Os mesmos fatos, lidos por duas lentes que discordam. Nenhuma das vozes fala pela posição da página: elas existem para que você veja o argumento mais forte de cada lado.
O Salmo 22 e um lamento real relido cristologicamente, e a leitura "traspassaram" pende de uma unica letra cujo testemunho antigo e mais fragil do que a pagina sugere.
Vale comecar concedendo o que e honesto conceder: a frase do versiculo 18, sobre repartir as vestes e lancar sortes, e citada quase ao pe da letra nos quatro Evangelhos, e o clamor de abertura do salmo foi posto na boca de Jesus na propria cena da cruz. Isso nao e coincidencia, e a pagina acerta ao dizer que ha convergencia. Mas a questao nao e se os Evangelhos usaram o Salmo 22, e sim como. O salmo inteiro estava disponivel a qualquer judeu do primeiro seculo como liturgia de sofrimento, e quem compoe um relato de paixao com esse texto aberto na frente vai naturalmente narrar os fatos com o vocabulario do salmo. A presenca dos detalhes no Evangelho prova que os evangelistas conheciam o salmo, nao que o salmista conhecia a crucificacao.
O ponto que a pagina apresenta com mais cuidado, e tambem onde ela e um pouco generosa, e o testemunho textual de kaaru contra kaari. O Texto Massoretico le "como um leao", e a leitura verbal "traspassaram" depende de trocar um yod por um vav, duas letras hebraicas que no periodo eram quase identicas no traço. A pagina credita "Qumran (Mar Morto)" como apoio a forma verbal, mas a fonte precisa e o fragmento de salmos de Nahal Hever (5/6HevPs), do Deserto da Juda, e o que ali se le e disputado: a tinta esta apagada, as hastes verticais nao tem comprimento uniforme, e o mesmo escriba comete varios erros de grafia na mesma frase. Ou seja, o melhor manuscrito antigo que apoiaria "traspassaram" e exatamente o mais ambiguo paleograficamente. A Septuaginta de fato verteu por um verbo ("cavaram" ou "perfuraram"), e isso e antigo e relevante, mas mostra como tradutores judeus pre-cristaos ja liam um verbo num texto consonantal incerto, nao que o original dissesse crucificacao.
O argumento decisivo, a meu ver, e de genero. O Salmo 22 e um lamento individual classico do saltério: o sofredor descreve sua angustia em imagens hiperbolicas (ossos a mostra, cercado por touros e caes, lingua colada ao ceu da boca) e termina, do versiculo 22 em diante, louvando a Deus pelo livramento e convocando a assembleia. Um homem efetivamente crucificado nao escreve a segunda metade do proprio salmo. As imagens sao linguagem poetica de aflicao, nao laudo de execucao, e a propria leitura de "duplo cumprimento" que os apologetas usam em Is 7:14 vale aqui contra eles: se o salmo tem um sentido proximo real, entao o detalhe das maos e pes nao precisa ser predicao de uma pena romana que nem existia. Para a tese da inerrancia, isso e o ponto sensivel. Releitura cristologica de um texto antigo e teologia legitima e fecunda, e foi assim que a igreja primitiva leu suas Escrituras. Mas chamar isso de predicao verbal e inerrante de um evento futuro especifico transforma uma decisao interpretativa, mais uma letra contestada num fragmento gasto, em prova de autoria divina, e o peso probatorio nao sustenta o tamanho da afirmacao.
A leitura "traspassaram" tem apoio textual antigo real (Septuaginta e o fragmento de Nahal Hever), e o Salmo 22 funciona como lamento davídico e tipo messiânico ao mesmo tempo, sem que uma coisa anule a outra.
O ponto crítico da página é honesto e precisa ser encarado de frente: a frase do versículo 16 depende de uma única letra hebraica, e o Texto Massorético de fato traz kaari, "como um leão". Não adianta fingir que "traspassaram" é a leitura óbvia do hebraico padrão, não é. Mas a página também acerta ao registrar que a forma verbal kaaru tem testemunho antigo independente. A Septuaginta, traduzida por judeus no século II ou III a.C., muito antes de qualquer controvérsia cristã, leu um verbo ("perfuraram", em grego oryxan). E o fragmento de Salmos de Nahal Hever (5/6HevPs), datado por volta de 50 a 68 d.C., parece preservar kaaru. Há scholars que apontam que a tinta do fragmento está apagada e que os traços verticais não são uniformes, o que mantém a leitura em disputa. Isso é real. O que não se pode mais sustentar é a tese antiga de que "traspassaram" foi uma invenção cristã tardia projetada para trás: a variante verbal já circulava em ambiente judaico antes do cristianismo existir.
O enquadramento de fundo, no entanto, parte de uma falsa alternativa: ou é lamento de Davi ou é profecia da crucificação. A tradição interpretativa judaico-cristã nunca trabalhou assim. Um salmo pode ser, na origem, a voz angustiada de um sofredor real (o gênero do lamento individual, abundante no saltério) e, ao mesmo tempo, funcionar como tipo que encontra realização mais plena depois. É exatamente o padrão que Isaías 53:5 ("ferido por nossas transgressões") representa: um texto sobre sofrimento vicário relido messianicamente porque sua linguagem excede o caso particular. Dizer que os Evangelhos "releram retrospectivamente" descreve o que aconteceu, mas não decide se a releitura é arbitrária ou se o próprio texto a convida. E o Salmo 22 convida: a repartição das vestes por sorte (v. 18) não é metáfora genérica de pobreza, é uma cena específica que os quatro Evangelhos relatam de modo convergente. O cético tem razão em pedir cautela; o leitor cristão tem razão em notar que a soma dos detalhes (desamparo, escárnio, ossos à mostra, vestes sorteadas) é densa.
O que fica genuinamente em aberto eu não vou esconder. Mesmo que kaaru seja a leitura original, o verbo hebraico karah significa primariamente "cavar", e "perfurar mãos e pés" é uma extensão de sentido, não uma descrição técnica de crucifixão (forma de execução que, de fato, não existia como pena no Israel de Davi). A força do argumento cristão não está em provar que Davi "viu" cruzes de madeira romanas, e sim em mostrar que a linguagem do salmo é estranhamente apta ao evento. Quanto à objeção de que tudo é coincidência ou encaixe forçado, ela enfraquece diante do testemunho textual pré-cristão da variante verbal, mas não desaparece, porque a coincidência de imagens nunca constitui prova matemática. O resultado é o que a apologética honesta deve admitir: a evidência textual derruba a acusação de fraude cristã e torna a leitura "traspassaram" defensável, mas não força o cético a concluir intenção profética. Fica de pé um texto que comporta as duas leituras, e a decisão entre "acaso poético" e "providência" depende de pressupostos que a filologia, sozinha, não resolve.