O Que o Livro dos Vigilantes (1 Enoque 1-36) Diz Sobre os Anjos Caídos

O mito expandido dos Vigilantes

O Livro de Enoque é uma obra judaica antiga (sua parte mais velha, o chamado Livro dos Vigilantes, nos capítulos 1 a 36, data provavelmente do século 3 a.C.). Ele pega os quatro versículos enigmáticos de Gênesis 6 e os transforma em uma narrativa longa e detalhada. Onde Gênesis cala, Enoque conta tudo: nomes, números, juramentos, ensinos secretos e o destino dos culpados. Esta página segue essa narrativa frase a frase, lado a lado com a versão lacônica de Gênesis.

A descida dos duzentos

Em Gênesis, "os filhos de Deus" simplesmente veem que as filhas dos homens eram formosas e as tomam por esposas. Em Enoque, esse momento ganha uma cena inteira: duzentos anjos, chamados Vigilantes ou Sentinelas, conspiram para descer, temem a punição e selam um juramento mútuo no topo do monte Hermon, comprometendo-se todos no mesmo crime. O texto até explica o nome do monte a partir desse juramento.

1 E aconteceu que, como os homens começaram a multiplicar-se sobre a face da terra, e lhes nasceram filhas,

2 Viram os filhos de Deus que as filhas dos homens eram formosas; e tomaram para si mulheres de todas as que escolheram.

1 E ACONTECEU depois que os filhos dos homens se multiplicaram naqueles dias, nasceram-lhe filhas, elegantes e belas.

2 E quando os anjos, os filhos dos céus, viram-nas, enamoraram-se delas, dizendo uns para os outros: Vinde, selecionemos para nós mesmos esposas da progênie dos homens, e geremos filhos.

3 Então seu líder Samyaza disse-lhes: Eu temo que talvez possais indispor-vos na realização deste negócio;

4 E que eu sofrerei por tão grave crime.

5 Mas eles responderam-lhe e disseram: Nós todos juramos;

6 (E amarraram-se por mútuos juramentos), que nós não mudaremos nossa intenção mas executamos nosso empreendimento projetado.

7 Então eles juraram todos juntos, e todos se amarraram (ou uniram) por mútuo juramento.

8 Todo seu número era duzentos, os quais descendiam de Ardis o qual é o topo do monte Hérmon.

Os ensinos proibidos

Aqui Enoque acrescenta um elemento que Gênesis não tem nenhum traço: os anjos caídos ensinam aos humanos artes secretas. Semjaza e seus companheiros ensinam sortilégios e encantamentos; Azazel ensina a fabricar espadas e armas, e também o uso de cosméticos e ornamentos. O mal, na lógica de Enoque, não é só a mistura ilícita, mas a revelação de um conhecimento que corrompe o mundo, e a culpa por essa corrupção é atribuída de modo especial a Azazel.

1 ALÉM disso, Azaziel ensinou os homens a fazerem espadas, facas, escudos, armaduras (ou peitorais), a fabricação de espelhos e a manufatura de braceletes e ornamentos, o uso de pinturas, o embelezamento das sobrancelhas, o uso de todo tipo selecionado de pedras valiosas, e toda sorte de corantes, para que o mundo fosse alterado.

2 A impiedade foi aumentada, a fornicação multiplicada; e eles transgrediram e corromperam todos os seus caminhos.

3 Amazaraque ensinou todos os sortilégios, e divisores de raízes:

4 Armers ensinou a solução de sortilégios;

5 Barkayal ensinou os observadores das estrelas,

6 Akibeel ensinou sinais;

7 Tamiel ensinou astronomia;

8 E Asaradel ensinou o movimento da lua,

9 E os homens, sendo destruídos, clamaram, e suas vozes romperam os céus.

Os gigantes devoradores

Gênesis menciona "gigantes na terra" sem dizer o que faziam. Enoque é explícito e sombrio: das uniões nascem gigantes de estatura descomunal que devoram tudo o que o trabalho humano produz, depois se voltam contra os próprios homens, e por fim começam a se matar uns aos outros. A terra, encharcada de sangue, clama por socorro até os portões do céu.

