Mito: Niceia Inventou a Divindade de Jesus

O que diz o mito

Uma das alegacoes mais difundidas e que a divindade de Jesus teria sido inventada em Niceia, em 325, por uma votacao apertada empurrada por Constantino, e que antes disso os cristaos viam Jesus apenas como um grande mestre humano. Nessa versao, o concilio teria promovido um profeta a Deus por decreto imperial.

A crenca e muito anterior a 325

O problema dessa tese e cronologico: textos que tratam Jesus como divino circulam seculos antes de Niceia. O prologo do Evangelho de Joao, do fim do seculo 1, ja identifica o Verbo com Deus e o coloca como agente da criacao.

1 No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.

14 E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade.

58 Disse-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que antes que Abraão existisse, eu sou.

Cartas atribuidas a Paulo, ainda mais antigas, aplicam a Jesus linguagem reservada a Deus e o apresentam como aquele por quem tudo foi criado.

15 O qual é imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação;

16 Porque nele foram criadas todas as coisas que nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades. Tudo foi criado por ele e para ele.

17 E ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por ele.

6 Que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus,

Fora da Biblia, o testemunho e igualmente cedo. Por volta de 107 d.C., Inacio de Antioquia chama Cristo abertamente de "nosso Deus" em suas cartas. E em torno de 112 d.C., o governador romano Plinio, o Jovem, relata ao imperador Trajano que os cristaos se reuniam para cantar hinos "a Cristo como a um deus". Tanto um cristao quanto um observador pagao, mais de duzentos anos antes de Niceia, ja descrevem a mesma adoracao.

7 Afirmavam, no entanto, que toda a sua culpa ou erro havia se resumido a isto: que costumavam reunir-se em dia determinado antes do amanhecer e cantar entre si, alternadamente, um hino a Cristo como a um deus, e a comprometer-se por juramento não para algum crime, mas a não cometer furtos, roubos nem adultérios, a não faltar à palavra dada e a não negar um depósito quando reclamado. Feito isso, tinham por costume separar-se e tornar a reunir-se para tomar uma refeição, mas comum e inofensiva; e até isso haviam deixado de fazer depois do meu édito pelo qual, segundo as suas ordens, eu proibira as associações.

FonteData aproximadaO que atesta
Evangelho de JoaoFim do seculo 1O Verbo e Deus, agente da criacao
Inacio de Antioquiac. 107 d.C.Chama Cristo de "nosso Deus"
Plinio, o Jovemc. 112 d.C.Cristaos cantam a Cristo "como a um deus"
Concilio de Niceia325 d.C.Define a relacao com o Pai (homoousios)

O que Niceia de fato fez

Niceia nao criou a divindade de Jesus: ela definiu a relacao entre o Filho divino e o Pai. A pergunta do concilio nao era "Jesus e divino?", e sim "em que sentido o Filho e Deus, igual ao Pai ou subordinado a ele como criatura?". O proprio Ario, condenado em Niceia, ja tinha Jesus como um ser celestial pre-existente; a disputa era sobre o grau e a natureza dessa divindade, com o termo homoousios fechando a resposta.

O caso biblico e teologico a favor da divindade de Cristo, e como ele se articula na doutrina da Trindade, e desenvolvido no tema Trindade (/temas/trindade/). Aqui basta o ponto historico: a crenca que Niceia regulou ja estava la, viva e documentada, muito antes de Constantino nascer.

O debate

Perspectivas sobre este tema

Os mesmos fatos, lidos por duas lentes que discordam. Nenhuma das vozes fala pela posição da página: elas existem para que você veja o argumento mais forte de cada lado.

Crítico HistóricoNiceia regulou uma crenca antiga, nao a inventou; mas o desenvolvimento real da cristologia aconteceu antes de 325, e e ai que esta o debate honesto, nao na sala do concilio.

Aqui a pagina esta certa, e e importante dizer quando ela esta. A tese de que Constantino transformou um mestre humano em Deus por voto em 325 nao sobrevive ao calendario. Inacio de Antioquia chama Cristo de 'nosso Deus' por volta de 107, e Plinio, o Jovem, relata a Trajano cristaos cantando a Cristo 'como a um deus' por volta de 112, mais de dois seculos antes do concilio. O proprio Bart Ehrman, a referencia mais citada do lado critico, abre seu livro insistindo que a divindade de Jesus ja era alta muito antes de Niceia. Quando o cetico popular cita Ehrman para dizer que Niceia inventou a divindade, ele cita um autor que afirma o oposto. Isso e um caso em que a evidencia e inconvenientemente clara para um dos lados, e nao e o lado da pagina.

