O Que é O Anticristo de Nietzsche

Um livro escrito como uma maldição

Em setembro de 1888, poucos meses antes de perder a razão de vez, Friedrich Nietzsche escreveu em poucas semanas o livro mais agressivo da sua carreira. O subtítulo dizia tudo: Maldição contra o Cristianismo. Não é um livro de dúvida educada nem de ateísmo morno. É um ataque deliberado, página após página, contra a religião que moldou o Ocidente.

O título em alemão, Der Antichrist, tem duplo sentido. Significa ao mesmo tempo "o Anticristo", a figura que se opõe a Cristo, e "o anticristão", aquele que está contra o cristianismo. Nietzsche assume os dois papéis e assina a última página com essa palavra.

1 Com isto chego ao fim e profiro minha sentença. Eu condeno o cristianismo, eu levanto contra a Igreja cristã a mais terrível de todas as acusações que um acusador pôs na boca. Ela é para mim a mais alta de todas as corrupções imagináveis, ela teve a vontade da última corrupção sequer possível. A Igreja cristã não deixou nada intocado por sua perversão, ela fez de cada valor um desvalor, de cada verdade uma mentira, de cada retidão uma baixeza da alma. Que ainda ousem me falar de seus benefícios “humanitários”! Abolir qualquer estado de miséria contrariava sua utilidade mais profunda, ela vivia de estados de miséria, ela criava estados de miséria para se eternizar… O verme do pecado, por exemplo: foi com esse estado de miséria que a Igreja primeiro enriqueceu a humanidade! A “igualdade das almas diante de Deus”, essa falsidade, esse pretexto para as rancunes de todos os de índole baixa, esse conceito-explosivo, que por fim se tornou revolução, ideia moderna e princípio de decadência de toda a ordem social é dinamite cristã… Benefícios “humanitários” do cristianismo! Cultivar a partir da humanitas uma autocontradição, uma arte da autoprofanação, uma vontade de mentir a qualquer preço, uma aversão e um desprezo por todos os instintos bons e retos! Isso é que seriam para mim benefícios do cristianismo! O parasitismo como única prática da Igreja; com seu ideal de clorose, seu ideal de “santidade”, sugando até a última gota todo sangue, todo amor, toda esperança de vida; o além como vontade de negação de toda realidade; a cruz como sinal de reconhecimento da mais subterrânea conspiração que existiu contra a saúde, a beleza, a boa constituição, a coragem, o espírito, a bondade da alma, contra a própria vida…

Por que um site cristão hospeda este livro

Pode parecer estranho encontrar O Anticristo num site dedicado à Bíblia. A razão é simples: a melhor forma de levar uma fé a sério é encará-la diante do seu adversário mais forte, não do mais fraco. Nietzsche não é um crítico raso. Ele leu o Novo Testamento com cuidado, conhecia a teologia, e mira no coração da fé, não nas suas caricaturas. Fugir dele seria covardia intelectual.

Aqui o leitor tem a obra inteira, em português e no alemão original lado a lado, com cada passagem bíblica que Nietzsche cita ligada ao texto real. Quando ele recorta um versículo para atacá-lo, você pode clicar e conferir o que a Bíblia de fato diz. Este tema é a porta de entrada: percorre os principais golpes de Nietzsche e, a cada um, apresenta a resposta cristã, sem suavizar nenhum dos lados.

O que vem pela frente

Nos próximos passos, seis páginas destrincham os argumentos centrais do livro: a moral do ressentimento, a transvaloração dos valores, a crítica à compaixão, a separação entre Jesus e Paulo, o cristianismo como niilismo e a morte de Deus. Cada uma termina com um debate entre duas vozes independentes, um crítico e um apologista, brigando pela mesma evidência. As páginas finais fazem o acerto de contas: o que a crítica de Nietzsche acerta, o que ela erra e como um cristão pode ler este livro sem medo.