Mônica, a mãe de Agostinho: a visão de Óstia e a morte dela

A mãe que não desistiu

Mônica atravessa as Confissões inteiras. Cristã firme, chorou e rezou por anos pela conversão do filho, seguiu-o de cidade em cidade, e Agostinho atribui boa parte da própria fé à insistência dela. Quando enfim ele se converte, o livro registra a alegria da mãe como uma colheita depois de longa lavoura.

A visão de Óstia

Já convertido, a caminho de voltar para a África, Agostinho e Mônica param na cidade portuária de Óstia, perto de Roma. Numa conversa à janela, mãe e filho são levados juntos, falando da vida eterna, a um momento de elevação mística raríssimo: por um instante, dizem ter tocado a sabedoria eterna, antes de retornarem ao som das próprias vozes. É um dos pontos mais altos e serenos do livro.

24 E, levando o diálogo a esse ponto, em que o deleite dos sentidos carnais, por maior que fosse e em qualquer luz corpórea por mais pura que fosse, comparado à suavidade daquela vida não não parecia digno de comparação, mas nem sequer de menção, erguendo-nos com afeto mais ardente para o próprio Idêntico, percorremos por graus todas as coisas corporais, e o próprio céu, donde o sol, a lua e as estrelas resplandecem sobre a terra. E ainda subíamos mais para dentro, pensando, falando e admirando as vossas obras. E chegamos às nossas mentes e as transcendemos, para alcançarmos a região da abundância indeficiente, onde apascentais Israel para sempre com o pasto da verdade; e ali a vida é a Sabedoria, pela qual são feitas todas estas coisas, as que foram e as que hão de ser; e ela mesma não é feita, mas é assim como foi, e assim será sempre. Ou antes, nela não ter sido nem haver de ser, mas o ser, porque é eterna: pois ter sido e haver de ser não é eterno. E enquanto falávamos e aspirávamos a ela, tocamo-la de leve com todo o ímpeto do coração. E suspiramos, e ali deixamos presas as primícias do espírito, e retornamos ao ruído de nossa boca, onde a palavra começa e termina. E que de semelhante à vossa Palavra, nosso Senhor, que permanece em si mesmo sem envelhecer e renova todas as coisas?

A despedida

Poucos dias depois, Mônica adoece e morre em Óstia, longe da terra natal, e o filho fica devastado. Agostinho descreve a dor com honestidade incomum: tentou se conter, achou que devia ser forte, e acabou chorando livremente, percebendo que o luto não era falta de fé. A morte da mãe encerra a parte autobiográfica da obra. Depois dela, o livro deixa a história e vira pensamento.

33 E daí, pouco a pouco, eu reconduzia ao sentido primeiro a vossa serva, e a sua conduta piedosa para convosco e santamente meiga e obsequiosa para conosco, da qual subitamente fui privado; e me aprouve chorar diante de Vós por ela e em favor dela, por mim e em favor de mim. E deixei correr as lágrimas que continha, para que se derramassem quanto quisessem, estendendo-as por baixo do meu coração; e este repousou nelas, porque ali estavam os vossos ouvidos, não os de algum homem que soberbamente interpretasse o meu pranto. E agora, Senhor, confesso-Vos por escrito: leia quem quiser, e interprete como quiser; e, se encontrar pecado em que eu tenha chorado a minha mãe por exígua parte de uma hora, a mãe por algum tempo morta aos meus olhos, que por muitos anos me chorara para que eu vivesse aos vossos olhos, não zombe de mim; mas antes, se for de grande caridade, chore ele mesmo por meus pecados diante de Vós, Pai de todos os irmãos do vosso Cristo.