Abezethibou, o demônio de uma asa só que diz ter endurecido o coração do Faraó

Figura de perfil com uma única asa emplumada, o outro ombro nu, água escorrendo das vestes e das penas, sustentando uma coluna de pedra

Abezethibou é o demônio do Mar Vermelho no Testamento de Salomão: um espírito alado de uma asa só que se apresenta como descendente de um arcanjo, diz ter se sentado no primeiro céu e afirma ter endurecido o coração do Faraó e feito os egípcios perseguirem Israel. Ao fim do episódio ele conta que permaneceu no mar, mantido sob o pilar, até Ephippas ser enviado por Salomão; os dois passam então a sustentar a coluna suspensa no ar, sob juramento, até o fim do mundo. É o demônio do livro com a reivindicação teológica mais pesada, porque o ato que ele avoca para si é justamente um ato que a Bíblia atribui a Deus.

3 E o demônio respondeu: “Eu, ó rei Salomão, sou chamado Abaddon. Eu sou descendente do arcanjo.

4 Certa vez, quando me sentei no primeiro céu, cujo nome é Ameleouth

5 - então sou um espírito feroz e alado, e com uma única asa, conspirando contra todos os espíritos sob o céu.

6 Eu estava presente quando Moisés se apresentou a Faraó, rei do Egito, e endureci seu coração.

7 Eu sou aquele a quem Janes e Jambres invocaram ao retornar com Moisés no Egito.

8 Eu sou aquele que lutou contra Moisés com maravilhas e sinais”.

O episódio fecha o ciclo da pedra angular. Nos capítulos anteriores, um servo de Salomão captura o demônio do vento árabe, Ephippas, dentro de um frasco de couro selado com o anel. Interrogado, Ephippas diz que consegue erguer a pedra angular sozinho e que, com a ajuda do demônio que preside o Mar Vermelho, ainda fará subir a coluna e a colocará onde Salomão quiser em Jerusalém. Os dois trazem a coluna, Salomão a sela com o anel de um lado e do outro, e então interroga o segundo espírito. A obra é uma composição em grego e a datação é disputada: C. C. McCown, que editou o texto grego em 1922, defendeu o início do século III para a compilação, sobre tradições mais antigas de Salomão exorcista; a apresentação de D. C. Duling (1983), hoje a mais citada em inglês, resume o intervalo usual como algo entre o século I e o século III d.C.

10 E ele respondeu: “No êxodo dos filhos de Israel, endureci o coração de Faraó.

11 E eu excitei seu coração e o de seus ministros. E fiz com que perseguissem os filhos de Israel.

12 E Faraó seguiu comigo e todos os egípcios. Então eu estava presente lá, e seguimos juntos.

13 E todos nós chegamos ao Mar Vermelho.

14 E aconteceu que, quando os filhos de Israel passaram, a água voltou e cobriu todas as hostes dos egípcios e todas as suas forças.

15 E eu permaneci no mar, sendo mantido sob este pilar. Mas quando Ephippas veio, sendo enviado por você, fechado no vaso de um frasco,

Abaddon na tradução, Abezethibou no grego

Na tradução portuguesa que publicamos aqui, o demônio se apresenta como “Abaddon”. Nos manuscritos gregos o nome é Abezethibou, e a tradução inglesa de F. C. Conybeare (1898), feita sobre o códice de Paris, translitera Abezithibod. A escolha do tradutor português alimenta uma confusão que circula bastante, então convém dizer com todas as letras: Abezethibou não é o Abadom do Apocalipse. Abadom é o nome hebraico do anjo do abismo, com o equivalente grego Apoliom, aparece uma única vez no Novo Testamento e não tem nenhuma ligação com o Êxodo, com asas ou com o Mar Vermelho. Já Abezethibou não tem etimologia aceita: o nome não é atestado em textos judaicos anteriores, e as glosas hebraizantes que circulam em enciclopédias populares e na literatura ocultista (do tipo “pai sem conselho”) são reconstruções tardias, sem apoio manuscrito.

11 E tinham sobre si rei, o anjo do abismo; em hebreu era o seu nome Abadom, e em grego Apoliom.

O atrito com Êxodo: quem endureceu o coração do Faraó?

