De Onde Veio o Mal Segundo Enoque e Segundo Gênesis?

Duas etiologias do mal

A Bíblia e o Livro de Enoque oferecem explicações diferentes para a origem do mal no mundo. Gênesis ancora o mal na desobediência humana: a transgressão de Adão e Eva no jardim, e depois a corrupção generalizada do coração humano que precede o dilúvio. Enoque, sem negar a culpa humana, desloca o eixo para o alto: o mal entra no mundo pela rebelião dos anjos Vigilantes e pelo que os gigantes deixam para trás.

5 E viu o Senhor que a maldade do homem se multiplicara sobre a terra e que toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era continuamente.

Os espíritos dos gigantes mortos

O ponto mais original de Enoque está no capítulo 15. Quando os gigantes morrem, seus corpos perecem, mas algo sobrevive: por serem híbridos de espírito (dos anjos) e carne (das mulheres), seus espíritos não vão para o céu nem descansam. Tornam-se "maus espíritos" que permanecem na terra, atormentando, corrompendo e oprimindo a humanidade. É uma etiologia precisa dos espíritos impuros: eles são os fantasmas dos gigantes pré-diluvianos.

8 Estes, contudo, morrem e perecem.

9 Portanto, eu concedi a essas mulheres, que com eles coabitaram, e que com eles geraram filhos, que nada lhes falte sobre a terra.

10 Mas desde o princípio fostes feitos espirituais, possuindo uma vida que é eterna, e não sujeito à morte para sempre.

11 Portanto, eu não fiz esposas para vós, porque, sendo espirituais, vossa habitação está no céu,

12 Agora, os gigantes que têm nascido de espírito e de carne, serão chamados sobre a terra de maus espíritos, e na terra estará a sua habitação.

Essa ideia teve enorme influência. Ela oferece uma resposta para uma pergunta que Gênesis deixa em aberto: se o dilúvio destruiu toda a carne, de onde vêm os espíritos malignos que assombram o mundo depois? A resposta de Enoque é que os corpos dos gigantes morreram, mas seus espíritos ficaram, e é com eles que a demonologia judaica e cristã passou a identificar boa parte das forças do mal. Este tema continua na página sobre demônios na Bíblia, que rastreia o que esses espíritos se tornaram.

O Livro dos Jubileus e os espíritos de Mastema

O Livro dos Jubileus, outra obra judaica antiga, retoma e desenvolve o mesmo esquema. Ele narra a rebelião dos Vigilantes e o seu aprisionamento, mas acrescenta um capítulo decisivo: depois do dilúvio, os espíritos impuros (descendência dos Vigilantes) voltam a desencaminhar a humanidade. Noé pede a Deus que os aprisione, e o chefe dos espíritos, Mastema, negocia: pede que uma parte deles permaneça livre para cumprir seu papel. Deus concede que um décimo permaneça sob o comando de Mastema na terra.

1 E aconteceu que, quando os filhos dos homens começaram a multiplicar-se sobre a face da terra e nasceram filhas para eles, os anjos de Deus viram que em certo ano deste jubileu, elas eram belas de se olhar; e tomaram para si esposas de todas as que escolheram, e geraram filhos que eram gigantes.

2 E a ilegalidade aumentou na terra e toda carne corrompeu o seu caminho, tanto homens como gado e bestas e aves e tudo o que anda sobre a terra -todos eles corromperam seus caminhos e suas ordens, e começaram a devorar uns aos outros, e a ilegalidade aumentou na terra e toda imaginação dos pensamentos de todos os homens era continuamente má.

3 E Deus olhou para a terra, e eis que estava corrupta, e toda carne havia corrompido suas ordens, e todos os que estavam sobre a terra haviam praticado todo tipo de mal diante de Seus olhos.

4 E Ele disse que destruiria o homem e toda carne sobre a face da terra que Ele havia criado.

5 Mas Noé achou graça diante dos olhos do Senhor.

6 E contra os anjos que Ele havia enviado à terra, Ele ficou extremamente irado, e deu ordem para arrancá-los de todo o seu domínio, e nos ordenou que os amarrássemos nas profundezas da terra, e eis que estão amarrados no meio deles, e estão (mantidos) separados.

7 E contra seus filhos saiu uma ordem de diante de Sua face para que fossem feridos pela espada, e fossem removidos de debaixo dos céus.

8 E Ele disse 'Meu espírito não permanecerá sempre no homem; pois eles também são carne e seus dias serão cento e vinte anos'.

9 E Ele enviou Sua espada no meio deles para que cada um matasse seu próximo, e começaram a matar uns aos outros até que todos caíram pela espada e foram destruídos da terra.

