Como Agostinho lê o Gênesis nos últimos livros das Confissões

Por que terminar no Gênesis

Os dois últimos livros das Confissões pegam muito leitor de surpresa: Agostinho larga a própria vida e passa a comentar, versículo por versículo, o começo do livro de Gênesis, a criação do mundo. A escolha tem lógica. Tendo confessado o passado e o presente, ele agora confessa diante da Escritura, e volta ao princípio de tudo: no princípio Deus criou. A história de uma alma desemboca na história da criação inteira.

Uma leitura espiritual

Agostinho não lê o Gênesis como manual de ciência. Ele busca os sentidos espirituais do texto e admite, com humildade rara, que um mesmo versículo pode comportar várias interpretações verdadeiras, todas dadas pelo mesmo Deus. Num momento marcante, lê o céu, a terra e o Espírito que paira sobre as águas, no segundo versículo da Bíblia, como uma figura velada da Trindade já presente na criação.

10 Acaso o Pai ou o Filho não pairavam sobre as águas? Se isso for entendido como um lugar, do modo como um corpo o ocupa, então nem mesmo o Espírito Santo ali pairava; mas se for a eminência da divindade imutável acima de toda coisa mutável, então o Pai, o Filho e o Espírito Santo pairavam sobre as águas. Por que, pois, isso foi dito somente do vosso Espírito? Por que dele somente se disse, como se fosse o lugar onde estava, ele que não é lugar, dele de quem unicamente se disse que é o vosso dom? No vosso dom descansamos: ali vos fruímos. Nosso descanso é o nosso lugar. O amor para nos eleva, e o vosso Espírito bom exalta a nossa humildade das portas da morte. Na boa vontade paz para nós. O corpo, por seu peso, tende para o seu lugar. O peso não tende somente para baixo, mas para o seu próprio lugar. O fogo tende para cima, a pedra para baixo; são impelidos por seus pesos, buscam os seus lugares. O azeite derramado debaixo da água sobe acima da água; a água derramada sobre o azeite afunda abaixo do azeite; são impelidos por seus pesos, buscam os seus lugares. As coisas menos ordenadas estão inquietas; são ordenadas, e repousam. Meu peso é o meu amor; por ele sou levado, para onde quer que seja levado. Pelo vosso dom somos inflamados e levados para cima; ardemos e caminhamos. Subimos as subidas no coração, e cantamos o cântico dos degraus. Por vosso fogo, por vosso fogo bom ardemos e caminhamos, porque caminhamos para o alto, para a paz de Jerusalém, porque me alegrei com os que me disseram: 'Iremos para a casa do Senhor.' Ali nos colocará a boa vontade, de modo que nada queiramos senão permanecer ali para sempre.

Por que o livro atravessou os séculos

As Confissões nunca saíram de circulação em mil e seiscentos anos. Foram lidas por monges medievais, citadas por Tomás de Aquino, redescobertas por Petrarca no início do Renascimento e centrais para Lutero e a Reforma. O motivo é a mistura que poucos livros conseguem: a intimidade de um diário, o rigor de um filósofo e a reverência de uma oração, tudo num homem que não esconde os próprios defeitos. Quem lê as Confissões não estuda Agostinho de longe; é convidado a fazer a mesma pergunta que abre o livro, sobre onde o próprio coração descansa.

1 Grande sois, Senhor, e mui digno de louvor; grande é a vossa força, e a vossa sabedoria não tem número. E o homem quer vos louvar, ele, uma parcela de vossa criatura; o homem, que traz consigo a sua mortalidade, que traz consigo o testemunho de seu pecado e o testemunho de que resistis aos soberbos; e, no entanto, o homem quer vos louvar, ele, uma parcela de vossa criatura. Vós o despertais para que se deleite em vos louvar, porque nos fizestes para Vós, e inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em Vós. Concedei-me, Senhor, saber e entender se primeiro se de vos invocar ou vos louvar, e se primeiro é conhecer-vos ou invocar-vos. Mas quem vos invoca sem vos conhecer? Pois quem não vos conhece pode invocar uma coisa em lugar de outra. Ou antes sois invocado para serdes conhecido? Mas como invocarão Aquele em quem não creram? Ou como crerão sem quem pregue? E louvarão ao Senhor os que o buscam: porque os que buscam o encontram, e os que o encontram o louvarão. Que eu vos busque, Senhor, invocando-vos, e vos invoque crendo em Vós: porque nos fostes pregado. Invoca-vos, Senhor, a minha fé, que me destes, que me inspirastes pela humanidade de vosso Filho, pelo ministério de vosso pregador.