1 ENTÃO eles tomaram esposas, cada um escolhendo por si mesmo; as quais eles começaram a abordar, e com as quais eles coabitaram, ensinando-lhes sortilégios, encantamentos, e a divisão de raízes e árvores.

2 E as mulheres conceberam e geraram gigantes,

3 Cuja estatura era de trinta cúbitos. Estes devoravam tudo o que o labor dos homens produzia e tornou-se impossível alimentá-los;

4 Então eles voltaram-se contra os homens, a fim de devorá-los;

5 E começaram a ferir pássaros, animais, répteis e peixes, para comer sua carne, um depois do outro, e para beber seu sangue.

6 Então a terra reprovou os injustos.

4 Havia naqueles dias gigantes na terra; e também depois, quando os filhos de Deus entraram às filhas dos homens e delas geraram filhos; estes eram os valentes que houve na antiguidade, os homens de fama.

O clamor da terra e a sentença

O clamor sobe ao céu, e os arcanjos (Miguel, Gabriel, Rafael, Uriel) intercedem diante de Deus. A resposta é uma sentença detalhada: Rafael deve aprisionar Azazel amarrado na escuridão de um deserto; Gabriel deve incitar os gigantes a se exterminarem mutuamente; Miguel deve amarrar Semjaza e os demais sob a terra por setenta gerações, até o dia do juízo final. É o aprisionamento dos Vigilantes, o motivo que o Novo Testamento mais tarde ecoaria.

4 Então explicou-lhe a consumação que está preste a acontecer; pois toda a terra perecerá; as águas do dilúvio virão sobre toda a terra, e todos os que estão nela serão destruídos.

5 E agora, ensina-o como ele pode escapar, e como sua semente pode permanecer em toda a terra.

6 Novamente o Senhor disse a Rafael: Amarra a Azaziel, mãos e pés; lança-o na escuridão; e abrindo o deserto que está em Dudael, lança-o nele.

7 Arremessa sobre ele pedras agudas, cobrindo-o com escuridão;

8 ele permanecerá para sempre; cobre sua face, para que ele não possa ver a luz.

9 E no grande dia do julgamento lança-o ao fogo.

10 Restaura a terra, a qual os anjos corromperam; e anuncia vida a ela, para que Eu possa recebê-la.

11 Todos os filhos dos homens, sua descendência, não perecerão em consequência de todo segredo, pelo qual as Sentinelas têm destruído, e o que eles ensinaram;

12 Toda a terra tem se corrompido pelos efeitos dos ensinamentos de Azaziel.

13 A ele, portanto, se atribui todo crime.

14 A Gabriel também o Senhor disse: Vai aos bastardos, aos réprobos, aos filhos da fornicação; e destrói os filhos da fornicação, a descendência das Sentinelas de entre os homens; traze-os e excita-os uns contra os outros.

15 Faze-os perecer por mútua matança; pois o prolongamento de dias não serão deles.

Quando Enoque, enviado como intercessor, leva a sentença aos Vigilantes, a resposta é definitiva: "Nunca, portanto, obtereis paz". O contraste com Gênesis é total. O texto bíblico despachou tudo isso em quatro versículos neutros; Enoque construiu sobre eles um drama cósmico completo de rebelião celeste, corrupção e juízo. As próximas páginas mostram como o Novo Testamento conhecia e usava essa versão.

1 E QUANTO à morte dos gigantes, onde quer que seus espíritos se apartem de seus corpos; ou seja, de sua carne, que é perecível, esteja sem julgamento.

2 Assim eles perecerão, até o dia da grande consumação do mundo.

3 Uma destruição das Sentinelas e dos ímpios acontecerá.

4 E então às Sentinelas, aos quais enviei-te para rogar por eles, os quais no princípio estavam no céu,

5 Dize: No céu tens estado; coisas secretas, entretanto, não têm sido manifestadas a ti; contudo tens conhecido um reprovável mistério.

6 E isto tens relatado às mulheres na dureza do vosso coração, e por aquele mistério as mulheres e a humanidade têm multiplicado males sobre a terra.

7 Dize a eles: Nunca, portanto, obtereis paz.