Êxodo já trabalha com dois sujeitos, e a tensão é interna ao texto canônico, não uma invenção dos apócrifos. Em algumas passagens é Deus quem endurece o coração do Faraó, inclusive antes da primeira praga e novamente na véspera da perseguição no mar. Em outras é o próprio Faraó que endurece o seu coração, sempre depois de ver o alívio chegar. O hebraico alterna três raízes verbais (ḥazaq, kabed e qashah), e a distribuição entre agente divino e agente humano é um dos problemas clássicos de exegese do livro.

O Testamento de Salomão não resolve esse problema: ele acrescenta um terceiro agente. O endurecimento vira obra de um demônio, e o peso sai tanto de Deus quanto do Faraó. Esse deslocamento não é isolado. É um movimento recorrente na literatura judaica do Segundo Templo e depois dela: um ato atribuído diretamente a Deus num texto antigo reaparece, num texto posterior, na conta de um intermediário maligno. O caso mais citado está dentro da própria Bíblia, na narrativa do censo de Davi, contada duas vezes: em Samuel quem incita é “a ira do Senhor”; em Crônicas, livro em geral tido como posterior, quem incita é “Satanás”.

12 E apesar de todos esses sinais e maravilhas, o príncipe Mastêmâ não foi envergonhado, porque tomou coragem e clamou aos egípcios para te perseguirem com todas as forças dos egípcios, com seus carros e cavalos, e com todos os exércitos do povo do Egito.

13 E eu fiquei entre os egípcios e Israel, e libertamos Israel da sua mão, e da mão do seu povo, e o Senhor os fez passar pelo meio do mar como se fosse terra seca.

14 E todos os povos que ele trouxe para perseguir Israel, o Senhor nosso Deus os lançou no meio do mar, nas profundezas do abismo sob os filhos de Israel, assim como o povo do Egito havia lançado seus filhos no rio. Ele se vingou de 1.000.000 deles, e mil homens fortes e enérgicos foram destruídos por causa de um bebê dos filhos do teu povo que eles haviam lançado no rio.

15 E no décimo quarto dia, e no décimo quinto, e no décimo sexto, e no décimo sétimo, e no décimo oitavo, o príncipe Mastêmâ foi amarrado e preso atrás dos filhos de Israel para que não os acusasse.

16 E no décimo nono, soltamo-los para que ajudassem os egípcios e perseguissem os filhos de Israel.

17 E ele endureceu os seus corações e os tornou obstinados, e o plano foi concebido pelo Senhor nosso Deus para que Ele ferisse os egípcios e os lançasse ao mar.

O paralelo com Jubileus é o mais próximo, e vem de um texto bem mais antigo que o Testamento, em geral datado do século II a.C.: ali o príncipe Mastêmâ ajuda os feiticeiros egípcios, clama aos egípcios para perseguirem Israel e endurece os corações, exatamente as funções que o Testamento entrega ao demônio do Mar Vermelho. Jubileus ainda faz o esforço de subordinar o intermediário ao plano divino (“o plano foi concebido pelo Senhor nosso Deus”) e o descreve amarrado e solto em dias específicos. O Testamento não se dá esse trabalho: o demônio narra tudo em primeira pessoa, como autor do ato, e o texto não comenta a relação com Êxodo.

O que está no texto e o que é folclore posterior

Vale separar as duas camadas, porque quase tudo que circula sobre Abezethibou na internet não está no capítulo. Está no texto: a asa única, a passagem pelo primeiro céu (chamado Ameleouth), a descendência angélica, o endurecimento do coração do Faraó, a luta contra Moisés “com maravilhas e sinais”, a ligação com Janes e Jambres, a permanência no mar sob o pilar, o juramento de sustentar a coluna e a nota de que, no dia em que a pedra cair, chega o fim do mundo. Não está no texto: que a segunda asa tenha sido arrancada por anjos durante a queda (o capítulo não explica a asa faltante), que a asa restante fosse vermelha, que ele tenha segurado a muralha de água para o povo passar (no texto a água volta e cobre os egípcios, e ele diz ter permanecido no mar, mantido sob o pilar), e qualquer posto em hierarquias demoníacas de grimório, que são construções medievais e modernas. A observação de que os espíritos sustentam a coluna “até hoje” está no capítulo anterior, e sugere um autor escrevendo para leitores que supostamente podiam ver o objeto.

O único ponto em que essa tradição toca o Novo Testamento é lateral: os magos egípcios de Êxodo não são nomeados no texto bíblico, mas ganham nomes na tradição judaica e aparecem nomeados numa carta do Novo Testamento atribuída a Paulo. O Testamento vai um passo além e faz o demônio reivindicar ter sido invocado por eles.