
Belial não é, na Bíblia hebraica, o nome de ninguém. Beliyya'al é um substantivo comum, com sentido próximo de "inutilidade", "vileza" ou "sem proveito", e aparece cerca de vinte e sete vezes no Antigo Testamento quase sempre preso a outra palavra: "filhos de Belial", "homem de Belial", "conselheiro de Belial", "torrentes de Belial". Só nos textos judaicos do Segundo Templo essa palavra passa a designar uma pessoa, o chefe das trevas que comanda os filhos das trevas contra os filhos da luz. Belial é um dos casos mais claros de um termo de qualidade moral que virou entidade.
Uma etimologia sem consenso
A decomposição mais repetida quebra a palavra em beli ("sem") mais ya'al ("proveito", "utilidade"), o que dá "sem proveito", "imprestável". Gesenius e o léxico Brown-Driver-Briggs seguem essa linha e ela continua majoritária. Não é a única. Há quem derive de bala' ("engolir", "devorar"), aproximando a palavra de um abismo que traga. A tradição rabínica registrada no Talmude propõe beli mais ol, "sem jugo", isto é, quem não aceita o jugo da lei. Nenhuma das três é demonstrável. O que todas têm em comum importa mais que a divergência: qualquer que seja a raiz, o resultado é uma qualificação moral, não um antropônimo. A Septuaginta confirma isso ao traduzir em vez de transliterar. Onde o hebraico traz "filhos de beliyya'al", o grego costuma pôr paranomoi ("transgressores da lei") ou loimoi ("pestilentos").
As traduções brasileiras não concordam entre si
Nenhuma versão é consistente, e a inconsistência é da mesma versão consigo mesma. A Almeida Corrigida Fiel transcreve "Belial" em Deuteronômio, Juízes, 1 Samuel 2 e 2 Samuel 23, e traduz "homem vil" em 1 Samuel 25 e "conselheiro vil" em Naum, com a mesma palavra hebraica atrás dos dois. A Almeida Revista e Atualizada faz o contrário em Deuteronômio, onde escreve "homens malignos", e mantém "filhos de Belial" em Juízes. A Nova Versão Internacional não usa "Belial" em nenhuma passagem do Antigo Testamento. A inversão mais curiosa está no Novo Testamento: no único lugar em que o grego traz de fato um nome próprio, a Revista e Atualizada é a que não o transcreve. O efeito acumulado é que as versões tendem a personalizar onde o hebraico não personaliza e a despersonalizar onde o grego personaliza.
| Passagem | ACF | ARA | NVI |
|---|---|---|---|
| Dt 13:13 | filhos de Belial | homens malignos | homens perversos |
| Jz 19:22 | filhos de Belial | filhos de Belial | alguns vadios da cidade |
| 1Sm 25:17 | um homem vil | filho de Belial | um homem tão mau |
| 2Sm 23:6 | os filhos de Belial | os filhos de Belial | os perversos |
| Na 1:11 | um conselheiro vil | um conselheiro vil | aquele que trama perversidades |
| 2Co 6:15 | Belial | o Maligno | Belial |
Do substantivo ao nome próprio: os textos do Segundo Templo
Em Qumran a mudança já está consumada. Belial é o nome pessoal mais frequente do adversário nos manuscritos do Mar Morto, com dezenas de ocorrências, bem à frente de Mastema. Na Regra da Guerra (1QM), rolo de dezenove colunas copiado no fim do século I a.C., ele comanda os filhos das trevas na guerra de quarenta anos contra os filhos da luz, e o texto o descreve como um anjo de hostilidade criado para a corrupção, cujo domínio está nas trevas. Na Regra da Comunidade (1QS) a seita amaldiçoa por escrito os homens do quinhão de Belial na liturgia de entrada. No Documento de Damasco (CD) aparecem as três redes de Belial, identificadas como fornicação, riqueza e contaminação do santuário. Esses rolos não são bíblicos e não estão entre as obras hospedadas aqui, mas são o elo que falta entre o adjetivo hebraico e o demônio.
Os dois pseudepígrafos hospedados aqui mostram o mesmo estágio. Jubileus, composto por volta de 160 a 150 a.C. segundo a datação corrente, fala do espírito de Beliar que acusa Israel diante de Deus e chama os apóstatas de filhos de Beliar, mantendo a construção hebraica com a palavra já funcionando como nome. Nos Testamentos dos Doze Patriarcas, Beliar é personagem recorrente: será amarrado, será lançado no fogo, sofre guerra do salvador que virá de Levi e de Judá, e entrega uma espada aos que lhe obedecem. A datação dos Testamentos é disputada. R. H. Charles via um original judaico do século II a.C. com interpolações cristãs; Marinus de Jonge defendeu, a partir de 1953, uma composição cristã por volta do ano 200 d.C. que reaproveita material judaico. As estimativas correntes vão de meados do século II a.C. ao início do século III d.C., e algumas passagens sobre Beliar aparecem coladas a trechos abertamente cristãos, o que mantém a discussão aberta.
A única vez no Novo Testamento
A palavra aparece uma vez só em todo o Novo Testamento. Paulo alinha quatro pares opostos (justiça e iniquidade, luz e trevas, templo de Deus e ídolos, fiel e infiel) e no centro põe Cristo contra Beliar. O grego é Beliar, com r final, não Belial: a alternância entre l e r é comum na transliteração de origem semítica, e a forma com r é a que o texto crítico adota, embora existam cópias com Belial, Belian e Beliab. O uso pressupõe o vocabulário de Qumran e não o do Antigo Testamento, porque para a frase funcionar Beliar precisa ser alguém, não uma qualidade. Vale registrar que o bloco de 2 Coríntios 6:14 a 7:1 é ele próprio disputado, e parte dos comentaristas o lê como material de origem sectária inserido na carta, justamente pelo vocabulário dualista.
15 E que concórdia há entre Cristo e Belial? Ou que parte tem o fiel com o infiel?
Depois do século I a palavra segue dois caminhos que convém não misturar. Um é exegético: Belial vira mais um dos nomes que comentaristas judeus e cristãos aplicam ao mesmo adversário, ao lado de Satanás, Mastema, Samael e Azazel, sem que os textos afirmem em nenhum lugar que se trata de uma só figura. O outro é literário. A Ascensão de Isaías, pseudepígrafo judaico-cristão, apresenta Beliar como o anjo da iniquidade encarnado num rei matricida que a maioria dos comentaristas identifica com Nero. Séculos depois, e já sem vínculo com o texto bíblico, os grimórios tardios como a Ars Goetia, compilada no século XVII a partir de material mais antigo, o catalogam como rei demoníaco com legiões sob comando, e Milton, no Paraíso Perdido, faz dele um anjo caído eloquente que aconselha a inação. Nada disso está no Antigo Testamento, onde a palavra continua sendo, em hebraico, um julgamento moral. O processo mais amplo pelo qual termos e deuses estrangeiros viraram demônios é tratado em outra página deste tema.