Poligamia, Concubinas e as Leis da Torá

A poligamia dos personagens

A Bíblia não esconde que vários de seus protagonistas tiveram mais de uma mulher. A primeira menção a um homem com duas esposas é Lameque, ainda em Gênesis. Gideão, um dos juízes, teve muitas mulheres e setenta filhos. Davi acumulou esposas e concubinas. E Salomão, descrito como o mais sábio dos reis, chegou a setecentas esposas e trezentas concubinas, segundo o texto.

23 E disse Lameque a suas mulheres Ada e Zilá: Ouvi a minha voz; vós, mulheres de Lameque, escutai as minhas palavras; porque eu matei um homem por me ferir, e um jovem por me pisar.

30 E teve Gideão setenta filhos, que procederam dele, porque tinha muitas mulheres.

3 E tinha setecentas mulheres, princesas, e trezentas concubinas; e suas mulheres lhe perverteram o coração.

A Lei regula, não proíbe

O ponto mais discutido não está nos personagens, mas na própria legislação. A Torá, em vez de proibir a poligamia, parte do pressuposto de que ela existe e a regulamenta. Há lei sobre o homem com duas esposas e a herança do primogênito, garantindo que o filho da esposa preterida não seja prejudicado. Há lei sobre a filha vendida como serva, que entra na casa de outro homem em condição que mistura servidão e casamento. E há regra que obriga o homem a se casar com a mulher que violou.

28 Quando um homem achar uma moça virgem, que não for desposada, e pegar nela, e se deitar com ela, e forem apanhados,

29 Então o homem que se deitou com ela dará ao pai da moça cinqüenta siclos de prata; e porquanto a humilhou, lhe será por mulher; não a poderá despedir em todos os seus dias.

A água amarga

Um caso à parte é o ritual da água amarga, em Números 5, prescrito para a mulher de quem o marido suspeita adultério. Trata-se de um ordálio: a mulher é levada ao sacerdote, bebe uma água preparada com pó do chão do tabernáculo e tinta da maldição, e o resultado no corpo dela determinaria sua culpa ou inocência. Não há rito correspondente para o homem suspeito, o que faz da passagem um foco do debate sobre tratamento desigual.

11 Falou mais o Senhor a Moisés, dizendo:

12 Fala aos filhos de Israel, e dize-lhes: Quando a mulher de alguém se desviar, e transgredir contra ele,

13 De maneira que algum homem se tenha deitado com ela, e for oculto aos olhos de seu marido, e ela o tiver ocultado, havendo-se ela contaminado, e contra ela não houver testemunha, e no feito não for apanhada,

14 E o espírito de ciúmes vier sobre ele, e de sua mulher tiver ciúmes, por ela se haver contaminado, ou sobre ele vier o espírito de ciúmes, e de sua mulher tiver ciúmes, não se havendo ela contaminado,

15 Então aquele homem trará a sua mulher perante o sacerdote, e juntamente trará a sua oferta por ela; uma décima de efa de farinha de cevada, sobre a qual não deitará azeite, nem sobre ela porá incenso, porquanto é oferta de alimentos por ciúmes, oferta memorativa, que traz a iniqüidade em memória.

16 E o sacerdote a fará chegar, e a porá perante a face do Senhor.

17 E o sacerdote tomará água santa num vaso de barro; também tomará o sacerdote do que houver no chão do tabernáculo, e o deitará na água.

18 Então o sacerdote apresentará a mulher perante o Senhor, e descobrirá a cabeça da mulher; e a oferta memorativa, que é a oferta por ciúmes, porá sobre as suas mãos, e a água amarga, que traz consigo a maldição, estará na mão do sacerdote.

19 E o sacerdote a fará jurar, e dirá àquela mulher: Se ninguém contigo se deitou, e se não te apartaste de teu marido pela imundícia, destas águas amargas, amaldiçoantes, serás livre.

20 Mas, se te apartaste de teu marido, e te contaminaste, e algum homem, fora de teu marido, se deitou contigo,

21 Então o sacerdote fará jurar à mulher com o juramento da maldição; e o sacerdote dirá à mulher: O Senhor te ponha por maldição e por praga no meio do teu povo, fazendo-te o Senhor consumir a tua coxa e inchar o teu ventre.

22 E esta água amaldiçoante entre nas tuas entranhas, para te fazer inchar o ventre, e te fazer consumir a coxa. Então a mulher dirá: Amém, Amém.