10 E seus pais foram testemunhas (de sua destruição), e depois disso foram amarrados nas profundezas da terra para sempre, até o dia da grande condenação, quando o julgamento é executado sobre todos aqueles que corromperam seus caminhos e suas obras diante do Senhor.

1 E na terceira semana deste jubileu, os demônios impuros começaram a desencaminhar os filhos dos filhos de Noé e a fazê-los errar e destruí-los.

2 E os filhos de Noé foram ter com Noé, seu pai, e contaram-lhe sobre os demônios que estavam desencaminhando e cegando e matando os filhos de seus filhos.

3 E ele orou diante do Senhor seu Deus e disse: 'Deus dos espíritos de toda carne, que tens mostrado misericórdia para comigo e me salvaste a mim e a meus filhos das águas do dilúvio, e não me fizeste perecer como fizeste com os filhos da perdição; pois a tua graça tem sido grande para comigo, e grande tem sido a tua misericórdia para com a minha alma; que a tua graça se levante sobre meus filhos, e que espíritos malignos não os dominem, para que não os destruam da terra.

4 Mas abençoa-me a mim e a meus filhos, para que possamos aumentar e multiplicar e encher a terra.

5 E Tu sabes como os Teus Vigilantes, os pais destes espíritos, agiram em meu tempo; e quanto a estes espíritos que estão vivos, aprisiona-os e mantém-nos firmes no lugar da condenação, e não permitas que tragam destruição sobre os filhos do teu servo, meu Deus; pois estes são malignos e foram criados para destruir.

6 E que não dominem sobre os espíritos dos vivos; pois Tu podes exercer domínio sobre eles. E que não tenham poder sobre os filhos dos justos daqui em diante e para sempre.'

7 E o Senhor nosso Deus ordenou-nos que amarrássemos todos.

8 E o chefe dos espíritos, Mastêma, veio e disse: 'Senhor, Criador, deixa que alguns deles permaneçam diante de mim, e que ouçam a minha voz, e façam tudo o que eu lhes disser; pois se alguns deles não me forem deixados, não serei capaz de executar o poder da minha vontade sobre os filhos dos homens; pois estes são para corrupção e desvio antes do meu julgamento, pois grande é a maldade dos filhos dos homens.'

9 E Ele disse: Que a décima parte deles permaneça diante dele, e que nove partes desçam para o lugar da condenação.'

10 E um de nós Ele ordenou que ensinássemos a Noé todas as suas medicinas; pois Ele sabia que eles não andariam na retidão, nem se esforçariam na justiça.

11 E fizemos conforme todas as Suas palavras: todos os malignos nós amarramos no lugar da condenação e uma décima parte deles deixamos para que fossem sujeitos diante de Satanás na terra.

O contraste de fundo é claro. Para Gênesis, o mal humano é, sobretudo, problema da vontade do homem. Para Enoque e Jubileus, há uma dimensão sobre-humana anterior: anjos rebeldes e os espíritos que sobram de seus filhos monstruosos formam um exército de corrupção que opera no mundo. Saber qual dessas etiologias moldou de fato a demonologia judaico-cristã posterior é o que está em jogo aqui.

Perspectivas sobre este tema

Os mesmos fatos, lidos por duas lentes que discordam. Nenhuma das vozes fala pela posição da página: elas existem para que você veja o argumento mais forte de cada lado.

Crítico Histórico

A etiologia enoquita venceu: a demonologia judaico-cristã do Segundo Templo se construiu sobre os Vigilantes e os espíritos dos gigantes mortos, não sobre a queda de Adão.

A pagina coloca lado a lado duas explicacoes para o mal, e e honesto reconhecer que Genesis, por si so, nao oferece uma demonologia. Gn 6:5 fala da maldade do coracao humano, nao de espiritos. O texto adamico do Eden sequer chama a serpente de Satanas, e o mal pre-diluviano que motiva o diluvio e descrito como corrupcao da carne, problema da vontade humana. Quem quer extrair de Genesis um exercito de demonios precisa importar de fora a moldura que organiza esses espiritos. E essa moldura, historicamente, e a enoquita: 1 Enoque 15 e a primeira fonte judaica que explica de onde vem o espirito impuro, identificando-o com o fantasma do gigante hibrido que sobrevive ao corpo morto. Genesis levanta a pergunta sobre os mortos do diluvio; Enoque a responde.

Onde discordo da neutralidade aparente do enquadramento e na sugestao de que o caso esta em aberto. A evidencia textual que a propria pagina reune aponta numa direcao so. Jubileus retoma o esquema de Enoque e cria a engenharia institucional do mal pos-diluviano com Mastema e o decimo dos espiritos preservados, ou seja, ja pressupoe que os demonios sao a descendencia dos Vigilantes, nao filhos de Adao. E o Novo Testamento, quando precisa falar de anjos caidos, recorre ao vocabulario enoquita, nao ao do Eden: Jd 1:6 e 2 Pe 2:4 descrevem anjos presos na escuridao aguardando juizo, exatamente a prisao dos Vigilantes de 1 Enoque 10 e 21, e Jd 1:14 cita 1 Enoque 1:9 nominalmente como profecia. Quando os autores do Segundo Templo querem nomear a origem das forcas do mal, eles citam Enoque, nao Genesis 3.

