Por que a Bíblia Judaica é Diferente da Cristã

O Tanakh: a Bíblia hebraica

A Bíblia judaica é chamada de Tanakh, sigla formada pelas iniciais de suas três seções: Torá (a Lei, os cinco livros de Moisés), Neviim (os Profetas) e Ketuvim (os Escritos, que incluem Salmos, Provérbios, Jó, Daniel e outros). É o mesmo conjunto de livros do Antigo Testamento protestante, mas organizado de outra forma e contado de outro modo: a tradição judaica fala em 24 livros, agrupando, por exemplo, os doze profetas menores num só.

A diferença mais óbvia em relação à Bíblia cristã é que o Tanakh não tem o Novo Testamento. Para o judaísmo, Jesus não é o Messias, e os escritos cristãos não têm status de Escritura. O Tanakh também não inclui os deuterocanônicos católicos: o cânon judaico se fechou em torno dos livros preservados em hebraico, sem os escritos que circulavam sobretudo em grego.

Como o cânon judaico se fechou

Durante muito tempo se ensinou que um "Concílio de Jâmnia", por volta do ano 90, teria fechado oficialmente o cânon judaico numa reunião de rabinos. Os historiadores hoje tratam essa ideia com ceticismo: não há evidência de um concílio formal que tenha votado uma lista. O que houve foi um processo gradual, com discussões rabínicas sobre alguns livros de status duvidoso (como Eclesiastes e Cântico dos Cânticos), enquanto o núcleo já era estável havia muito. Jâmnia é, em boa medida, um mito historiográfico.

No período do Segundo Templo, o judaísmo era plural e lia muito mais do que viria a ser o Tanakh. Livros como 1 Enoque e o Livro dos Jubileus eram conhecidos e respeitados em alguns círculos: cópias de ambos foram achadas entre os Manuscritos do Mar Morto, em Qumran, sinal de que aquela comunidade os valorizava. Eles acabaram fora do cânon judaico rabínico que se consolidou, mas o caso é instrutivo. Tanto 1 Enoque quanto Jubileus permanecem canônicos até hoje na Igreja Ortodoxa Etíope, prova de que "estar no cânon" sempre dependeu de qual comunidade decide.

1 AS PALAVRAS das bênçãos de Enoque, com as quais ele abençoou os eleitos e os justos, os quais devem existir nos tempos da tribulação, rejeitando toda iniquidade e mundanismo.

1 E aconteceu no primeiro ano do êxodo dos filhos de Israel do Egito, no terceiro mês, no décimo sexto dia do mês, [2450 Anno Mundi] que Deus falou a Moisés, dizendo: 'Sobe a Mim no Monte, e te darei duas tábuas de pedra da lei e do mandamento, que escrevi, para que as ensines.'

Por que três Bíblias, então

Juntando as peças: o judaísmo fechou seu cânon nos livros hebraicos, sem deuterocanônicos e sem o Novo Testamento. O cristianismo, nascido no mundo de língua grega, herdou a lista maior da Septuaginta e acrescentou os escritos apostólicos. A Reforma, séculos depois, alinhou o Antigo Testamento protestante de volta ao cânon hebraico, mantendo o Novo. Três decisões diferentes, três Bíblias diferentes, e uma quantidade de livros que, em cada caso, ficou de fora.