O quebra-cabeça da mudança
Filósofos antes de Aristóteles tinham se embananado feio com uma coisa óbvia: a mudança. Como é que algo vira o que não era? Se a semente não é árvore, de onde sai a árvore? Do nada não pode sair. Mas se a árvore já estava ali, não houve mudança nenhuma. Um pensador grego chamado Parmênides chegou a concluir que mudança é ilusão, que nada de fato muda. Isso contraria tudo que vemos.
A saída de Aristóteles é tão simples que parece batota, e funciona. Ele diz: a semente não é árvore de fato, mas é árvore em potência. Existe um meio-termo entre "ser" e "não ser": o poder-vir-a-ser. A semente carrega dentro de si a capacidade real de virar árvore. Quando vira, esse poder que estava guardado se realiza. Ele chama o poder guardado de potência, e a realização de ato.
| Em potência (o que pode ser) | Em ato (o que já é de fato) |
|---|---|
| A semente | A árvore |
| O bloco de mármore | A estátua |
| A criança | O adulto |
| Quem sabe tocar piano, mas está dormindo | A mesma pessoa tocando agora |
Com esse par, mudança deixa de ser mágica. Mudar é passar do que se pode ser para o que se é de fato. E Aristóteles dá um passo a mais, que vai ser decisivo lá na frente: ele diz que o ato vem antes da potência. A árvore feita explica a semente, e não o contrário, porque toda semente veio de uma árvore que já existia.
1 Pela análise que fizemos dos vários sentidos de "anterior", fica claro que o ato é anterior à potência. E por "potência" não entendo apenas aquele tipo definido que se diz ser um princípio de mudança em outra coisa, ou na própria coisa enquanto considerada como outra, mas em geral todo princípio de movimento ou de repouso. Pois a natureza também pertence ao mesmo gênero que a potência, já que é um princípio de movimento, não em outra coisa, mas na própria coisa enquanto ela mesma. A toda potência desse tipo, então, o ato é anterior tanto na definição quanto na substância; e no tempo é anterior num sentido, e em outro não.
Guarde bem esta dupla, potência e ato. Ela é o tijolo do degrau mais alto do livro. Quando Aristóteles for provar que existe uma causa primeira de tudo, ele vai descrevê-la como uma coisa só: ato puro, sem nenhuma potência sobrando. Falta entender o que isso quer dizer.