A ciência de absolutamente tudo
Cada ciência estuda um pedaço da realidade. A botânica estuda as plantas, a astronomia estuda os astros. Aristóteles imaginou uma ciência que não estudasse um pedaço, mas aquilo que todos os pedaços têm em comum: o simples fato de existir. Ele a chamou de filosofia primeira, e a definiu como o estudo do "ser enquanto ser". Quer dizer: não estudar as coisas enquanto plantas ou astros, mas enquanto coisas que são.
É a pergunta mais geral possível, e por isso parece vazia, mas não é. Antes de responder, Aristóteles faz uma coisa sábia: no Livro III, ele lista os grandes problemas, as perguntas espinhosas que qualquer resposta vai ter de enfrentar. Mapear a dificuldade antes de atacá-la é parte do método.
1 Tendo em vista a ciência que estamos buscando, precisamos primeiro fazer uma lista dos assuntos que devem ser discutidos logo de início. Entre eles estão tanto as opiniões que alguns sustentaram sobre os princípios primeiros quanto qualquer outro ponto que por acaso tenha ficado de fora.
A regra mais firme de todas
Toda discussão precisa de um chão, uma regra tão básica que sem ela nem dá para discutir. Aristóteles encontrou essa regra e a chamou de o princípio mais firme de todos. Em palavras simples: a mesma coisa não pode ser e não ser, ao mesmo tempo e do mesmo jeito. A maçã não pode ser inteiramente vermelha e inteiramente não vermelha, no mesmo instante e no mesmo ponto. Parece óbvio. É de propósito. É justamente por ser o mais óbvio de todos que ele serve de base para tudo o mais.
8 Qual é esse princípio, vamos agora dizer. Ele é o seguinte: a mesma propriedade não pode, ao mesmo tempo, pertencer e não pertencer à mesma coisa, sob o mesmo aspecto. Devemos pressupor todas as outras qualificações que se possa acrescentar, para nos defendermos de objeções capciosas. Esse, então, é o mais firme de todos os princípios, pois corresponde à definição que demos acima.
Aristóteles mostra que nem dá para argumentar contra essa regra, porque quem tenta já a usa: para dizer "essa regra é falsa", a pessoa precisa que "falsa" não signifique "verdadeira" ao mesmo tempo. Negar a regra exige a regra. Por isso ela é o chão de toda razão, de toda ciência, e, mais tarde, de toda teologia que pretenda fazer sentido. Sem ela, "Deus existe" e "Deus não existe" poderiam ser ambas verdadeiras, e nada significaria nada.
Há ainda um Livro inteiro, o X, dedicado a outra dessas noções gerais: o "um", a unidade, o que faz de algo uma coisa só e não duas. Com o ser, a não contradição e a unidade firmados, Aristóteles está pronto para o topo: subir, pela razão, até a causa primeira de tudo.
1 Já dissemos antes, quando distinguimos os vários sentidos das palavras, que "um" tem vários significados. As coisas que são chamadas de uma diretamente, por sua própria natureza, e não por acidente, podem ser resumidas em quatro grupos, embora a palavra seja usada em mais sentidos.