Os mesmos fatos, lidos por duas lentes que discordam. Nenhuma das vozes fala pela posição da página: elas existem para que você veja o argumento mais forte de cada lado.
Niceia regulou uma crenca antiga, nao a inventou; mas o desenvolvimento real da cristologia aconteceu antes de 325, e e ai que esta o debate honesto, nao na sala do concilio.
Aqui a pagina esta certa, e e importante dizer quando ela esta. A tese de que Constantino transformou um mestre humano em Deus por voto em 325 nao sobrevive ao calendario. Inacio de Antioquia chama Cristo de 'nosso Deus' por volta de 107, e Plinio, o Jovem, relata a Trajano cristaos cantando a Cristo 'como a um deus' por volta de 112, mais de dois seculos antes do concilio. O proprio Bart Ehrman, a referencia mais citada do lado critico, abre seu livro insistindo que a divindade de Jesus ja era alta muito antes de Niceia. Quando o cetico popular cita Ehrman para dizer que Niceia inventou a divindade, ele cita um autor que afirma o oposto. Isso e um caso em que a evidencia e inconvenientemente clara para um dos lados, e nao e o lado da pagina.
Dito isso, a pagina ganha o argumento facil e silencia o dificil. A pergunta interessante nunca foi '325 inventou?', e sim 'em que ponto, entre a crucificacao e Joao, e desde que sentido, Jesus passou a ser Deus?'. Ehrman argumenta que a cristologia se desenvolveu, de uma cristologia de exaltacao (Deus elevou Jesus apos a ressurreicao, ecoando linguagem de martirio judaico como em 2Mc 7:9, onde o justo e ressuscitado) para uma cristologia de encarnacao (o Verbo pre-existente que se fez carne, Jo 1:14). Note que as proprias fontes da pagina marcam esse gradiente: Fp 2:6, hino que muitos datam dos anos 50, fala em 'forma de Deus' mas tambem em ser 'exaltado' depois, enquanto Jo 1:1, do fim do seculo 1, ja comeca com o Verbo eterno. Sao enfases diferentes em decadas diferentes, e ler tudo como uma doutrina pronta desde o domingo de Pascoa e justamente o que a critica historica questiona.
Sobre o concilio em si, concordo com a leitura da pagina e acrescento o detalhe que a torna honesta: nem Ario negava que Cristo fosse um ser celestial pre-existente. A briga era sobre grau, criatura sublime ou Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, e homoousios fechou essa porta especifica. Mas reconhecer isso corta para os dois lados. Se Niceia precisou de um termo grego nao biblico para travar a questao, e porque o Novo Testamento nao a resolvia sozinho de modo inequivoco, do contrario nao haveria Ario, nem dois milhares de bispos discordando por meses. A conclusao para a inerrancia e dupla: a acusacao de invencao imperial e historicamente falsa, e a pagina merece esse credito; mas a divindade definida em Niceia foi tambem construida, no sentido tecnico de articulada, debatida e formulada por comunidades humanas ao longo de tres seculos. 'A crenca ja estava la' e verdade. 'Ela estava la pronta, identica e ditada' nao e o que os textos, lidos em ordem cronologica, mostram.
Niceia regulou uma divindade ja adorada, nao a inventou: o atrito real e sobre quando a cristologia mais alta surgiu, e a resposta empurra a data para tao cedo que ela compete com os documentos mais antigos que temos.
O artigo acerta o alvo facil, mas vale ser preciso sobre quem e o adversario serio aqui. Bart Ehrman, a referencia academica mais citada da tese do desenvolvimento, nao defende que Niceia inventou a divindade de Jesus. Pelo contrario: em How Jesus Became God ele concede que a cristologia de encarnacao e notavelmente cedo, ja pressuposta por Paulo, e que o hino de Fp 2:6 e um poema pre-paulino que circulava antes mesmo da carta, anos 50 do seculo 1. Ou seja, a forma forte do mito popular (votacao apertada empurrada por Constantino em 325) ja esta morta no proprio campo critico. O que sobra do lado cetico nao e cronologia tardia, e uma questao de grau: quando os textos dizem que Cristo estava em forma de Deus ou era o agente da criacao em Cl 1:15-17, eles afirmam a mesma divindade que Niceia definiu, ou uma figura celestial exaltada, um ser angelico sublime que ainda nao e identico ao Pai?
E honesto reconhecer que essa pergunta tem peso, e que a propria linguagem de Niceia mostra por que ela existe. Ario, condenado em 325, nao negava que o Filho fosse pre-existente e celestial; ele afirmava um Filho elevadissimo, mas criatura. O debate ser possivel prova que os textos anteriores, sozinhos, nao fechavam a questao com a precisao tecnica que homoousios trouxe. Ehrman le Fp 2 como exaltacao de um ser divino subordinado justamente porque e o Pai que exalta o Filho, e essa leitura nao e absurda a partir so do verso. Aqui a apologia honesta nao deve fingir que Jo 1:1 e Fp 2:6 sao formulas conciliares disfarcadas. Elas nao usam o vocabulario de substancia do seculo 4 porque ninguem o usava ainda. O ponto da pagina continua valido (a adoracao a Cristo como Deus em Inacio por volta de 107 e no relato pagao de Plinio por volta de 112 e fato duro e anterior), mas a precisao metafisica e posterior, e admitir isso e mais forte do que negar.
O que inclina a balanca contra a leitura minimalista de Ehrman e que a divindade alta nao aparece como conclusao tardia de um processo, ela aparece ja embutida no estrato mais antigo que conseguimos alcancar. O Carmen Christi de Fp 2 e anterior a propria carta, e Cl 1:16 coloca Cristo como aquele por quem tudo foi criado, funcao que o judaismo do Segundo Templo reservava exclusivamente a YHWH. Larry Hurtado e Richard Bauckham documentam que a adoracao devocional a Jesus, dentro de um monoteismo judaico que jamais cultuava anjos, e a anomalia mais precoce do movimento, nao seu produto final. Isso nao prova a definicao de Niceia por si so. O que prova e que a trajetoria nao vai de mestre humano a divindade por decreto, mas de uma adoracao surpreendentemente alta e disputada para uma definicao tecnica que a delimitou. O que fica em aberto e legitimo: o intervalo entre o que os apostolos adoravam e o que os bispos definiram em substancia e real, e a fe nao apaga esse intervalo. Mas ele e um intervalo de vocabulario e precisao, nao de invencao, e quem afirma o contrario esta brigando com a cronologia que o proprio Ehrman aceita.