Os mesmos fatos, lidos por duas lentes que discordam. Nenhuma das vozes fala pela posição da página: elas existem para que você veja o argumento mais forte de cada lado.
As 70 semanas não calculam a vinda de Jesus: o relógio foi feito para a crise macabaica e só chega a 33 d.C. com decretos escolhidos a dedo.
A propria pagina ja concede o ponto mais importante, e e justo reconhecer isso: os esquemas apologeticos partem de decretos diferentes (Ciro, ou Artaxerxes em datas distintas) e, por contas variadas, chegam a uma janela proxima a Jesus. Isso nao e um detalhe menor. Quando o ponto de partida e movel e o ponto de chegada e fixo de antemao, voce nao tem uma profecia que preve uma data, voce tem uma data conhecida para a qual se escolhe o decreto que fecha a conta. A precisao some no momento em que se percebe que ha varios pontos de partida disponiveis e que so um deles aterrissa em 33 d.C. Um relogio que so marca a hora certa depois que voce ja sabe a hora nao esta medindo o tempo, esta sendo ajustado para ele.
O contexto interno de Daniel 9 aponta para outro alvo, e a evidencia textual aqui e concreta. O proprio capitulo abre Daniel debrucado sobre a profecia dos setenta anos de Jeremias (Jr 25:11, Jr 29:10), e as setenta semanas surgem como releitura desse numero, setenta multiplicado por sete. O 'ungido que sera cortado' do v. 26 tem um candidato historico documentado: Onias III, o sumo sacerdote (e 'ungido' e o que sumo sacerdote literalmente significa) assassinado por volta de 171 a.C., crime que 2 Macabeus 4 narra em detalhe. O mesmo personagem reaparece em Daniel 11:22 na mesma cena de queda. Quando um texto te entrega o relogio (Jeremias), a vitima (um ungido cortado) e ate a data aproximada, e o leitor antigo tinha esses referentes a mao, ler 'Jesus' ali exige ignorar o que o capitulo coloca na frente do proprio nariz.
No fundo, como a pagina diz com honestidade, o debate das 70 semanas e inseparavel da datacao de Daniel, e aqui o peso probatorio e pesado. A razao pela qual o consenso critico data o livro por volta de 165 a.C. nao e preconceito antissobrenatural, e um padrao textual: Daniel 11 descreve as guerras entre Ptolomeus e Selucidas e a perseguicao de Antioco IV com exatidao quase notarial ate certo ponto, e entao erra. O capitulo preve que Antioco morrera na Terra Santa, entre o mar e o monte santo (Dn 11:45), e ele morreu na Persia. Profecia que acerta tudo ate uma data e erra logo depois dela e a assinatura de um texto escrito naquela data, olhando para tras como se olhasse para frente. Isso nao destroi o valor de Daniel como literatura de resistencia de um povo sob tirania, mas desmonta a alegacao especifica de que o capitulo 9 cronometrou, do seculo VI, a morte de Cristo no seculo I. O calendario foi feito para a crise dos Macabeus, e foi reaplicado a Jesus seculos depois pela mesma operacao retrospectiva que ja vimos no Salmo 22 e em Isaias 53.
Daniel 9 prefigura genuinamente um ungido cortado antes da destruicao de Jerusalem, mas os calculos cristaos de ano exato so convencem quem ja aceitou a conclusao: a forca esta no padrao, nao na aritmetica.
Preciso comecar concedendo o que a pagina ja concede com honestidade, e que apologetas populares raramente admitem: a flexibilidade do ponto de partida nos calculos das 70 semanas e um problema real, nao uma invencao cetica. Quando um esquema escolhe o decreto de Ciro e outro o de Artaxerxes em datas distintas, ajusta anos solares ou profeticos de 360 dias, e ainda assim todos pousam convenientemente perto do ministerio de Jesus, o cetico tem razao em desconfiar de calibracao retroativa. Sir Robert Anderson e seus herdeiros produziram contas elegantes que aparentam precisao matematica, mas a aparencia de precisao e justamente o que deveria nos deixar atentos: quando varios caminhos incompativeis entre si chegam ao mesmo alvo, isso sugere que o alvo foi fixado antes da conta. Defender Daniel 9 a partir da aritmetica do dia exato e construir a casa sobre o terreno mais fragil que o texto oferece.
Mas ha um dado que a leitura historico-critica precisa explicar e que costuma passar rapido demais: Daniel 9:25-26 nao diz apenas que um ungido vira, diz que um ungido sera cortado, e que depois disso o povo de um principe destruira a cidade e o santuario. A sequencia ungido cortado, e entao Jerusalem e o templo arruinados esta no texto, e qualquer datacao de Daniel anterior a 70 d.C., inclusive a datacao macabaica de 165 a.C. que os criticos defendem, coloca essa linha antes da destruicao romana. A leitura macabaica resolve metade disso identificando o ungido cortado com o sumo sacerdote Onias III, assassinado por volta de 171 a.C., e isso e exegese seria, nao desespero apologetico. O que ela explica com menos folego e por que o texto amarra a morte do ungido a uma destruicao posterior do santuario que Antioco IV profanou mas nao destruiu. John Goldingay, que aceita datacao tardia para boa parte de Daniel, reconhece que o capitulo 9 trabalha com uma cronologia esquematica e simbolica mais do que com um calendario, e e ai que eu situo a forca da profecia: nao no ano, mas na estrutura de um ungido morto antes da ruina da cidade.
Onde de fato fica em aberto, e fica: a datacao de Daniel governa quase tudo. Se o livro foi composto por volta de 165 a.C., as 70 semanas sao releitura dos 70 anos de Jeremias aplicada a crise selucida, e a aplicacao a Jesus em Lc 24:44 e tipologia crista posterior, nao previsao. Kenneth Kitchen defende elementos persas e linguisticos que empurram parte do material para mais cedo, mas o aramaico imperial, os emprestimos gregos no capitulo 3 e a precisao da historia helenistica no capitulo 11 continuam sendo o melhor argumento dos criticos, e e um argumento de peso que nao se dissolve citando manuscritos de Qumran. Minha posicao honesta e esta: a leitura messianica de Daniel 9 nao se sustenta como prova matematica da data da cruz, e quem a vende assim entrega ao cetico uma vitoria facil. Ela se sustenta, se e que se sustenta, como um padrao de ungido cortado e santuario destruido que o cristianismo primitivo leu em Jesus dentro de uma tradicao judaica que ja esperava algo do tipo, do servo ferido de Is 53:5 ao ressuscitado de 2Mc 7:9. Isso e tipologia teologica defensavel; nao e a calculadora profetica que prometeram a voce.