A Guerra dos Judeus - Livro IV 5
Livro IV: os zelotes, Gamala e a ascensão de Vespasiano
Mas a fúria dos idumeus não se saciou com essas matanças. Voltaram-se então para a cidade, saquearam todas as casas e mataram todo aquele que encontravam. Quanto ao restante da multidão, julgaram desnecessário continuar a matá-los. Procuravam os sumos sacerdotes, e a maioria avançou contra eles com o maior empenho. Assim que os capturaram, mataram-nos. Em seguida, postados sobre os corpos, em tom de zombaria, censuravam Anano por sua bondade para com o povo e Jesus pelo discurso que fizera a eles do alto da muralha. Chegaram a tal grau de impiedade que lançaram fora os corpos sem sepultura, embora os judeus tivessem por costume cuidar tanto do sepultamento dos mortos que até descem os condenados e crucificados e os enterram antes do pôr do sol. Não me engano ao dizer que a morte de Anano foi o começo da destruição da cidade, e que a partir daquele mesmo dia se pode datar a queda de sua muralha e a ruína de seus negócios, pois viram seu sumo sacerdote, o defensor de sua salvação, morto no meio da própria cidade. Ele era, sob outros aspectos também, um homem venerável e muito justo. Além da grandeza de sua nobreza, dignidade e honra, era amante de uma espécie de igualdade, mesmo em relação aos mais humildes do povo. Era um amante extraordinário da liberdade, admirador do governo democrático, e sempre preferia o bem público à própria vantagem, e a paz acima de tudo. Pois tinha plena consciência de que os romanos não podiam ser vencidos. Previa também que uma guerra viria por necessidade, e que, se os judeus não acertassem as coisas com eles com muita habilidade, seriam destruídos. Em uma palavra: se Anano tivesse sobrevivido, certamente teriam chegado a um acordo. Pois era um homem astuto no falar e no persuadir o povo, e já havia dominado os que se opunham aos seus planos ou desejavam a guerra. E os judeus teriam então criado inúmeros obstáculos no caminho dos romanos, se tivessem tido um general como ele. Jesus também estava ao seu lado e, embora lhe fosse inferior na comparação, era superior aos demais. Não posso deixar de pensar que foi porque Deus havia condenado esta cidade à destruição, como cidade contaminada, e estava decidido a purificar seu santuário pelo fogo, que removeu esses seus grandes defensores e benfeitores. Aqueles que pouco antes haviam vestido as vestes sagradas, presidido o culto público e sido tidos por veneráveis por todos os que habitam a terra inteira, quando chegaram à nossa cidade, foram lançados nus para fora e vistos servindo de alimento a cães e feras. Não posso deixar de imaginar que a própria virtude gemeu diante da sorte desses homens e lamentou ter sido aqui tão terrivelmente vencida pela maldade. Esse foi, por fim, o fim de Anano e Jesus.