A Submissão da Mulher ao Marido

O texto mais citado

A passagem mais usada nesse debate é Efésios 5, que manda as mulheres serem submissas a seus maridos como ao Senhor, e chama o marido de "cabeça" da mulher. O texto é, ao mesmo tempo, o que ordena ao marido amar a esposa como Cristo amou a Igreja, entregando-se por ela.

Um detalhe estrutural pesa na leitura: o versículo imediatamente anterior, que abre todo o trecho, ordena que os cristãos sejam "sujeitos uns aos outros no temor de Deus". Para muitos intérpretes, essa submissão mútua é o cabeçalho que governa tudo o que vem depois, inclusive a submissão da mulher.

O "vaso mais frágil" e o véu

1 Pedro 3 repete a instrução de submissão e chama a mulher de "vaso mais frágil", expressão que se discute se aponta para fragilidade física, para vulnerabilidade social na época, ou para uma inferioridade de estatuto. O mesmo capítulo, no entanto, manda o marido honrar a esposa como co-herdeira da graça da vida.

Em 1 Coríntios 11, Paulo monta uma cadeia de "cabeças" (Deus, Cristo, o homem, a mulher) e a usa para tratar do véu na oração, mencionando ainda os anjos como motivo. O sentido da palavra grega traduzida por "cabeça" (kephalē) é disputado: pode indicar autoridade ou origem/fonte, e a escolha muda a força do argumento.

3 Mas quero que saibais que Cristo é a cabeça de todo o homem, e o homem a cabeça da mulher; e Deus a cabeça de Cristo.

4 Todo o homem que ora ou profetiza, tendo a cabeça coberta, desonra a sua própria cabeça.

5 Mas toda a mulher que ora ou profetiza com a cabeça descoberta, desonra a sua própria cabeça, porque é como se estivesse rapada.

6 Portanto, se a mulher não se cobre com véu, tosquie-se também. Mas, se para a mulher é coisa indecente tosquiar-se ou rapar-se, que ponha o véu.

7 O homem, pois, não deve cobrir a cabeça, porque é a imagem e glória de Deus, mas a mulher é a glória do homem.

8 Porque o homem não provém da mulher, mas a mulher do homem.

9 Porque também o homem não foi criado por causa da mulher, mas a mulher por causa do homem.

10 Portanto, a mulher deve ter sobre a cabeça sinal de poderio, por causa dos anjos.

Hierarquia ou código domiciliar?

A discussão de fundo é se esses textos estabelecem uma hierarquia divina e permanente entre marido e mulher, ou se reproduzem o chamado código domiciliar (a Haustafel), uma forma greco-romana padrão de organizar a casa, aqui recebida e remodelada pelo cristianismo a partir da submissão mútua e do amor sacrificial exigido do marido.

Perspectivas sobre este tema

Os mesmos fatos, lidos por duas lentes que discordam. Nenhuma das vozes fala pela posição da página: elas existem para que você veja o argumento mais forte de cada lado.

Crítico Histórico

Esses textos sao codigos domesticos greco-romanos cristianizados, nao uma ordem hierarquica eterna ditada por Deus: a propria forma literaria, datavel e paralela a Aristoteles e aos estoicos, traz a digital da cultura que a produziu.

A pagina ja toca no ponto decisivo quando nomeia a Haustafel, o codigo domestico. Vale tornar explicito de onde essa forma vem. O esquema de tres pares (marido e mulher, pai e filho, senhor e escravo) nao e uma invencao crista: ele aparece, com a mesma estrutura, na Politica de Aristoteles e na etica estoica sobre administracao da casa (oikonomia), e e retomado por autores judeus de lingua grega como Filo e Josefo, contemporaneos do Novo Testamento. Quando Efesios 5, Colossenses 3:18-4:1 e 1 Pedro 2:13-3:7 organizam a familia exatamente nesses tres pares e nessa ordem, eles nao estao baixando uma estrutura do ceu: estao usando um genero literario que qualquer leitor do primeiro seculo reconheceria como o jeito padrao greco-romano de falar sobre a casa. Isso e dado de critica literaria, nao especulacao.

O que a pagina honestamente registra, e que merece reconhecimento, e que esses textos nao sao copias mortas do modelo pagao. A diferenca esta justamente onde os autores acrescentam algo que o codigo aristotelico nao tinha: deveres do lado forte. O codigo classico cobrava obediencia do subordinado para manter a ordem; o texto cristao manda o marido amar a esposa como Cristo amou a Igreja, entregando-se por ela (Ef 5:25), e manda o marido honrar a esposa como co-herdeira da graca da vida (1Pe 3:7). Esse e o atrito interno que voce nao pode varrer para debaixo do tapete: o mesmo capitulo que chama a mulher de vaso mais fragil tambem a chama de co-herdeira. Uma leitura que so cita a submissao e ignora a co-heranca esta editando o texto. E o cabecalho de Ef 5:21, sujeitos uns aos outros, nao e um detalhe decorativo: gramaticalmente o verbo submeter-se de Ef 5:22 depende dele, ou seja, a submissao da mulher e apresentada como caso particular de uma submissao mutua mais ampla.

