Sete livros (e alguns acréscimos)
A palavra deuterocanônico significa "do segundo cânon": livros que entraram na Bíblia católica num segundo momento, depois do núcleo aceito por todos. São sete obras inteiras, mais trechos acrescentados a dois livros que já existiam no cânon hebraico (Ester e Daniel). Todas estão hospedadas aqui no site, nas versões católicas Ave-Maria, Bíblia de Aparecida e Bíblia Pastoral. Cada referência abaixo abre o texto real.
Os sete livros, um a um
Tobias é uma novela piedosa: o cego Tobit, o anjo Rafael disfarçado de viajante e o casamento de Tobias com Sara, livrada de um demônio. Foi escrito por volta dos séculos 3 a 2 a.C. e é o anjo Rafael que se identifica no fim como "um dos sete que assistem diante do Senhor".
15 Eu sou Rafael, um dos sete anjos que estão a serviço de Deus e têm acesso junto à glória do Senhor”.
Judite narra como uma viúva judia entra no acampamento inimigo e decapita o general assírio Holofernes, salvando sua cidade. É uma narrativa heroica com forte tom patriótico e cheia de impossibilidades históricas deliberadas, provavelmente do século 2 a.C.
8 E com toda a sua força deu-lhe dois golpes no pescoço, cortando-lhe a cabeça.
Sabedoria (ou Sabedoria de Salomão) é um tratado escrito em grego, em Alexandria, por volta do século 1 a.C. Atribui-se a Salomão por convenção literária. Contém o célebre retrato do justo perseguido pelos ímpios, lido por muitos cristãos como prefiguração de Cristo.
12 Armemos ciladas ao justo, porque nos incomoda e é contrário a nossas ações; repreende nossas transgressões da lei e nos lança em rosto as faltas contra a educação recebida.
13 Pretende possuir o conhecimento de Deus e se declara filho do Senhor.
14 Tornou-se uma censura a nossos pensamentos; sua vista nos é insuportável,
15 porque sua vida é diferente da dos outros, e totalmente diversos são seus caminhos.
16 Ele nos compara à moeda falsa, rejeita nossos costumes como imundícias. Proclama feliz o fim dos justos e se gloria de ter Deus como pai.
17 Vejamos se suas palavras são verdadeiras; verifiquemos o que lhe acontecerá no fim.
18 Pois se o justo é filho de Deus, Ele o assistirá e libertará das mãos de seus adversários.
19 Ponhamo-lo à prova com insultos e tormentos, para conhecer a mansidão de seu caráter e testar sua resignação.
20 Condenemo-lo a morte infame, porque, conforme ele disse, Deus cuidará dele”.
Eclesiástico (também chamado Sirácida ou Ben Sira) é uma longa coleção de provérbios e instrução moral, escrita em hebraico por volta de 180 a.C. por Jesus Ben Sira e traduzida ao grego por seu neto. É o mais extenso dos deuterocanônicos, com 51 capítulos.
1 A Sabedoria faz seu próprio elogio e em Deus será honrada e no meio de seu povo será glorificada.
Baruc é atribuído ao secretário de Jeremias. Reúne oração, poema sobre a sabedoria e, no capítulo 6, a chamada Carta de Jeremias, uma sátira contra os ídolos. A datação é discutida, em geral entre os séculos 2 e 1 a.C.
1 (Cópia da carta que Jeremias enviou aos que iam ser levados prisioneiros para Babilônia pelo rei dos babilônios, para lhes comunicar o que lhe tinha sido ordenado por Deus.) Pelos pecados que cometestes diante de Deus sereis levados para Babilônia como prisioneiros por Nabucodonosor, rei dos babilônios.
1 Macabeus é história sóbria e datável: a revolta dos Macabeus contra a helenização imposta por Antíoco IV, a reconquista do Templo e a purificação que originou a festa de Hanucá. Foi composto por volta de 100 a.C., próximo dos eventos que narra.
