Como um Cristão Deve Ler o Grande Inquisidor

Quem está falando, afinal

Antes de qualquer coisa, é preciso lembrar quem fala. As palavras do Grande Inquisidor não são de Dostoiévski. São de um personagem, o velho cardeal, que é o vilão do poema. E esse velho foi inventado por outro personagem, Ivan Karamázov, o irmão que não crê em Deus. Quando você lê a acusação contra Cristo, está ouvindo a voz de um ateu colocando palavras na boca de um vilão. Tratar isso como se fosse a opinião do autor é o erro mais comum, e o mais grave.

Dostoiévski era um cristão ortodoxo convicto. Numa carta, ele disse que tinha construído de propósito a acusação mais forte possível contra a fé, justamente para depois respondê-la com o restante do romance. O Grande Inquisidor não é a tese de Dostoiévski: é o adversário mais bem armado que ele soube imaginar, montado para ser derrotado, não para vencer.

A acusação é forte de propósito

É honesto reconhecer que o poema é desconfortável. O Inquisidor toca numa ferida real: as pessoas, muitas vezes, preferem segurança a liberdade, e instituições religiosas, ao longo da história, de fato trocaram fé livre por poder e medo. Dostoiévski não suaviza isso. Ele deixa o velho falar até o fim, com força total. Dentro do próprio poema, porém, há uma pista de como lê-lo: Aliócha, ouvindo, percebe que o discurso, em vez de acusar Cristo, acaba sendo um elogio a Ele.

2 "Mas... isso é absurdo!", exclamou, corando. "O seu poema é um elogio a Jesus, não uma acusação contra Ele, ao contrário do que você pretendia. E quem vai acreditar em você sobre a liberdade? É assim que se deve entendê-la? Não é essa a ideia que dela tem a Igreja Ortodoxa... Isso é Roma, e nem sequer toda a Roma, é falso, são os piores entre os católicos, os inquisidores, os jesuítas! E não poderia existir uma criatura tão fantasiosa quanto o seu Inquisidor. Que pecados da humanidade são esses que eles tomam sobre si? Quem são esses guardiões do mistério que tomaram sobre si alguma maldição pela felicidade da humanidade? Quando foram vistos? Conhecemos os jesuítas, falam mal deles, mas com certeza não são o que você descreve. Não são nada disso, nada disso... São apenas o exército de Roma, voltado para a soberania terrena do mundo no futuro, com o Pontífice de Roma como Imperador... esse é o ideal deles, mas não nele nenhum tipo de mistério ou melancolia elevada... É puro desejo de poder, de ganho terreno imundo, de dominação, algo como uma servidão universal com eles como senhores, é isso que defendem. Talvez nem mesmo creiam em Deus. O seu Inquisidor sofredor é pura fantasia."

A resposta de Cristo: o silêncio e o beijo

O ponto mais importante para um leitor cristão é como Cristo responde. Ele não responde. Durante todo o longo discurso, o prisioneiro fica calado. No fim, em vez de um contra-argumento, Ele se aproxima do velho e o beija nos lábios. O beijo é toda a resposta. Onde o Inquisidor empilha razões, o poder e o medo, Cristo opõe um gesto de amor livre, exatamente aquilo que o velho disse ser fraco demais para os homens.

10 "Eu pretendia terminá-lo assim. Quando o Inquisidor parou de falar, esperou algum tempo que o seu Prisioneiro lhe respondesse. O silêncio dEle pesava sobre ele. Ele viu que o Prisioneiro tinha escutado tudo atentamente, olhando-o com brandura no rosto e evidentemente não querendo responder. O velho ansiava que Ele dissesse algo, por mais amargo e terrível que fosse. Mas Ele de repente se aproximou do velho em silêncio e suavemente o beijou nos lábios envelhecidos e sem sangue. Foi essa toda a Sua resposta. O velho estremeceu. Seus lábios se moveram. Ele foi até a porta, abriu-a e disse a Ele: 'Vai, e não venhas mais... não venhas nunca, nunca, jamais!'. E o deixou sair para os becos escuros da cidade. O Prisioneiro foi embora."

Esse silêncio diz algo que um cristão reconhece. Diante de Caifás e de Pilatos, o próprio Jesus dos Evangelhos também ficou calado, como o cordeiro que não abre a boca. A acusação do Inquisidor não se refuta com mais palavras do que ele mesmo já gastou; ela se desfaz diante de um amor que não se impõe. O beijo não convence pela lógica, e é esse o ponto: a fé que Cristo quer não nasce de uma vitória de argumento, mas de um amor recebido livremente.

7 Ele foi oprimido e afligido, mas não abriu a sua boca; como um cordeiro foi levado ao matadouro, e como a ovelha muda perante os seus tosquiadores, assim ele não abriu a sua boca.

61 Mas ele calou-se, e nada respondeu. O sumo sacerdote lhe tornou a perguntar, e disse-lhe: És tu o Cristo, Filho do Deus Bendito?

O que levar e o que pesar

O que pesar com cuidado: o poema é uma ficção dentro de outra, e a sua acusação é montada para ser forte. Não se deve confundir a voz do Inquisidor com a do autor, nem tomar a sua descrição cruel da Igreja como um veredicto histórico equilibrado. O alvo do velho é uma versão específica e distorcida do poder religioso, não a fé em si.

O que levar: poucos textos expõem com tanta clareza a tentação de trocar a liberdade dada por Deus pela segurança de não ter de escolher. Essa troca é real, e seduz cristãos e instituições até hoje. Dostoiévski mostra que o Evangelho corre na direção contrária: Cristo respeita tanto o homem que lhe deixa a liberdade, com todo o seu peso, e responde à dúvida não com poder, mas com amor. Lido assim, na ordem certa das vozes, o Grande Inquisidor deixa de ser um ataque à fé e vira uma das defesas mais comoventes dela.