Houve Morte Antes do Pecado? O Sofrimento na Natureza

Um falcão capturando uma presa

Se a vida evoluiu ao longo de centenas de milhões de anos, houve morte, predação e extinção muito antes de qualquer ser humano, portanto antes de qualquer pecado. Para muitos cristãos isso colide com a ideia de que a morte entrou no mundo pela Queda. É o problema do sofrimento na sua forma mais concreta.

O que a Escritura diz sobre a morte

Paulo escreve que a morte entrou pelo pecado, e que a criação foi sujeita à vaidade, gemendo como em dores de parto. Por outro lado, a própria Bíblia descreve a natureza com sua violência sem chamá-la de mal: os leões que rugem buscando de Deus a sua comida, o discurso de Deus a Jó sobre o mundo selvagem que o homem não governa.

12 Portanto, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens por isso que todos pecaram.

20 Porque a criação ficou sujeita à vaidade, não por sua vontade, mas por causa do que a sujeitou,

21 Na esperança de que também a mesma criatura será libertada da servidão da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus.

22 Porque sabemos que toda a criação geme e está juntamente com dores de parto até agora.

21 Os leõezinhos bramam pela presa, e de Deus buscam o seu sustento.

As respostas cristãs variam: alguns entendem que a morte trazida pela Queda é a morte humana e espiritual, não a morte animal, que sempre foi natural; outros sustentam que toda morte é fruto da Queda, lida fora do tempo; outros veem na predação parte de uma criação ainda em caminho. O debate ao final expõe o peso de cada lado.

Perspectivas sobre este tema

Os mesmos fatos, lidos por duas lentes que discordam. Nenhuma das vozes fala pela posição da página: elas existem para que você veja o argumento mais forte de cada lado.

Crítico Histórico

O registro fóssil coloca centenas de milhões de anos de morte e extinção antes de qualquer ser humano, e isso torna a leitura de que a morte física entrou pela Queda insustentável.

Comecemos pelo dado material, que é o menos negociável. A paleontologia reconhece cinco extinções em massa antes do Homo sapiens, incluindo a do fim do Permiano, cerca de 252 milhões de anos atrás, com algo perto de 90% das espécies aniquiladas, e a do fim do Cretáceo, 66 milhões de anos, o impacto que liquidou os dinossauros. Dentes de predador cravados em ossos de presa, conchas perfuradas por gastrópodes carnívoros: a predação está fossilizada camada após camada, toda ela depositada eras antes do primeiro hominídeo. Se a morte física dos animais só pudesse existir depois da Queda de um casal humano, o solo sob nossos pés conta uma história incompatível.

Aqui a tensão não é entre ciência e fé, é interna ao próprio texto. Romanos 5 diz que a morte entrou pelo pecado, mas o contexto imediato, o paralelo com 1 Coríntios 15 e a frase todos os homens, sugere fortemente que Paulo fala da morte humana, não da mortalidade biológica de leões e trilobitas. E então a Bíblia faz algo inconveniente para a leitura jovem-terrista: no Salmo 104 os leõezinhos rugem pela presa e buscam de Deus a sua comida, e no discurso final a Jó é o próprio Deus quem se gaba de prover carne ao leão e à águia. A predação aparece ali não como cicatriz do pecado, mas como ordem instituída e até celebrada.

Convém conceder o que a evidência não fecha. O criacionismo da Terra antiga, que aceita as eras geológicas, sustenta de forma coerente que Romanos 5 trata só do ser humano e que a morte animal sempre existiu por desígnio; essa leitura é exegese defensável. Ou seja, a geologia não refuta a fé cristã: refuta uma interpretação específica, a de que a morte física universal começou na Queda. O que ela cobra é uma escolha. Não dá para manter, ao mesmo tempo, a inerrância de uma leitura literal de Gênesis 1-3 e o veredito convergente da datação radiométrica e da bioestratigrafia.

E é justamente aqui que a teodiceia fica mais aguda, não resolvida. A função original da doutrina de que a morte entrou pelo pecado era teológica: livrar Deus da autoria do sofrimento, atribuindo-o à culpa humana. Mas se cem milhões de anos de agonia, parasitismo e extinção precederam qualquer agente moral capaz de pecar, o sofrimento não pode ser consequência da Queda, e a pergunta sobre por que um Criador bom o instituiu volta intacta, sem o pecado humano para absorvê-la. Reconhecer isso não exige abandonar a fé; exige abandonar a pretensão de que o texto, lido como crônica científica literal, é inerrante.

Apologista Evidencial

A morte que Paulo diz ter entrado pelo pecado é a morte humana e espiritual, não a animal, que a própria Escritura retrata como parte da criação que Deus chamou de boa.

Comecemos pelo que é genuinamente forte no argumento: a evolução não funciona sem dezenas de milhões de anos de predação e extinção antes de qualquer hominídeo, e Paulo de fato diz que a morte entrou pelo pecado e que a criação geme em sujeição. Quem trata isso como detalhe menor não está levando nem a biologia nem o texto a sério. A questão decisiva é qual morte Paulo tem em vista. O argumento de Romanos 5 inteiro é uma tipologia entre Adão e Cristo, e o paralelo só fecha se a morte em pauta for a mesma que Cristo vence, ou seja, a morte humana e a alienação espiritual, não a mortalidade dos peixes do Cambriano.

O ponto que opera dentro do mesmo terreno é que a própria Escritura já trata a predação como obra de Deus, sem rotulá-la de mal. No Salmo 104, um hino de celebração da criação, o salmista canta que os leões novos rugem pela presa e de Deus buscam o seu sustento: o ato predatório não é descrito como ruptura, mas como Deus alimentando suas criaturas. O mesmo aparece no discurso divino a Jó, quando Deus exibe com orgulho que é Ele quem caça a presa para a leoa. Se a morte animal fosse intrinsecamente um efeito da Queda, seria estranho que dois textos hebraicos a coloquem na boca de Deus como prova de sua providência.

Onde a crítica frequentemente excede a evidência é em transformar o gemido da criação de Romanos 8 num relógio cosmológico. Esse gemido em sujeição à vaidade é, no contexto, orientado para o futuro: a criação aguarda a redenção dos filhos de Deus, um movimento rumo à glória, não um laudo forense sobre o ano em que o primeiro trilobita morreu. Ler ali a afirmação de que nenhuma célula morreu antes de Adão é importar para o texto uma pergunta cronológica que ele não está respondendo.

Seria desonesto fechar como se estivesse resolvido. Mesmo concedendo que Romanos 5 fala da morte humana, permanece o problema da dor animal: por que um Deus bom usaria um processo de centenas de milhões de anos de sofrimento sensível como método de criação? Aqui não há resposta limpa, e os melhores tratamentos admitem isso. Michael Murray, em Nature Red in Tooth and Claw, recusa oferecer uma teodiceia completa e se contenta com mostrar que o sofrimento animal não é demonstravelmente gratuito. O que de fato fica em aberto é isto: a leitura evolucionária dissolve a contradição histórica entre Romanos 5 e o registro fóssil, mas não dissolve a pergunta moral sobre a dor da criação. Essa pergunta a fé carrega, não a resolve.