23 Depois o sacerdote escreverá estas mesmas maldições num livro, e com a água amarga as apagará.

24 E a água amarga, amaldiçoante, dará a beber à mulher, e a água amaldiçoante entrará nela para amargurar.

25 E o sacerdote tomará a oferta por ciúmes da mão da mulher, e moverá a oferta perante o Senhor; e a oferecerá sobre o altar.

26 Também o sacerdote tomará um punhado da oferta memorativa, e sobre o altar a queimará; e depois dará a beber a água à mulher.

27 E, havendo-lhe dado a beber aquela água, será que, se ela se tiver contaminado, e contra seu marido tiver transgredido, a água amaldiçoante entrará nela para amargura, e o seu ventre se inchará, e consumirá a sua coxa; e aquela mulher será por maldição no meio do seu povo.

28 E, se a mulher se não tiver contaminado, mas estiver limpa, então será livre, e conceberá filhos.

29 Esta é a lei dos ciúmes, quando a mulher, em poder de seu marido, se desviar e for contaminada;

30 Ou quando sobre o homem vier o espírito de ciúmes, e tiver ciúmes de sua mulher, apresente a mulher perante o Senhor, e o sacerdote nela execute toda esta lei.

31 E o homem será livre da iniqüidade, porém a mulher levará a sua iniqüidade.

Tolerância ou caminho?

A pergunta central é se essas leis mostram um Deus que tolera a poligamia e trata a mulher como propriedade negociável, ou se a função da Lei é limitar e civilizar um costume já enraizado no Antigo Oriente Próximo, conduzindo na direção do ideal monogâmico que aparece na criação de Gênesis 2 e que Jesus retomaria ao falar do casamento.

4 Ele, porém, respondendo, disse-lhes: Não tendes lido que aquele que os fez no princípio macho e fêmea os fez,

5 E disse: Portanto, deixará o homem pai e mãe, e se unirá a sua mulher, e serão dois numa carne?

6 Assim não são mais dois, mas uma carne. Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem.

Perspectivas sobre este tema

Os mesmos fatos, lidos por duas lentes que discordam. Nenhuma das vozes fala pela posição da página: elas existem para que você veja o argumento mais forte de cada lado.

Crítico Histórico

A Lei da Torá não inventou a poligamia nem a igualdade: ela copiou e ajustou um direito de família já corrente no Antigo Oriente Próximo, e a melhora real que introduz é a marca de uma autoria humana situada no seu tempo, não de um decreto atemporal.

A página é honesta ao dizer que a Torá regula em vez de proibir, e é exatamente nesse ponto que a crítica histórica tem mais a contribuir. A lei da filha vendida em Êxodo 21:7-11 e a regra da herança do primogênito da esposa preterida em Deuteronômio 21:15-17 não surgem do nada: elas têm paralelos diretos no Código de Hammurabi, que já legislava sobre escravas-esposas e debt-slavery séculos antes, e nos contratos de casamento de Nuzi, onde dar uma serva como parte do dote da noiva era cláusula comum. O ritual da água amarga de Números 5 é o caso mais transparente: é uma variante domesticada do ordálio fluvial mesopotâmico, em que a suspeita de adultério era lançada ao rio. A grande diferença, e ela é real, é que a água da sotah é em si inofensiva, enquanto o rio matava independentemente da culpa. Isso é evidência de adaptação cultural, não de revelação a partir do zero.

Quem defende a tese do 'caminho rumo ao ideal' tem um ponto que não se deve caricaturar. A própria página o registra: a Lei impõe limites onde o costume não impunha nenhum. O homem que tomou a filha vendida não pode simplesmente descartá-la sem comida, roupa e direito conjugal, sob pena de ela sair livre, e o filho da esposa menos amada fica protegido na herança. Isso é, sim, regulação que melhora a situação da mulher em relação ao direito vizinho. Mas reconhecer isso não fecha a questão a favor da inerrância, abre-a. Um texto que civiliza um costume injusto pela metade é precisamente o que se espera de legisladores humanos negociando com a sua sociedade, não de um Deus que em Gálatas 3:28 já saberia que 'não há homem nem mulher'. A passagem do violador obrigado a casar com a vítima em Deuteronômio 22:28-29 mostra o limite desse progresso: a solução pensa na honra e no patrimônio da família, não na pessoa violada.