A consequencia para qualquer afirmacao de coerencia revelada e desconfortavel mas inevitavel. A demonologia que o cristianismo herdou nao brota linearmente do Pentateuco; ela e produto de uma tradicao apocaliptica intertestamentaria que reinterpretou os poucos versos enigmaticos de Gn 6:1-4 e construiu sobre eles toda uma cosmologia de anjos rebeldes e espiritos de gigantes. Concedo o que e justo conceder: a etiologia adamica venceu mais tarde, na sintese agostiniana do pecado original, e e ela que domina a teologia ocidental do pecado humano. Mas a demonologia propriamente dita, os espiritos impuros que Jesus expulsa nos evangelhos, os principados das cartas, os anjos presos de Pedro e Judas, herdou seu DNA de Enoque. Que um texto fora do canon protestante e catolico tenha moldado a doutrina dos demonios dentro dele e menos um misterio teologico do que um fato historico sobre como ideias religiosas se compoem ao longo de seculos.

Apologista Evidencial

A demonologia judaico-cristã foi moldada pela etiologia enoquita, mas a redenção e o juízo final repousam na queda adâmica de Gênesis.

E preciso conceder o que e historicamente solido: no judaismo do Segundo Templo, a etiologia enoquita venceu a disputa pela demonologia popular. A pagina esta certa ao dizer que 1 Enoque 15 oferece uma resposta que Genesis nao da, de onde vem os espiritos impuros que assombram o mundo depois que o diluvio destruiu toda a carne. Genesis ancora o mal na vontade humana (Gn 6:5, a maldade do coracao do homem), mas nao explica a mecanica dos demonios. Enoque preenche essa lacuna com os fantasmas dos gigantes hibridos, Jubileus a sistematiza com Mastema e o decimo dos espiritos, e os Evangelhos herdam um mundo ja povoado de pneumata akatharta, espiritos impuros, que Jesus expulsa sem nunca precisar explicar de onde vieram. A pressuposicao esta no ar que ele respira. Negar essa influencia seria fingir que o intertestamento nao existiu.

Onde discordo da moldura implicita do debate, que opoe as duas etiologias como rivais, e na suposicao de que uma teve de vencer a outra. A tradicao crista, lendo seus proprios documentos, nunca tratou a origem dos espiritos malignos e a origem do pecado humano como a mesma pergunta. A etiologia enoquita responde de onde vem os demonios, agentes externos; a etiologia adamica responde de onde vem o pecado, a corrupcao interna da vontade. Paulo, que poderia ter escrito a demonologia do cristianismo a partir dos Vigilantes, faz o oposto: em Romanos 5 ele ancora a condicao humana inteira em Adao, nao em Azazel. O peso teologico do Novo Testamento sobre por que o ser humano precisa de redencao recai sobre a queda adamica. Os Vigilantes explicam a paisagem demoniaca; Adao explica por que ha o que redimir. Sao dois eixos, e o que o cristianismo posterior priorizou para sua soteriologia foi o segundo.

O que fica honestamente em aberto e o estatuto de Judas e 2 Pedro. A pagina acerta ao dizer que Jd 1:14 cita 1 Enoque 1:9 quase palavra por palavra e que Jd 1:6 ecoa o aprisionamento dos Vigilantes. Isso e fato, raramente contestado, e nao se dissolve dizendo que Judas apenas tomou emprestado um vocabulario, porque ele atribui a profecia nominalmente a Enoque, o setimo depois de Adao. Mas dai nao se segue que o cristianismo adotou a etiologia enoquita como sua doutrina central do mal. Segue que um autor do Novo Testamento conhecia e usava a literatura enoquita como moeda comum de seu tempo, do mesmo modo que Paulo cita Epimenides e Arato em Atos 17 sem canonizar a poesia grega. A demonologia patristica que se seguiu, em Justino e Irineu, de fato herdou os anjos caidos pre-diluvianos. O que ela nao herdou foi a centralidade enoquita: ao definir o pecado, a morte e a necessidade do segundo Adao, os Padres voltaram a Genesis 3, nao a 1 Enoque 15. A resposta honesta, portanto, e dividida. Enoque venceu a demonologia; Genesis venceu a hamartiologia. Quem perguntar de onde veio o mal recebera, na tradicao crista, duas respostas que ela nunca se sentiu obrigada a fundir.