O que a Fé Ganha (e Recusa) em O Banquete de Platão

O que a fé reconhece no diálogo

Há intuições no Banquete que um cristão lê com surpresa, porque soam familiares. A primeira é a de Diotima: o amor é falta, é desejo do que ainda não se tem, e nos puxa para cima. A tradição cristã conhece bem esse "coração inquieto" que só descansa no eterno. Diotima já dizia que o amor é desejo de possuir o bem para sempre.

69 Então podemos dizer, simplesmente, que os homens amam o bem? Sim. E não devemos acrescentar que amam também que o bem seja seu? Devemos. E não que seja seu, mas que seja seu para sempre? Isso também. Então, resumindo, o amor é o desejo de possuir o bem para sempre. Verdadeiríssimo, eu disse.

A segunda intuição é a de Fedro, lá no primeiro discurso: o amor verdadeiro chega a morrer pelo amado. Um cristão não pode ler isso sem pensar no centro da própria fé, ainda que o sentido seja muito mais alto: o amor que dá a vida pelo outro.

16 Além disso, os que amam estão dispostos a morrer no lugar de outra pessoa. E não apenas os homens, mas também as mulheres.

Onde o amor de Platão ainda não é o amor cristão

Mas as diferenças são profundas, e ignorá-las seria desonesto. O amor de Diotima sobe do corpo concreto para a ideia abstrata, e no topo deixa a pessoa amada para trás: o que importa, no fim, é a Beleza em si, não este ou aquele rosto. O amor cristão faz o contrário: desce de Deus para o próximo concreto, e manda amar exatamente o rosto que está diante de você.

PontoO Banquete (Diotima)O amor cristão
DireçãoA alma sobe ao eternoDeus desce ao homem, e o homem ao próximo
No topoDeixa a pessoa para trás, ama o BeloAma a pessoa concreta, até o inimigo
Quem começaO homem que sente faltaDeus, que ama antes de ser amado
O Belo/DeusPrincípio impessoal e eternoPessoa que cria, fala e se entrega

Há ainda um ponto que o leitor moderno não pode passar batido: boa parte dos discursos pressupõe a pederastia, a relação entre um homem adulto e um rapaz, comum na Atenas da época e hoje reconhecida como abuso. Pausânias chega a discutir as regras sociais dessa prática. Ler O Banquete como cristão exige enxergar esse pano de fundo com clareza, sem romantizá-lo: o diálogo eleva o desejo, mas parte de um mundo cujos costumes a fé condena.

17 A lei sobre o amor é simples e fácil de entender na maioria das cidades, mas aqui em Atenas e em Esparta ela é confusa. Em Élis e na Beócia, e onde as pessoas não têm jeito para falar, ficou estabelecido sem rodeios que ceder a um amante é belo, e ninguém, jovem ou velho, diria que é vergonhoso. Assim, eu suponho, eles se poupam do trabalho de convencer os jovens com discursos, que não sabem falar bem.

Como ler, então

A postura cristã diante de um gênio pagão tem raiz na própria Bíblia. Em Atenas, a cidade de Platão e Sócrates, o apóstolo Paulo não xinga os filósofos: cita os poetas gregos deles para apontar o caminho ao Deus vivo. Colher a verdade onde ela aparece, sem se entregar ao erro que vem junto, é o modelo.

22 E, estando Paulo no meio do Areópago, disse: Homens atenienses, em tudo vos vejo um tanto supersticiosos;

23 Porque, passando eu e vendo os vossos santuários, achei também um altar em que estava escrito: AO DEUS DESCONHECIDO. Esse, pois, que vós honrais, não o conhecendo, é o que eu vos anuncio.

24 O Deus que fez o mundo e tudo que nele há, sendo Senhor do céu e da terra, não habita em templos feitos por mãos de homens;

25 Nem tampouco é servido por mãos de homens, como que necessitando de alguma coisa; pois ele mesmo é quem a todos a vida, e a respiração, e todas as coisas;

26 E de um sangue fez toda a geração dos homens, para habitar sobre toda a face da terra, determinando os tempos dantes ordenados, e os limites da sua habitação;

27 Para que buscassem ao Senhor, se porventura, tateando, o pudessem achar; ainda que não está longe de cada um de nós;

28 Porque nele vivemos, e nos movemos, e existimos; como também alguns dos vossos poetas disseram: Pois somos também sua geração.

O mesmo Paulo avisa, porém, que existe filosofia que escraviza em vez de libertar, e que não se deve trocar Cristo por ela. As duas coisas andam juntas: aproveitar a inteligência de Platão como serva, e não fazer dela a senhora da fé.

8 Tende cuidado, para que ninguém vos faça presa sua, por meio de filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo, e não segundo Cristo;

Lido assim, com discernimento, O Banquete deixa de ser uma ameaça ou um ídolo e vira o que sempre foi de melhor: a mais bela tentativa pagã de entender por que o coração humano deseja, sobe e não se contenta com pouco. E esse desejo, o cristão sabe a quem ele leva.

1 Assim como o cervo brama pelas correntes das águas, assim suspira a minha alma por ti, ó Deus!

2 A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo; quando entrarei e me apresentarei ante a face de Deus?