirma que o resultado da audiência continua sendo um enigma e inclina-se para a absolvição como hipótese mais provável. Bushman, do outro ângulo, aceita o episódio como histórico e trata o desfecho como irresolvido pela evidência disponível.
A mesma página oficial registra duas concessões que tornam desnecessário recorrer a fontes hostis para os fatos básicos: que Joseph Smith testemunhou ter usado a pedra de tempos em tempos para procurar propriedade perdida, e que havia deixado de fazê-lo porque isso lhe machucava os olhos.
2015: a pedra fotografada
O reconhecimento público mais claro veio em 4 de agosto de 2015, quando a Igreja SUD lançou, em entrevista coletiva, o volume Revelations and Translations, Volume 3: Printer Manuscript of the Book of Mormon, da série Joseph Smith Papers. Junto com o volume foram publicadas as primeiras fotografias da pedra de vidente marrom, guardada pela Igreja desde o século 19. O artigo Joseph the Seer, da revista Ensign de outubro de 2015, publicado antecipadamente online para coincidir com o lançamento, trata do assunto diretamente. Antes disso, o ensaio A Tradução do Livro de Mórmon, da série de tópicos do evangelho publicada em dezembro de 2013, já havia registrado que Joseph Smith, como jovem na década de 1820 e como outros de seu tempo, usou uma pedra de vidente para procurar objetos perdidos e tesouros enterrados, e que depois aprendeu a usá-la para o propósito mais elevado de traduzir escritura.
O leitor fica com dois fatos que precisam ser sustentados juntos. O primeiro é que a prática existiu, é documentada e hoje é admitida pela instituição. O segundo é que, sozinha, ela não decide nada: se o mesmo instrumento e a mesma disposição de olhar dentro de uma pedra explicam tudo o que veio depois, ou se marcam apenas o ponto de partida cultural de alguém que passou a fazer outra coisa, é exatamente onde Vogel, Quinn e Bushman divergem.