Isaías 7:14 promete um sinal: "a virgem conceberá e dará à luz um filho, e lhe chamará Emanuel". Mateus cita o versículo como cumprido no nascimento virginal de Jesus. A passagem é o centro de uma das disputas filológicas mais antigas entre judeus e cristãos.
Almah, betulah e parthenos
O hebraico de Isaías usa almah, palavra que designa uma jovem em idade de casar, sem afirmar tecnicamente virgindade. O hebraico tem um termo mais específico para virgem, betulah, que Isaías não usou aqui. A tradução grega da Septuaginta verteu almah por parthenos, que em grego carrega o sentido mais forte de virgem, e foi essa versão grega que Mateus citou.
Termo
Língua
Sentido
almah
Hebraico (Isaías)
Jovem em idade de casar
betulah
Hebraico (não usado aqui)
Virgem em sentido estrito
parthenos
Grego (Septuaginta, Mateus)
Virgem
O sinal a Acaz
O contexto imediato (Isaías 7 e 8) é uma crise política: o rei Acaz de Judá está sob ameaça de uma coalizão inimiga, e o profeta oferece um sinal de que a ameaça passará em breve, antes que a criança anunciada cresça o suficiente para "rejeitar o mal e escolher o bem". A leitura cética sustenta que o sinal precisava ter sentido para Acaz no século 8 a.C., apontando para um nascimento iminente naquela geração, não para um evento setecentos anos depois.
A leitura cristã admite o contexto histórico imediato, mas vê um duplo cumprimento: um sinal próximo para Acaz e um sentido pleno e final no nascimento de Cristo. A disputa gira em torno de saber se Mateus leu corretamente o texto hebraico ou se construiu sua narrativa a partir da escolha de palavra da Septuaginta.
O debate
Perspectivas sobre este tema
Os mesmos fatos, lidos por duas lentes que discordam. Nenhuma das vozes fala pela posição da página: elas existem para que você veja o argumento mais forte de cada lado.
Crítico HistóricoNo hebraico, Isaías 7:14 dava um sinal de prazo curto a Acaz no século 8 a.C.; a "virgem" nasce da escolha de palavra da Septuaginta, e Mateus construiu o argumento sobre o grego, não sobre o original.
A própria tabela da página entrega o problema com honestidade rara: o hebraico tinha uma palavra técnica para virgem, betulah, e Isaías não a usou. Ele escreveu almah, jovem em idade de casar, termo que descreve estado social e não físico. A passagem para parthenos, que em grego puxa para o sentido estrito de virgem, acontece na travessia do hebraico para a Septuaginta, ou seja, em uma tradução feita por judeus alexandrinos no século 3 ou 2 a.C., bem antes de qualquer debate cristão. Mateus não cita o hebraico de Isaías; ele cita a Septuaginta. Quando a página pergunta se ele leu corretamente o original ou construiu a narrativa a partir da escolha de palavra do tradutor grego, a evidência filológica já respondeu: o evangelista está raciocinando sobre um texto grego cujo vocabulário diverge do que Isaías de fato escreveu.
O contexto que a página descreve em Isaías 7 e 8 fecha o caso no plano do sentido original. O sinal serve a Acaz, sob cerco da coalizão de Israel e Síria, e seu valor depende de um prazo: antes que a criança saiba rejeitar o mal e escolher o bem, a ameaça terá passado. Um sinal cujo cumprimento estivesse a setecentos anos de distância seria inútil para um rei que precisava de garantia naquela década. O próprio livro parece dar a resposta no capítulo seguinte, com o nascimento do filho do profeta, Maher-Shalal-Hash-Baz, sobre quem se repete a mesma fórmula do prazo curto antes que o menino saiba dizer pai e mãe. O Emanuel de Isaías 7:14 funciona como relógio político de uma geração, não como anúncio de nascimento virginal.
