Os mesmos fatos, lidos por duas lentes que discordam. Nenhuma das vozes fala pela posição da página: elas existem para que você veja o argumento mais forte de cada lado.
O Design Inteligente repete a intuição de Paley em linguagem moderna, mas falha no teste que define ciência: não gera previsões e foi reconhecido em tribunal como argumento religioso reembalado.
Comecemos pelo olho, porque é o caso mais antigo e o mais honesto. Paley olhou para um órgão acabado e raciocinou de trás para frente: tão perfeito, logo projetado. Darwin fez a pergunta que Paley não fez, existem olhos intermediários úteis na natureza viva, agora? Existem: da simples mancha de pigmento sobre um nervo óptico, passando pela cavidade que dá noção de direção, até o olho com lente. Cada degrau é vantajoso por si só, e todos coexistem hoje em organismos diferentes. O argumento do projetista depende de que o salto seja impossível em etapas. A natureza exibe as etapas.
A complexidade irredutível de Behe tentou blindar essa objeção: um sistema que para de funcionar se você remove uma peça não poderia ter sido montado peça por peça. O problema é a premissa de que a função atual é a única função possível de cada parte. A co-opção, peças que evoluíram para uma tarefa e foram recrutadas para outra, desmonta o raciocínio. O exemplo que virou símbolo é o flagelo bacteriano: parte de sua maquinaria corresponde ao sistema de secreção tipo III, que cumpre função própria e independente. Removida a peça, ela não vira lixo, vira outra coisa útil.
Aqui está a fronteira que separa ciência de não-ciência, e ela foi testada em condições adversas. Em Kitzmiller v. Dover, em 2005, Behe subiu ao banco como testemunha. Confrontado com sua afirmação de que a ciência nunca explicaria a evolução do sistema imune, foi-lhe apresentada uma pilha de artigos revisados por pares e capítulos de manuais sobre exatamente isso. Ele respondeu que não era suficiente. Esse é o ponto: uma teoria que não diz que evidência a refutaria, e que descarta a evidência produzida, não está fazendo ciência, está protegendo uma conclusão. O Design Inteligente não publicou programa de pesquisa nem gerou previsão testável.
O juiz John Jones, conservador nomeado por Bush, concluiu que o Design Inteligente não consegue se desacoplar de seus antecedentes criacionistas. A prova mais reveladora foi documental: um rascunho do livro-texto onde a palavra criacionistas fora trocada por proponentes do design, mesma frase, etiqueta nova. Nada disso é veredito sobre Deus, e convém ser claro: que a criação aponte para o Criador é afirmação teológica, legítima em seu próprio terreno. O que a evidência julga é outra coisa, a pretensão de que o design seja ciência empírica. Como argumento religioso sobre propósito, ele segue de pé. Como teoria científica testável, foi pesado na balança e considerado leve.
A ciência descreve o mecanismo, a inferência de propósito é filosófica. Dover acertou ao barrar o design da aula de biologia sem, com isso, decidir nada sobre a existência de Deus.
Convém conceder o que é forte no lado crítico. A gradação do olho que Darwin descreve é real e bem documentada: existem na natureza olhos em todos os estágios de complexidade, da mancha fotossensível ao olho-câmara, e isso desarma a versão ingênua do argumento de Paley. Do mesmo modo, a réplica da co-opção à complexidade irredutível de Behe tem peso empírico: o flagelo bacteriano, exemplo predileto de Behe, contém um subconjunto de proteínas que forma o sistema secretor tipo III, um aparato funcional por si mesmo. Negar isso seria desonesto. A pergunta honesta não é se esses dados existem, e sim o que eles demonstram e o que não demonstram.
O ponto de virada é metodológico, e ele corta dos dois lados. A biologia evolutiva descreve mecanismo: como uma estrutura pode surgir por variação e seleção. Essa é uma pergunta empírica, testável, e nela a evolução vence. Mas a inferência de que uma estrutura tem ou não tem propósito é uma pergunta de outra ordem, filosófica, não experimental. O erro do design na forma de Behe foi vestir uma intuição de propósito, legítima como filosofia, com a roupa de uma hipótese científica, e a co-opção mostrou que, enquanto hipótese científica, ela falha. Isso não refuta Deus; apenas mostra que a bioquímica é o terreno errado para tentar prová-lo.
Por isso o argumento mais sólido do teísmo não é biológico, e sim cosmológico: o ajuste fino das constantes físicas. Diferente da complexidade bioquímica, ele não compete com um mecanismo darwiniano, e os próprios físicos reconhecem que valores como a constante cosmológica caem numa faixa estreitíssima compatível com a vida. A resposta naturalista mais séria a isso é o multiverso, que é, ela mesma, uma postulação metafísica não observada. Ou seja, aqui o jogo é parelho, e ambos os lados admitem estar inferindo, não medindo. É um argumento de inferência para a melhor explicação, não uma prova; quem o apresenta como prova repete o erro de Paley num andar acima.
Quanto a Kitzmiller v. Dover, é importante ler a sentença pelo que ela é. O juiz decidiu que o design não pode ser ensinado como ciência na aula de biologia pública, porque não é falsificável no sentido que a ciência exige e não consegue se desvincular de seus antecedentes criacionistas. Isso é uma decisão sobre currículo, não um veredito sobre a existência de Deus, que nenhum tribunal tem competência para emitir. O que fica em aberto, e o leitor deve sair sabendo, é isto: a ciência mostrou que a complexidade biológica não exige um designer para ser explicada, mas não mostrou, nem poderia, que não há propósito por trás das leis que tornam a evolução possível. A fé não preenche essa lacuna como hipótese de laboratório; ela a lê como sinal, e sinal é coisa que se interpreta, não que se prova num microscópio.