Lilith está na Bíblia?

Arco quebrado e coluna partida de um palácio em ruínas do deserto, com corvo, coruja com filhotes, chacal e abutres entre espinheiros

A palavra hebraica lilit aparece uma única vez em toda a Bíblia hebraica, em Isaías 34:14, dentro de uma lista de criaturas que ocupam as ruínas de Edom. Não há narrativa, genealogia, diálogo nem qualquer indicação de que ela tenha sido esposa de alguém. Tudo o que o texto bíblico afirma é que essa coisa, seja ela uma ave ou um espírito, encontra descanso num lugar arrasado. O resto da Lilith que circula na internet vem de fora do cânone: da demonologia mesopotâmica, da magia judaica babilônica e, sobretudo, de uma sátira medieval escrita mais de mil anos depois de Isaías.

14 As feras do deserto se encontrarão com as feras da ilha, e o sátiro clamará ao seu companheiro; e os animais noturnos ali pousarão, e acharão lugar de repouso para si.

Um catálogo de ruínas, não uma personagem

Isaías 34 é um oráculo de julgamento contra Edom. O capítulo descreve a terra transformada em deserto permanente, e os versículos 11 a 15 formam um inventário do que passa a morar ali: pelicano, coruja, bufo e corvo, espinhos, urtigas e cardos, chacais, avestruzes, abutres, um sair (o "sátiro" das traduções, assunto de outra página deste tema) e, no versículo 14, a lilit. A identificação exata de vários desses nomes de animais é incerta e muda de tradução para tradução, o que já é um primeiro sinal do problema. O gênero literário importa para a interpretação: o profeta não está apresentando personagens, está listando a fauna da desolação. Esse mesmo catálogo reaparece em outros oráculos contra cidades condenadas, com elenco quase idêntico de bichos do deserto, e em nenhum deles a lista é lida como um panteão.

Como cada tradução verte a palavra

Texto ou traduçãoPalavra usada em Is 34:14Leitura implícita
Texto hebraico massorético (BHS)לילית (lilit)texto-fonte, é a palavra em discussão
Rolo de Isaías de Qumran (1QIsaᵃ, c. 125 a.C.)liliyot, no pluralclasse de criaturas, não indivíduo
Septuaginta (grego, séc. 2 a.C.)ὀνοκένταυροι (onokentauroi)onocentauros, criaturas híbridas
Targum de Jônatas (aramaico)lilin, no pluralespíritos
Vulgata (Jerônimo, c. 400)lamiademônia devoradora de crianças da mitologia greco-romana
King James Version (1611)screech owlave noturna
Almeida Corrigida Fielanimais noturnosanimais
Almeida Revista e Atualizadafantasmasentidade sobrenatural
Nova Versão Internacionalcriaturas noturnasambíguo
Bíblia King James Fiela coruja que chirriaave noturna
Tradução do Novo Mundoaves noturnasaves
Ave-Mariaespectro noturnoentidade sobrenatural
Bíblia de AparecidaLilitnome próprio
Bíblia PastoralLilitnome próprio

A tabela expõe duas decisões editoriais irreconciliáveis dentro do mesmo mercado brasileiro. Um grupo trata lilit como substantivo comum e traduz por um animal ou por um vago "noturno": a King James de 1611 escolheu screech owl, uma coruja, na esteira de uma linha exegética judaica medieval que lia a palavra como ave, linha em que Abraão ibn Ezra (séc. 12) é o nome mais citado, embora não haja documento mostrando que os tradutores ingleses o tenham seguido diretamente; a Bíblia King James Fiel calca essa escolha em português com "a coruja que chirria", e a Almeida Corrigida Fiel, a NVI e a Tradução do Novo Mundo ficam no mesmo campo com "animais noturnos", "criaturas noturnas" e "aves noturnas". Outro grupo trata a palavra como nome próprio e simplesmente transcreve: a Bíblia de Aparecida e a Bíblia Pastoral escrevem Lilit com maiúscula, e o leitor que abre essas edições encontra literalmente o nome impresso na página. No meio ficam as soluções híbridas, "fantasmas" na Revista e Atualizada e "espectro noturno" na Ave-Maria, que preservam o sobrenatural sem assumir um nome. Nenhuma dessas escolhas é neutra e não há consenso acadêmico que encerre a questão: Judit M. Blair, entre outros, sustenta que nada no texto exige um demônio e lê a lilit como criatura do deserto; boa parte dos comentários críticos atuais admite que o termo carrega, no mínimo, uma conotação demoníaca herdada da Mesopotâmia.

