Um nome nos quatro evangelhos
A pergunta "quem enterrou Jesus" tem uma resposta surpreendentemente unânime nos quatro evangelhos: José de Arimateia, descrito como um homem rico, membro do Sinédrio (o conselho que condenara Jesus) e discípulo secreto. Ele pede o corpo a Pilatos, o envolve num lençol de linho e o deposita num túmulo novo, escavado na rocha. O evangelho de João acrescenta a presença de Nicodemos, que traz especiarias para o sepultamento.
| Evangelho | Quem sepulta | Detalhe próprio |
|---|---|---|
| Marcos 15:43-46 | José de Arimateia | Pilatos confirma a morte com o centurião antes de liberar o corpo |
| Mateus 27:57-60 | José de Arimateia | O túmulo é "dele mesmo", novo; a pedra é selada e guardada |
| Lucas 23:50-53 | José de Arimateia | Ressalta que José não consentira na condenação |
| João 19:38-42 | José e Nicodemos | Cerca de 30 quilos de mirra e aloés para o sepultamento |
A figura de José reaparece, ampliada, na literatura apócrifa. O Evangelho de Nicodemos, também chamado Atos de Pilatos, narra que os líderes judeus o prenderam por ter reclamado o corpo, e desenvolve toda uma trama em torno dele.
3 Enquanto isso, seus conhecidos permaneciam a distância; e as mulheres que o haviam acompanhado desde a Galiléia estavam contemplando tudo isto. Mas havia um homem chamado José, senador, vindo de Arimatéia, que esperava o reino de Deus. Aproximou-se, então, de Pilatos e pediu-lhe o corpo de Jesus. Depois foi baixar o cadáver da cruz e envolveu-o num lençol limpo e depositou-o no sepulcro talhado em pedra que ainda não havia sido usado.
Por que historiadores discutem o sepultamento
Alguns historiadores, com destaque para John Dominic Crossan, argumentaram que vítimas de crucificação no mundo romano eram, em regra, deixadas na cruz para os abutres ou lançadas em valas comuns, e que um sepultamento honroso seria improvável. Nessa leitura, José de Arimateia seria uma figura criada para dar a Jesus um túmulo localizável.
A objeção tem contrapeso arqueológico e textual. Em 1968, escavações em Giv’at ha-Mivtar, perto de Jerusalém, encontraram o ossuário de um homem chamado Yehohanan, crucificado no primeiro século, com um prego ainda atravessado no calcanhar: prova concreta de que ao menos um crucificado foi recolhido e sepultado segundo o costume judaico. Estudiosos como Jodi Magness sustentam que o sepultamento por José é coerente com a lei judaica, que exigia enterrar o executado no mesmo dia, e com a sensibilidade de véspera de sábado e Páscoa em Jerusalém. O debate continua, mas o relato não é, por si só, historicamente implausível.
O próprio Flávio Josefo confirma esse costume. Ao narrar os horrores da guerra, ele censura os zelotes por lançarem corpos fora sem sepultura, lembrando que os judeus tinham por norma cuidar tanto do sepultamento que retiravam e enterravam até os condenados e crucificados antes do pôr do sol.
2 Mas a fúria dos idumeus não se saciou com essas matanças. Voltaram-se então para a cidade, saquearam todas as casas e mataram todo aquele que encontravam. Quanto ao restante da multidão, julgaram desnecessário continuar a matá-los. Procuravam os sumos sacerdotes, e a maioria avançou contra eles com o maior empenho. Assim que os capturaram, mataram-nos. Em seguida, postados sobre os corpos, em tom de zombaria, censuravam Anano por sua bondade para com o povo e Jesus pelo discurso que fizera a eles do alto da muralha. Chegaram a tal grau de impiedade que lançaram fora os corpos sem sepultura, embora os judeus tivessem por costume cuidar tanto do sepultamento dos mortos que até descem os condenados e crucificados e os enterram antes do pôr do sol. Não me engano ao dizer que a morte de Anano foi o começo da destruição da cidade, e que a partir daquele mesmo dia se pode datar a queda de sua muralha e a ruína de seus negócios, pois viram seu sumo sacerdote, o defensor de sua salvação, morto no meio da própria cidade. Ele era, sob outros aspectos também, um homem venerável e muito justo. Além da grandeza de sua nobreza, dignidade e honra, era amante de uma espécie de igualdade, mesmo em relação aos mais humildes do povo. Era um amante extraordinário da liberdade, admirador do governo democrático, e sempre preferia o bem público à própria vantagem, e a paz acima de tudo. Pois tinha plena consciência de que os romanos não podiam ser vencidos. Previa também que uma guerra viria por necessidade, e que, se os judeus não acertassem as coisas com eles com muita habilidade, seriam destruídos. Em uma palavra: se Anano tivesse sobrevivido, certamente teriam chegado a um acordo. Pois era um homem astuto no falar e no persuadir o povo, e já havia dominado os que se opunham aos seus planos ou desejavam a guerra. E os judeus teriam então criado inúmeros obstáculos no caminho dos romanos, se tivessem tido um general como ele. Jesus também estava ao seu lado e, embora lhe fosse inferior na comparação, era superior aos demais. Não posso deixar de pensar que foi porque Deus havia condenado esta cidade à destruição, como cidade contaminada, e estava decidido a purificar seu santuário pelo fogo, que removeu esses seus grandes defensores e benfeitores. Aqueles que pouco antes haviam vestido as vestes sagradas, presidido o culto público e sido tidos por veneráveis por todos os que habitam a terra inteira, quando chegaram à nossa cidade, foram lançados nus para fora e vistos servindo de alimento a cães e feras. Não posso deixar de imaginar que a própria virtude gemeu diante da sorte desses homens e lamentou ter sido aqui tão terrivelmente vencida pela maldade. Esse foi, por fim, o fim de Anano e Jesus.