36 Então Judas e seus irmãos disseram: “Nossos inimigos estão derrotados; vamos, pois, purificar o santuário e consagrá-lo de novo.
37 Reuniram todo o exército e subiram ao monte Sião.
38 Viram o santuário deserto, o altar profanado, as portas incendiadas e o mato que crescia nos átrios como se fora num bosque ou num monte, e as salas destruídas.
39 Rasgaram as vestes, fizeram uma grande lamentação, cobriram-se de cinzas,
40 prostraram-se com a face por terra, mandaram dar os sinais com as trombetas e elevaram clamores ao Céu.
41 Judas incumbiu certo número de homens de combater os da cidadela, até que ele tivesse purificado o santuário.
42 Escolheu sacerdotes sem mácula, observantes da lei,
43 os quais purificaram o santuário e levaram para um lugar impuro as pedras contaminadas.
44 Deliberaram o que deviam fazer do altar dos holocaustos, que tinha sido profanado,
45 e ocorreu-lhes a boa ideia de demoli-lo, a fim de que não se tornasse para eles motivo de desonra, porque os gentios o haviam contaminado. Demoliram-no
46 e colocaram as pedras no monte do templo, num lugar conveniente, à espera de que viesse algum profeta e se pronunciasse a seu respeito.
47 Depois tomaram pedras intactas, segundo a prescrição da Lei, e construíram um altar novo, conforme o modelo do anterior.
48 Restauraram o santuário e o interior do templo e consagraram os átrios.
49 Mandaram fazer novos utensílios sagrados e introduziram no templo o candelabro, o altar dos perfumes e a mesa.
50 Queimaram incenso sobre o altar, acenderam as lâmpadas do candelabro, que voltaram a brilhar no templo.
51 Puseram os pães sobre a mesa, dependuraram as cortinas e terminaram todos os trabalhos empreendidos.
52 No dia vinte e cinco do nono mês, ou seja, do mês de casleu, do ano cento e quarenta e oito, levantaram-se bem cedo
53 e ofereceram um sacrifício, conforme as prescrições da Lei, sobre o novo altar dos holocaustos que tinham construído.
54 Exatamente no tempo e no dia em que os gentios o haviam profanado, foi inaugurado entre cânticos e ao som de cítaras, harpas e címbalos.
55 Todo o povo se prostrou com o rosto por terra, adorando e bendizendo o Céu que os havia conduzido ao sucesso.
56 Celebraram a dedicação do altar durante oito dias, oferecendo com alegria holocaustos e sacrifícios de comunhão e de ação de graças.
57 Além disso, ornaram a fachada do templo com coroas de ouro e pequenos escudos. Refizeram os portões e os aposentos, nos quais colocaram portas.
58 Foi imensa a alegria entre o povo, e assim foi cancelado o opróbrio infligido pelos gentios.
59 Depois, Judas, seus irmãos e toda a assembleia de Israel estabeleceram que se celebrassem os dias da dedicação do altar em sua data própria, todos os anos, durante oito dias, a partir do dia vinte e cinco do mês de casleu, com grande júbilo e alegria.
2 Macabeus não é a sequência de 1 Macabeus, mas um relato paralelo e mais teológico do mesmo período. Traz dois textos muito citados em debates doutrinários: o martírio dos sete irmãos, que confessam a ressurreição dos mortos, e a oração e o sacrifício por mortos.
1 Aconteceu também que sete irmãos foram presos com sua mãe e torturados com flagelos e nervos de boi pelo rei, que queria forçá-los a comer carne de porco, proibida pela lei.
2 Um deles, fazendo-se porta-voz de todos, disse: “Que pretendes perguntar ou saber de nós? Estamos prontos a morrer, antes que transgredir as leis de nossos pais”.
3 O rei, enfurecido, ordenou que pusessem ao fogo frigideiras e caldeirões.
4 Quando começaram a ferver, mandou cortar a língua daquele que tinha falado, arrancar-lhe o couro cabeludo e cortar-lhe as mãos e os pés à vista dos outros irmãos e da mãe.