De onde vem o nome

O nome não é de origem hebraica. A raiz mais aceita é o sumério lil, "vento" ou "ar", que entra no acádio como lilû (masculino), lilītu (feminino) e ardat lilî ("a moça-lilî"), um grupo de espíritos associados a vento e tempestade atestado em textos cuneiformes desde o início do segundo milênio a.C. A semelhança sonora com o hebraico layla, "noite", é o que produziu a Lilith noturna de toda a tradição posterior, mas os assiriólogos tratam essa aproximação como etimologia popular, não como derivação real. Em outras palavras, a criatura era do vento antes de ser da noite. Ela também não é Lamashtu. Lamashtu, chamada Dimme em sumério e com etimologia acádia discutida, aparece nos textos como filha do deus Anu e ameaça de recém-nascidos, e seu nome é escrito com o determinativo cuneiforme de divindade, o que a classifica como deusa menor e não como demônio. As duas figuras se contaminaram ao longo dos séculos, e o traço infanticida que a Lilith judaica exibe mais tarde provavelmente veio de Lamashtu, mas nas fontes mesopotâmicas são entidades distintas. Vale registrar ainda que o relevo de terracota do Museu Britânico conhecido como Burney Relief ou "Rainha da Noite", ilustração padrão de artigos sobre Lilith, foi associado a ela em meados do século 20 e hoje é atribuído pela maioria dos especialistas a Ishtar ou a Ereshkigal.

Fora da Bíblia, a evidência de uma lilit demoníaca é antiga, ainda que desigual em qualidade. O amuleto de Arslan Tash, placa de calcário do norte da Síria escrita em fenício com traços de ortografia aramaica e datada do século 7 a.C., traz um conjuro contra seres noturnos que ameaçam a casa e o recém-nascido; sua autenticidade foi contestada a partir dos anos 1970 e hoje a maioria dos epigrafistas o considera genuíno, mas tanto o veredito sobre a peça quanto a leitura da linha que alguns transcrevem como "lilit" seguem em disputa. Em Qumran, o texto mágico conhecido como Cânticos do Sábio (4Q510-511, copiado por volta da virada da era) lista lilit entre os espíritos que o instrutor afasta, ao lado de "bastardos" e demônios: é a primeira ocorrência clara do termo aplicado a um ser sobrenatural em texto judaico. O grande rolo de Isaías (1QIsaᵃ) e o Targum de Jônatas leem a palavra no plural em 34:14, o que aponta para uma classe de criaturas e não para um indivíduo com nome. Nas taças de encantamento aramaicas da Babilônia sassânida (séculos 5 a 7 d.C.), escavadas sobretudo na região de Nippur, a lilit aparece às centenas, e algumas taças usam a fórmula jurídica do get, a carta de divórcio judaica, com data e vocabulário técnico, para dissolver o vínculo entre a demônia e sua vítima. O Talmude Babilônico a menciona de passagem em Eruvin 100b (o cabelo longo), Shabat 151b (não dormir sozinho em casa), Nidá 24b (o feto com asas) e Bava Batra 73a (a mãe de demônios). O Zohar, do fim do século 13, e a cabala posterior a promovem a consorte de Samael. Em nenhum desses textos ela é esposa de Adão.

A primeira esposa de Adão é medieval

A Lilith popular, primeira mulher criada do mesmo barro que Adão e expulsa por recusar a submissão sexual, tem fonte única e identificável: o Alfabeto de Ben Sira, obra anônima em hebraico e aramaico que os especialistas datam entre os séculos 8 e 10 d.C. O título é pseudepígrafo e não tem relação com o Eclesiástico, o livro de Jesus ben Sirac do século 2 a.C. Trata-se de um texto satírico e deliberadamente obsceno, que zomba de figuras e argumentos rabínicos; parte considerável dos estudiosos entende que o alvo da paródia é Adão, retratado como marido incapaz de impor qualquer autoridade, e não Lilith. A trama é curta: Lilith se recusa a deitar-se por baixo, pronuncia o Nome inefável, voa e se instala no mar Vermelho; Deus envia três anjos, Senoy, Sansenoy e Semangelof, para trazê-la de volta; ela recusa e fecha um pacto, cem de seus filhos morrerão por dia e ela não terá poder sobre nenhuma criança cujo amuleto traga os nomes desses anjos. Esse último detalhe denuncia a função do texto: ele é uma etiologia dos amuletos de parto que já circulavam havia séculos entre judeus do Oriente Médio, não um relato primitivo. É uma lenda medieval explicando um costume mais antigo do que ela.

O que a Bíblia diz: em Isaías 34:14, alguma coisa chamada lilit encontra repouso nas ruínas de Edom, entre corujas, chacais, avestruzes e cardos. É tudo. O que a Bíblia não diz: que essa criatura seja mulher, que tenha nome próprio, que tenha existido antes de Eva, que tenha se relacionado com Adão ou que seja mãe de demônios. O argumento das duas criações, que opõe Gênesis 1, onde homem e mulher são criados juntos, a Gênesis 2, onde Eva é formada da costela, comporta duas leituras: a exegese judaica e cristã tradicional vê ali duas perspectivas sobre o mesmo evento, e a crítica histórica moderna vê dois relatos de origem distinta, atribuídos às fontes sacerdotal e javista. Nenhuma das duas produz uma primeira esposa, e nem o Talmude nem os targuns extraem uma do texto: a inferência só aparece no Alfabeto de Ben Sira, séculos depois. Quem quiser sustentar que Lilith é bíblica precisa apoiar-se em uma palavra que aparece no plural em dois dos testemunhos mais antigos, dentro de uma lista de bichos. Quem quiser negá-la por completo precisa explicar por que Qumran, o Targum, o Talmude e centenas de taças babilônicas a tratam como espírito. As duas coisas são verdadeiras ao mesmo tempo: a lilit de Isaías é obscura, e a Lilith que a cultura popular conhece foi montada muito depois, fora do cânone.