Buné, o dragão de três cabeças que cega bebês no ventre

Dragão de três cabeças com crista dorsal serrilhada e mãos humanas no lugar das garras dianteiras

Buné é o nome pelo qual circula, em edições modernas e em listas de demônios, o espírito do capítulo 12 do Testamento de Salomão: um dragão de três cabeças que diz cegar crianças ainda dentro do ventre, deixar pessoas surdas e mudas e derrubar homens em convulsão. Esse nome não aparece no texto. Quando Salomão pergunta como ele se chama, o dragão responde apenas que é "a crista dos dragões", em grego koruphē drakontōn, e acaba encarregado de fabricar tijolos no Templo. Antes disso, ele se compara ao estrepe, o espinho de ferro atirado ao chão para ferir as patas dos cavalos (o grego tríbolos significa literalmente "de três pontas"), e diz que sua atividade se dá "em três linhas".

2 E veio diante de mim um dragão de três cabeças, de cor terrível. E eu o questionei: “Quem é você?” E ele me respondeu:

3 “Como as estrepes que são jogadas no chão para ferir as patas dos cavalos, eu sou um espírito cuja atividade está em três linhas.

4 Mas eu cego as crianças no ventre das mulheres e enrolo suas orelhas.

5 E eu os faço surdos e mudos. E eu tenho novamente em minha terceira cabeça meios de entrar.

6 E eu golpeio os homens na parte sem membros do corpo, e os faço cair, espumar e ranger os dentes.

O texto não distribui explicitamente as três ações entre as três cabeças: só a terceira é nomeada, quando o dragão diz ter "novamente em minha terceira cabeça meios de entrar". A tabela abaixo segue a leitura corrente, que alinha as três "linhas" de atividade às três cabeças, mas essa correspondência é inferida, não afirmada pelo texto.

Linha de açãoO que o texto dizCondição correspondente
Primeira"eu cego as crianças no ventre das mulheres"Cegueira congênita
Segunda"enrolo suas orelhas" e "eu os faço surdos e mudos"Surdez congênita, com a mudez que costuma vir junto
Terceira"eu golpeio os homens na parte sem membros do corpo, e os faço cair, espumar e ranger os dentes"Crise convulsiva. A "parte sem membros do corpo" é obscura no grego e costuma ser lida como a cabeça

De onde vem o nome Buné

Buné (também grafado Bimé ou Bim) é o vigésimo sexto espírito da Ars Goetia, primeira parte da Lemegeton, a Chave Menor de Salomão. É um manual de magia cerimonial que circula em manuscritos a partir do século XVII, com listas de demônios que já apareciam antes no Pseudomonarchia Daemonum de Johann Weyer (1577), e que ficou popular pela edição inglesa de S. L. MacGregor Mathers e Aleister Crowley, de 1904. Lá Buné é um duque que aparece como dragão de três cabeças, uma de cão, uma de grifo e uma de homem, muda os mortos de sepultura e torna rico e eloquente quem o invoca. Nada disso está no Testamento de Salomão, que é muitos séculos mais antigo, não descreve como são as três cabeças e não promete riqueza a ninguém. A fusão dos dois é tardia e fácil de explicar: as duas obras são atribuídas a Salomão, as duas trazem um dragão de três cabeças, e catálogos de demônios passaram a emprestar o nome goético ao espírito do Testamento. Edições populares em português já trazem "Buné" no cabeçalho do capítulo, o que consolidou a troca.

13 Então eu disse a ele: “Como você se chama?” E o demônio disse: “Eu sou a crista dos dragões.” E eu ordenei que ele fizesse tijolos no Templo. Ele tinha mãos humanas.

Gólgota e o anjo do grande conselho: a camada cristã

A resposta do dragão é abertamente cristã. Ele diz ser frustrado no lugar chamado Gólgota, onde os evangelhos situam a crucificação, pelo "anjo do grande conselho", que "habitará abertamente na cruz". A expressão vem da Septuaginta: onde o hebraico de Isaías 9:6 empilha títulos ("Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte"), a tradução grega, que numera o versículo como 9:5, traz megalēs boulēs angelos, "anjo do grande conselho", lido pelos Padres da Igreja como profecia de Cristo. Um demônio interrogado pelo Salomão histórico, no século X a.C., não teria como citar a Septuaginta nem nomear um lugar fora dos muros de Jerusalém que só viraria ponto de execução muito depois. Passagens assim são a razão principal pela qual a maioria dos estudiosos vê no Testamento de Salomão uma obra composta: um núcleo judaico de magia, astrologia e exorcismo, com redação cristã por cima. A datação é disputada, com propostas que vão do século I ao século V, e a edição crítica de Chester C. McCown (1922) mostra recensões gregas que divergem bastante entre si, o que torna arriscado falar de "o" texto no singular.

Cegueira de nascença: a lógica que Jesus recusa

Buné e Abyzou respondem à mesma pergunta. Sem os recursos que hoje explicam uma infecção congênita, uma hipóxia no parto ou uma herança genética, uma criança que nascia cega ou surda era um fato sem causa visível. O Testamento fornece uma: existe um espírito que entra no ventre e faz aquilo, e existem um nome, um selo e um anjo que o detêm. Funciona como explicação e, plausivelmente, como alívio, já que desloca a culpa para fora da família. O Evangelho de João mostra que essa forma de raciocinar não era marginal. Diante do cego de nascença, os discípulos não perguntam se houve uma causa moral, perguntam qual foi: "quem pecou, este ou seus pais?". As duas alternativas pressupõem que o defeito congênito é efeito de alguma coisa, pecado do doente, pecado dos pais ou, na versão do Testamento, ataque de um demônio no útero. Jesus descarta a pergunta inteira, "nem ele pecou nem seus pais", e desloca o caso para o que Deus fará ali.

A recusa registrada em João 9 é pontual e não se generaliza como princípio no restante do Novo Testamento. Os mesmos evangelhos atribuem doença a espírito em outros lugares: o menino de Marcos 9, que cai, espuma e range os dentes, descreve um quadro muito próximo do que a terceira cabeça do dragão reivindica, e Lucas diz que Satanás mantinha presa a mulher encurvada havia dezoito anos. Já o Êxodo coloca a resposta em outro endereço, quando Deus pergunta a Moisés quem fez o mudo, o surdo e o cego. O que não aparece na Bíblia é o quadro completo do Testamento de Salomão: um demônio nomeado, com jurisdição sobre fetos, cegando bebês por ofício e detido por um selo. Essa figura pertence ao repertório da magia protetora antiga e tardo-antiga, com amuletos, nomes secretos e anjos de contenção, e é justamente a distância entre os dois materiais que interessa observar aqui.