Da Hierarquia Celeste 4
Antes de mais nada, queremos afirmar em primeiro lugar que foi por bondade que a Divindade criou essa ordem hierarquia, porque Lhe pertence esse Bem totalmente transcendente a chamar todos os seres para entrarem em comunhão com Ela na medida da capacidade de cada um.
É por isso que tudo que existe tem alguma relação com a Divindade, a Causa Universal, porque sem a participação n’Ela que é a essência e o princípio de todo o ser, nada existiria.
É, portanto, a esses seres que recebem de forma inicial e múltipla a participação divina e que revelam ao seu redor de modo original e múltiplo o mistério da Divindade, que é atribuído de forma louvável e sublime o título de seres angélicos — pois eles receberam em primeiro lugar a iluminação e é por intermédio deles que nos são transmitidas essas revelações que ultrapassam a todos nós.
Como ensina a teologia, a Lei nos foi transmitida pelos anjos.
“Para que é então a Lei? Foi acrescentada por causa das transgressões, até que viesse a descendência, a quem tinha sido feita a promessa, e foi promulgada pelos anjos na mão de um mediador”.
Foram os anjos que guiaram os nossos veneráveis antepassados em direção às realidades divinas; tanto nos tempos que precederam a Lei, como no tempo da Lei; tanto na prescrição a eles de regras de conduta desviando-os de uma vida repleta de erros e de pecados, assim como na revelação da interpretação da santa hierarquia e das visões secretas dos mistérios que não são deste mundo; como também ainda na revelação das profecias divinas.
“Vós, que recebestes a Lei por ministério dos anjos e não a guardastes”.
“Este viu claramente numa visão, cerca da hora de Noa, que um anjo de Deus se apresentava diante dele e lhe dizia: Cornélio”.
Se argumentar-se que Deus manifestou-Se sem intermediários a algum santo, que se saiba que nunca ninguém O viu e nem jamais O verá, porque essa verdade provem claramente das Sagradas Escrituras e é a própria substância de Deus naquilo que tem de mais secreto.
“Ninguém jamais viu a Deus; o Unigênito, que está no seio do Pai, Ele mesmo é que O deu a conhecer”.
“…Que é o Único que possui a imortalidade e que habita numa Luz inacessível, O qual não foi nem pode ser visto por nenhum homem, ao qual seja dada honra e império sempiterno. Amém”.
Seguramente, Deus apareceu a certos homens piedosos segundo o modo que convinha a Sua divindade, revelando-Se por visões adaptadas à medida dos visionários.
A santa teologia tem razão ao chamar visão divina ― Teofania ― a essa espécie de aparição, na qual se reflete a semelhança divina segundo o modo que convém à figuração do infigurável, isto é, elevando espiritualmente os visionários para as realidades divinas.
Com efeito, através dessa visão os visionários recebem a plenitude da iluminação divina e uma certa iniciação sagrada em relação aos mistérios de Deus.
Os nossos ilustres antepassados não foram iniciados através dessas visões, senão por intermédio das potências celestes.
Há de se cogitar, que a tradição escriturística afirma que os mandamentos da Lei foram transmitidos diretamente por Deus a Moisés.
Certamente!
Mas se as Sagradas Escrituras assim se exprimem é para que não ignoremos que essas prescrições são a própria imagem da Lei divina e sagrada.
A teologia ensina sabiamente que essas prescrições vieram até nós por intermédio dos anjos, para que a ordem instituída pelo Divino Legislador nos ensine que é por intermédio de seres hierarquicamente superiores que se elevam espiritualmente para o Divino aqueles que Lhe são inferiores.
“Porque, se a palavra anunciada pelos anjos ficou firme, e toda a prevaricação e desobediência recebeu a justa retribuição que merecia…”.
Mesmo ao que concerne ao mistério divino do amor de Jesus pelos homens foram os anjos que em primeiro lugar receberam a iniciação.
E foi por intermédio deles que esse conhecimento desceu até nós.
Foi assim que o divino Gabriel ensinou ao grande sacerdote Zacarias que o filho que iria ter contra toda a sua esperança, mas pela graça de Deus, seria o profeta da obra divino-humana, através do qual Jesus operaria para bem do mundo e para a sua salvação.
Igualmente o arcanjo Gabriel ensinou à Santíssima Virgem Maria que nela se cumpriria o mistério da Encarnação.
Um outro anjo instruiu José sobre a verdade dos acontecimentos e sobre o cumprimento das promessas divinas feitas a Davi.
Foi um anjo que difundiu a boa nova aos pastores, que eram de algum modo homens purificados pela vida tranquila que levavam e afastados das multidões, ao mesmo tempo que os exércitos celestes transmitiam a toda a terra o célebre cântico de glorificação “Glória a Deus nas alturas, paz na terra aos homens a quem Ele ama”.
Por intermédio dos anjos José foi avisado que ele deveria partir para o Egito e assim novamente quando de seu regresso a Judéia.
Não falou também Jesus a nós como um mensageiro quando Ele nos comunicava a vontade do Pai?