Onde a afirmacao de hierarquia divina e permanente realmente fraqueja e na pretensao de que esses versiculos transmitem uma ordem atemporal sem digitais humanas. Tres pontos da propria pagina mostram o contrario. Primeiro, o vaso mais fragil e expressao cuja referencia (forca fisica, vulnerabilidade social, estatuto) e disputada justamente porque reflete categorias sociais antigas, nao uma definicao revelada da mulher. Segundo, kephale (cabeca) em 1Co 11:3 pode significar autoridade ou origem/fonte, e o argumento inteiro de Paulo ali sustenta o uso do veu por causa dos anjos (1Co 11:10), um raciocinio tao amarrado ao contexto que quase ninguem que invoca a hierarquia hoje obriga as mulheres a cobrir a cabeca. Terceiro, o mesmo Paulo escreve em Gl 3:28 que nao ha homem nem mulher, pois todos sao um em Cristo. Selecionar Ef 5:22 como mandamento perene e tratar 1Co 11 e Gl 3:28 como contextuais e uma escolha do interprete, nao uma instrucao do texto. A submissao mutua nao prova que nao houve hierarquia; mas o peso probatorio recai sobre quem afirma que Deus ditou uma ordem eterna usando precisamente a forma literaria que a Grecia ja usava para administrar a casa.

Apologista Evidencial

Os codigos domesticos do Novo Testamento reescrevem uma forma greco-romana conhecida, mas a reescrita crista nao apaga a estrutura: a submissao mutua de Ef 5:21 e o teto, nao a abolicao da assimetria.

A pagina esta certa em chamar Ef 5, Cl 3 e 1Pe 2 a 3 de codigos domiciliares (Haustafel), e isso nao e concessao apologetica, e leitura honesta da forma. Aristoteles, na Politica, ja organizava a casa em tres pares (marido e mulher, pai e filho, senhor e escravo), e Filon e Josefo reproduzem o esquema. Quem nega que Paulo herda essa forma esta ignorando o dossie comparativo. Mas o dado decisivo nao e a forma, e a alteracao dentro dela. No modelo grego o discurso e unilateral: o chefe da casa recebe instrucao sobre como governar. Em Ef 5:21 a frase de abertura, 'sujeitos uns aos outros', e exatamente o que Aristoteles nunca diria, e a ordem ao marido de amar 'como Cristo amou a Igreja, entregando-se por ela' impoe ao lado supostamente dominante o papel do crucificado. A pagina ja marca esse cabecalho. O que ele significa e que a submissao da esposa esta encaixada num movimento que tambem reconfigura o marido, nao que ela some.

Sobre o kephale de 1Co 11:3, a pagina acerta ao dizer que o sentido e disputado: a palavra pode significar autoridade ou origem/fonte, e essa disputa tem mais de setenta anos de literatura tecnica. E justo registrar que 'lider' nao era o sentido grego mais comum de kephale antes do primeiro seculo, e que a Septuaginta, ao traduzir o hebraico rosh no sentido de chefe, frequentemente preferia archon e nao kephale. Isso enfraquece a leitura que transforma 'cabeca' em 'comandante' de forma automatica. Mas tambem nao entrega o texto a quem quer dissolver toda assimetria: se kephale for 'fonte', a cadeia Deus, Cristo, homem, mulher continua sendo uma cadeia ordenada, e a propria mencao a Cristo como tendo a Deus por cabeca mostra que a relacao pode ser de ordem sem ser de inferioridade de natureza, ja que o Filho nao e inferior ao Pai. Quem usa kephale='fonte' para apagar qualquer estrutura precisa explicar por que a estrutura permanece mesmo na leitura dele.

O 'vaso mais fragil' de 1Pe 3:7 e o ponto onde a honestidade exige cautela dos dois lados. O termo grego (skeuos, asthenesteros) admite fragilidade fisica ou vulnerabilidade social, e a propria pagina lista as opcoes sem fechar. O que o verso faz com a expressao, no entanto, e o oposto de rebaixar: ele ordena ao marido honrar a esposa como 'co-herdeira da graca da vida', sob pena de ter as proprias oracoes bloqueadas. Uma leitura que extrai dali inferioridade de estatuto tem de ignorar a co-heranca, e uma leitura que extrai igualdade lisa tem de ignorar que a instrucao ainda distribui papeis distintos. Fica em aberto, e e honesto dizer, se a assimetria desses textos e uma ordenacao permanente da criacao (a linha que apela a Gn 2 e ao silencio de 1Tm 2) ou um arranjo missionario para casas dentro de uma sociedade patriarcal, lido a luz de Gl 3:28 ('nem homem nem mulher'). A evidencia textual sustenta que a forma e greco-romana e que o cristianismo a reescreveu para dentro do amor sacrificial; ela nao sustenta, sozinha, nem a hierarquia eterna do complementarismo duro nem o igualitarismo que finge que a assimetria nunca esteve la.