5 Quando ficou completamente mutilado, o rei mandou conduzi-lo ao fogo e pô-lo na frigideira enquanto ainda respirava. Enquanto um denso vapor subia da frigideira, os outros com sua mãe se exortavam a morrer com coragem, dizendo:
6 “O Senhor Deus está vendo e certamente tem compaixão de nós, como o declarou Moisés em seu cântico, que atesta abertamente: ‘E Ele terá piedade de seus servos’”.
7 Quando o primeiro partiu assim desta vida, levaram o segundo ao suplício. Depois de lhe terem arrancado a pele da cabeça com os cabelos, perguntaram-lhe: “Queres comer, antes que seja torturado teu corpo, membro por membro?”
8 Respondeu ele na língua de seus pais: “Não!” Por isso, também ele sofreu os tormentos como o primeiro.
9 Ao exalar o último suspiro, disse: “Tu, ó criminoso, nos excluis da vida presente, mas o Rei do universo nos fará ressurgir para uma vida eterna a nós que morremos por suas leis”.
10 Depois deste, torturaram o terceiro. Apresentou logo a língua, como lhe foi ordenado, estendeu corajosamente as mãos
11 e disse com dignidade: “Do Céu recebi estes membros; mas por causa de suas leis os desprezo, porque espero recebê-los novamente dele”.
12 Até o próprio rei e sua corte ficaram impressionados com a força de ânimo do jovem, que não fazia caso algum dos sofrimentos.
13 Morto este, torturaram o quarto do mesmo modo, com suplícios.
14 Estando para morrer, disse: “Vale mais morrer pela mão dos homens, tendo da parte de Deus a esperança de ser por ele ressuscitado. Porque para ti não haverá ressurreição para a vida”.
Além dos sete livros, há os acréscimos deuterocanônicos a livros já existentes: em Ester, orações e cartas ausentes do texto hebraico; em Daniel, o episódio de Susana, a história de Bel e o Dragão e o Cântico dos Três Jovens na fornalha. Aqui no site, esses trechos aparecem nos capítulos extras das versões católicas (Daniel 13 e 14, Ester 11 em diante).
1 Vivia em Babilônia um homem chamado Joaquim,
2 o qual era casado com Suzana, filha de Helcias, mulher de rara beleza e temente a Deus.
3 Seus pais, que eram justos, haviam educado a filha segundo a Lei de Moisés.
4 Joaquim era muito rico e possuía uma chácara perto de casa, e muitos judeus iam à casa dele, porque era estimado mais que qualquer outro.
5 Naquele ano tinham sido eleitos juízes do povo dois anciãos: eram daqueles dos quais o Senhor disse: “A iniquidade surgiu em Babilônia por obra de anciãos e de juízes, que passavam por guias do povo
6 Eles frequentavam a casa de Joaquim; e todos os que tinham qualquer demanda para resolver iam procurá-los.
7 Quando o povo se retirava, por volta do meio-dia, Suzana costumava ir passear na chácara do marido.
8 Os dois anciãos que todo dia a viam passear, apaixonaram-se por ela:
9 perderam a luz da razão, desviaram os olhos para não verem o Céu e se esqueceram de seus justos julgamentos.
| Livro | Gênero | Tema |
|---|---|---|
| Tobias | Novela piedosa | Providência, anjo Rafael, casamento |
| Judite | Narrativa heroica | Resistência, fé de uma viúva |
| Sabedoria | Tratado sapiencial | O justo perseguido, imortalidade |
| Eclesiástico | Coleção de provérbios | Instrução moral, temor de Deus |
| Baruc | Oração e poema | Arrependimento, crítica aos ídolos |
| 1 Macabeus | História | Revolta macabaica, o Templo |
| 2 Macabeus | História teológica | Martírio, ressurreição dos mortos |