Isso não transforma o cristianismo em fraude, e convém não exagerar. A leitura de cumprimento pleno que Mateus faz é um método interpretativo judaico legítimo de sua época, o mesmo pesher que relê textos antigos buscando sentidos atuais, e os próprios contemporâneos liam profecia assim. Mas reler não é o que o texto afirma de si. O ponto que a doutrina da inerrância não consegue absorver é que a profecia da virgem só existe como tal em grego, e que ela nasce de uma escolha de tradutor, não de uma palavra que o profeta tenha escrito. Quando uma afirmação central sobre a identidade de Jesus depende da divergência entre almah e parthenos, fica difícil sustentar que cada palavra do original foi ditada sem erro. O que se tem é literatura humana relendo literatura humana com habilidade, e isso já é fascinante o bastante sem precisar ser sobrenatural.
Apologista EvidencialA escolha da Septuaginta nao foi um erro de Mateus: parthenos para almah ja era leitura judaica tres seculos antes de Cristo, e o texto comporta um cumprimento duplo que nem o sinal a Acaz nem o nascimento virginal anulam.
A pagina acerta na descricao filologica e e justo conceder o que ela concede. Almah de fato designa uma jovem em idade de casar e nao e o termo tecnico para virgindade fisica; o hebraico tinha betulah a disposicao e Isaias nao o usou em Is 7:14. So que a conclusao limpa de que 'almah significa jovem e betulah significa virgem' nao sobrevive ao proprio texto hebraico. Em Joel 1:8 a betulah lamenta 'o marido da sua mocidade', o que torna a suposta precisao do termo bem menos cirurgica do que o quadro sugere. As palavras hebraicas para idade e estado sexual se sobrepoem, e almah, em todos os usos biblicos, nunca aparece descrevendo uma mulher casada ou nao virgem. A leitura cetica esta certa de que almah nao prova virgindade; ela exagera ao sugerir que almah a exclui.
O peso real da disputa esta na Septuaginta, e aqui o dado historico corta contra a tese de que Mateus inventou a virgem. Foram tradutores judeus de Alexandria, por volta do seculo 3 a.C., que verteram almah de Is 7:14 por parthenos, palavra grega de sentido mais forte de virgem. Isso e quase trezentos anos antes de Mateus existir. Os mesmos tradutores, alias, foram seletivos: dos varios usos de almah na Biblia hebraica, so traduziram por parthenos em Gn 24:43 (Rebeca, ja chamada betulah no contexto) e em Is 7:14. Ou seja, a escolha de parthenos em Isaias foi uma leitura interpretativa judaica deliberada, nao um deslize cristao. Quando Mt 1:22-23 cita a passagem, ele cita um texto grego que ja lia virgem, dentro de uma tradicao de traducao que nao tinha agenda messianica crista. Vale a honestidade reversa tambem: parthenos nao e blindado, ja que a Septuaginta chama Dina de parthenos em Gn 34:3 depois da violencia sofrida. Nenhum dos lados tem o termo perfeito.
O que de fato fica em aberto e o sentido para Acaz, e aqui a pagina ja entrega a chave ao admitir o contexto de Is 7 e 8. Um sinal que so se cumpre setecentos anos depois nao consola um rei sitiado no seculo 8 a.C., e essa objecao e seria. A resposta evidencial nao e negar o cumprimento proximo, e reconhecer que a profecia hebraica opera com frequencia em camadas, um horizonte imediato e um horizonte pleno, o padrao que estudiosos como John Walton descrevem ao tratar texto profetico dentro das convencoes do Antigo Oriente Proximo. O sinal de uma crianca nascida na geracao de Acaz como relogio do juizo iminente e historico e real; a leitura de Mateus le esse mesmo padrao tipologico levado ao limite no nascimento de Jesus, como ele faz com outros textos (compare o uso tipologico de Os 11:1 em Mt 2:15). O que a filologia nao consegue fechar sozinha e se esse segundo horizonte e legitimo ou imposto. Quem ja rejeita por metodo qualquer cumprimento sobrenatural vai ler dupla referencia como leitura forcada; quem admite que profecia possa ter mais de um foco vai ver continuidade. A evidencia lexica nao decide essa questao, e e desonesto fingir, de qualquer lado, que decide.