Negros e o Sacerdócio na Igreja Mórmon

O que foi a restrição

De 1852 a 1978, homens de ascendência africana negra não podiam ser ordenados ao sacerdócio na Igreja SUD, e homens e mulheres negros não podiam participar das ordenanças do templo, incluindo o selamento matrimonial eterno. Podiam ser batizados e ser membros, mas ficavam de fora do que a teologia SUD considera essencial: no mormonismo praticamente todo homem digno é ordenado, o que faz da exclusão do sacerdócio uma exclusão da vida normal da comunidade, e não uma restrição a um clero profissional.

A origem

A restrição não veio de uma revelação escrita nem foi canonizada. Ela foi anunciada publicamente por Brigham Young em 1852, quando ele declarou perante a legislatura territorial de Utah que homens de ascendência africana negra não poderiam ser ordenados. O ensaio da Igreja publicado em 2013 registra que, no início do movimento, alguns homens negros foram ordenados: Elijah Abel recebeu o sacerdócio em 1836 e foi ordenado setenta, e Q. Walker Lewis foi ordenado em Massachusetts nos anos 1840. A prática restritiva, portanto, endureceu depois de Joseph Smith, e não com ele.

As justificativas dadas ao longo do século seguinte apelaram a passagens de escritura SUD, lidas então como associando linhagem, pele escura e ausência de direito ao sacerdócio. As duas mais citadas estão na Pérola de Grande Valor e no Livro de Mórmon.

26 O Faraó, sendo um homem justo, estabeleceu o seu reino e julgou o seu povo sábia e justamente todos os seus dias, procurando sinceramente imitar a ordem estabelecida pelos pais nas primeiras gerações, nos dias do primeiro reinado patriarcal, sim, no reinado de Adão e também de Noé, seu pai, que o abençoou com as bênçãos da terra, e com as bênçãos da sabedoria, mas amaldiçoou-o com respeito ao Sacerdócio.

27 Sendo o Faraó dessa linhagem pela qual ele não tinha direito ao Sacerdócio, embora os Faraós o reivindicassem por sua descendência de Noé, através de Cão; assim meu pai foi desviado pela idolatria deles;

22 E Enoque também viu os remanescentes do povo que eram os filhos de Adão; e eram uma mistura de toda a semente de Adão, exceto a de Caim, pois a semente de Caim era negra e não tinha lugar entre eles.

21 E ele fez cair a maldição sobre eles, sim, uma dolorosa maldição, por causa de sua iniquidade. Pois eis que haviam endurecido o coração contra ele de tal modo que se tornaram como uma pedra; e como eram brancos, notavelmente formosos e agradáveis, a fim de que não fossem atraentes para meu povo o Senhor Deus fez com que sua pele se tornasse escura.

Ao lado dessas, circulavam explicações populares sem base textual, como a de que os espíritos daqueles nascidos negros teriam sido menos valentes num conflito pré-mortal. O mesmo cânone, porém, contém uma afirmação em sentido contrário, que se tornou central na leitura atual.

33 Pois nenhuma destas iniquidades vem do Senhor, porque ele faz o que é bom para os filhos dos homens; e não faz coisa alguma que não seja clara para os filhos dos homens; e convida todos a virem a ele e a participarem de sua bondade; e não repudia quem quer que o procure, negro e branco, escravo e livre, homem e mulher; e lembra-se dos pagãos; e todos são iguais perante Deus, tanto judeus como gentios.

Também é registro histórico que, em 1978, houve mudança de redação em outra passagem do mesmo livro: em 1981 a Igreja alterou 2 Néfi 30:6 de "branco e encantador" para "puro e encantador", retomando uma correção que o próprio Joseph Smith havia feito na edição de 1840.

1978: a revelação e a Declaração Oficial 2

A pressão sobre a restrição cresceu ao longo dos anos 1960 e 1970, tanto pelo movimento pelos direitos civis quanto por um problema prático: a Igreja crescia rapidamente no Brasil, país de população mestiça em larga escala, onde determinar linhagem era inviável, e estava construindo um templo em São Paulo.

Em 1 de junho de 1978, reunidos no templo de Salt Lake City, o presidente Spencer W. Kimball e os demais líderes declararam ter recebido revelação encerrando a restrição. O anúncio foi divulgado em 8 de junho e afirmava que o Senhor havia confirmado por revelação que o dia longamente prometido chegara, e que todos os irmãos dignos poderiam receber o sacerdócio. A declaração foi aceita em conferência geral em 30 de setembro de 1978 e canonizada como Declaração Oficial 2 de Doutrina e Convênios.

AnoEvento
1836Elijah Abel, homem negro, é ordenado ao sacerdócio
1852Brigham Young anuncia a restrição perante a legislatura de Utah
1949 e 1969A Primeira Presidência reafirma a restrição em declarações públicas
1978Revelação a Spencer W. Kimball encerra a restrição; Declaração Oficial 2
19812 Néfi 30:6 passa de "branco e encantador" para "puro e encantador"
2013Ensaio "Raça e o Sacerdócio" repudia as justificativas raciais do passado

O ensaio de 2013

Em dezembro de 2013, a Igreja publicou o ensaio "Raça e o Sacerdócio", parte da série de ensaios sobre tópicos do evangelho. O documento é notável por ir além de encerrar a prática: ele repudia as explicações que a sustentavam. Nas palavras do texto, a Igreja hoje repudia as teorias defendidas no passado de que a pele negra é sinal de desfavor ou maldição divina, ou de que reflete atos iníquos numa vida pré-mortal; de que casamentos inter-raciais são pecado; ou de que negros ou pessoas de qualquer outra raça ou etnia sejam inferiores a quem quer que seja.

O ensaio também situa a restrição no seu contexto: descreve a origem em 1852 sob Brigham Young, reconhece que não há revelação escrita conhecida que a tenha instituído, e enquadra o período dentro da história racial dos Estados Unidos do século 19, sem usar esse contexto como desculpa.

O que permanece em discussão

Duas questões seguem em aberto, e nenhuma delas é resolvida pelo ensaio. A primeira é que o repúdio às justificativas não vem acompanhado de um pedido formal de desculpas, algo que membros negros e organizações como a Genesis Group pediram publicamente mais de uma vez. A segunda é doutrinária: se as explicações eram erradas, resta a pergunta sobre como uma política sustentada por mais de um século por líderes tidos como profetas se manteve, e o que isso implica para a compreensão SUD da falibilidade da liderança. O ensaio reconhece que a Igreja não sabe por que a restrição existiu, e essa admissão é ela própria parte do dado histórico.