Dito isso, a pagina ganha o argumento facil e silencia o dificil. A pergunta interessante nunca foi '325 inventou?', e sim 'em que ponto, entre a crucificacao e Joao, e desde que sentido, Jesus passou a ser Deus?'. Ehrman argumenta que a cristologia se desenvolveu, de uma cristologia de exaltacao (Deus elevou Jesus apos a ressurreicao, ecoando linguagem de martirio judaico como em 2Mc 7:9, onde o justo e ressuscitado) para uma cristologia de encarnacao (o Verbo pre-existente que se fez carne, Jo 1:14). Note que as proprias fontes da pagina marcam esse gradiente: Fp 2:6, hino que muitos datam dos anos 50, fala em 'forma de Deus' mas tambem em ser 'exaltado' depois, enquanto Jo 1:1, do fim do seculo 1, ja comeca com o Verbo eterno. Sao enfases diferentes em decadas diferentes, e ler tudo como uma doutrina pronta desde o domingo de Pascoa e justamente o que a critica historica questiona.

Sobre o concilio em si, concordo com a leitura da pagina e acrescento o detalhe que a torna honesta: nem Ario negava que Cristo fosse um ser celestial pre-existente. A briga era sobre grau, criatura sublime ou Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, e homoousios fechou essa porta especifica. Mas reconhecer isso corta para os dois lados. Se Niceia precisou de um termo grego nao biblico para travar a questao, e porque o Novo Testamento nao a resolvia sozinho de modo inequivoco, do contrario nao haveria Ario, nem dois milhares de bispos discordando por meses. A conclusao para a inerrancia e dupla: a acusacao de invencao imperial e historicamente falsa, e a pagina merece esse credito; mas a divindade definida em Niceia foi tambem construida, no sentido tecnico de articulada, debatida e formulada por comunidades humanas ao longo de tres seculos. 'A crenca ja estava la' e verdade. 'Ela estava la pronta, identica e ditada' nao e o que os textos, lidos em ordem cronologica, mostram.

Apologista EvidencialNiceia regulou uma divindade ja adorada, nao a inventou: o atrito real e sobre quando a cristologia mais alta surgiu, e a resposta empurra a data para tao cedo que ela compete com os documentos mais antigos que temos.

O artigo acerta o alvo facil, mas vale ser preciso sobre quem e o adversario serio aqui. Bart Ehrman, a referencia academica mais citada da tese do desenvolvimento, nao defende que Niceia inventou a divindade de Jesus. Pelo contrario: em How Jesus Became God ele concede que a cristologia de encarnacao e notavelmente cedo, ja pressuposta por Paulo, e que o hino de Fp 2:6 e um poema pre-paulino que circulava antes mesmo da carta, anos 50 do seculo 1. Ou seja, a forma forte do mito popular (votacao apertada empurrada por Constantino em 325) ja esta morta no proprio campo critico. O que sobra do lado cetico nao e cronologia tardia, e uma questao de grau: quando os textos dizem que Cristo estava em forma de Deus ou era o agente da criacao em Cl 1:15-17, eles afirmam a mesma divindade que Niceia definiu, ou uma figura celestial exaltada, um ser angelico sublime que ainda nao e identico ao Pai?

E honesto reconhecer que essa pergunta tem peso, e que a propria linguagem de Niceia mostra por que ela existe. Ario, condenado em 325, nao negava que o Filho fosse pre-existente e celestial; ele afirmava um Filho elevadissimo, mas criatura. O debate ser possivel prova que os textos anteriores, sozinhos, nao fechavam a questao com a precisao tecnica que homoousios trouxe. Ehrman le Fp 2 como exaltacao de um ser divino subordinado justamente porque e o Pai que exalta o Filho, e essa leitura nao e absurda a partir so do verso. Aqui a apologia honesta nao deve fingir que Jo 1:1 e Fp 2:6 sao formulas conciliares disfarcadas. Elas nao usam o vocabulario de substancia do seculo 4 porque ninguem o usava ainda. O ponto da pagina continua valido (a adoracao a Cristo como Deus em Inacio por volta de 107 e no relato pagao de Plinio por volta de 112 e fato duro e anterior), mas a precisao metafisica e posterior, e admitir isso e mais forte do que negar.

O que inclina a balanca contra a leitura minimalista de Ehrman e que a divindade alta nao aparece como conclusao tardia de um processo, ela aparece ja embutida no estrato mais antigo que conseguimos alcancar. O Carmen Christi de Fp 2 e anterior a propria carta, e Cl 1:16 coloca Cristo como aquele por quem tudo foi criado, funcao que o judaismo do Segundo Templo reservava exclusivamente a YHWH. Larry Hurtado e Richard Bauckham documentam que a adoracao devocional a Jesus, dentro de um monoteismo judaico que jamais cultuava anjos, e a anomalia mais precoce do movimento, nao seu produto final. Isso nao prova a definicao de Niceia por si so. O que prova e que a trajetoria nao vai de mestre humano a divindade por decreto, mas de uma adoracao surpreendentemente alta e disputada para uma definicao tecnica que a delimitou. O que fica em aberto e legitimo: o intervalo entre o que os apostolos adoravam e o que os bispos definiram em substancia e real, e a fe nao apaga esse intervalo. Mas ele e um intervalo de vocabulario e precisao, nao de invencao, e quem afirma o contrario esta brigando com a cronologia que o proprio Ehrman aceita.