O salto de Gênesis 2 para Mateus 19:4-6, com 'os dois serão uma só carne', é teologicamente elegante, mas a crítica literária o lê de outro modo. O ideal monogâmico de Gênesis 2 pertence à fonte sacerdotal e javista que molda os relatos de criação, e Davi com suas muitas esposas, Salomão com setecentas, e o próprio narrador que conta tudo isso sem condenar diretamente convivem no mesmo cânone sem que o suposto ideal jamais corrija a prática real dos heróis. Quando Jesus retoma Gênesis em Mateus 19, ele não está revelando o que sempre esteve lá: está fazendo o que rabinos do Segundo Templo faziam, escolher um texto contra outro para sustentar uma posição mais estrita. Ou seja, a Bíblia contém tanto o ideal quanto a tolerância, e é a comunidade leitora que, em cada época, decide qual deles é a voz de Deus. Isso não destrói o valor moral do documento. Apenas mostra que a trajetória da poligamia ao casamento monogâmico é uma história de homens revisando homens ao longo de mil anos, e não a explicitação progressiva de um decreto fixo ditado do alto.

Apologista Evidencial

A Lei mosaica nao endossa a poligamia: ela regula um costume ja existente, e o proprio modo como o texto narra Davi e Salomao mostra a poligamia como problema, nao como ideal.

E preciso conceder o que a pagina concede, sem alivio retorico. A Torá realmente nao proibe a poligamia: ela legisla em cima dela. Deuteronomio 21:15-17 pressupoe o homem com duas esposas e so cuida da herança do primogenito; Exodo 21:7-11 trata da filha vendida como serva-esposa; Deuteronomio 22:28-29 obriga o violador a casar com a vitima; e Numeros 5:11-31 prescreve um ordalio aplicado a mulher suspeita, sem rito equivalente para o homem. Quem diz que a legislacao trabalha dentro de um sistema patriarcal de poligamia e concubinato esta lendo o texto corretamente. O ponto em disputa nao e se esses dados existem, mas o que se conclui deles.

Aqui a comparacao com o Antigo Oriente Proximo muda a leitura, e nao por apologetica devocional. Os codigos da regiao, com o de Hammurabi a frente, tambem nao proibem poligamia nem concubinato: regulam, no mesmo formato casuistico de 'se um homem... entao'. A diferenca esta nos detalhes. O preco pago numa uniao costumava exceder o preco de um escravo, sinal de que a mulher nao era mercadoria como qualquer outra; e Exodo 21:7-11, longe de simplesmente 'vender a filha', cerca a serva-esposa de direitos que a impedem de ser revendida a estrangeiros, garantem alimento, vestes e direito conjugal, e a libertam de graca se o homem falhar nesses tres pontos. Isso e o oposto de tratar a mulher como propriedade descartavel: e introduzir clausulas de protecao onde o costume nao dava nenhuma. A funcao do texto legal e limitar o dano de uma instituicao que ele encontrou pronta, nao inaugura-la. Kitchen, em sua leitura comparada dos corpora legais do segundo milenio, insiste exatamente nesse ponto: leis casuisticas regulam casos, nao proclamam ideais.

Mas seria desonesto fechar a questao como se a tensao desaparecesse. A agua amarga de Numeros 5 continua sendo um ordalio assimetrico, e nenhuma leitura contextual apaga que so a mulher passa pelo rito; o maximo que o paralelo antigo mostra e que, comparado a outros ordalios da epoca, o de Numeros e curiosamente nao letal e devolve o veredito a uma instancia ritual em vez do linchamento. O que de fato sustenta a leitura de 'caminho, nao endosso' nao e a Lei sozinha, e a narrativa. O texto nunca elogia a poligamia: Lameque, o primeiro biigamo, e um assassino vingativo (Gn 4:23); as muitas mulheres de Salomao sao explicitamente a causa de sua ruina (1Rs 11:3); a casa de Davi colhe estupro e fratricidio de seu harem. E Genesis 2 ja dissera 'os dois serao uma so carne', formula que Jesus retoma em Mateus 19:4-6 nao como novidade, mas como o desenho original que a dureza do coracao havia obscurecido. Fica em aberto, e e legitimo que fique, se essa trajetoria satisfaz quem exige que Deus proibisse a poligamia de imediato. A apologia honesta nao promete que sim; ela mostra que o vetor do texto aponta para a monogamia, e que tratar a regulacao como aprovacao confunde o ponto de partida da Lei com o seu destino.