Contra as Heresias - Livro V 4

A ressurreicao da carne e o reino

Cristo, o novo Adão, e a derrota do diabo

Portanto, em sua obra de recapitulação, ele resumiu todas as coisas, fazendo guerra contra o nosso inimigo e esmagando aquele que, desde o princípio, nos havia levado cativos em Adão, e pisou a cabeça dele, como podes perceber em Gênesis, onde Deus disse à serpente: "E porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua descendência e a sua descendência; ela ficará à espreita ( observabit ) da tua cabeça, e tu ficarás à espreita do calcanhar dela." Pois desde então foi anunciado que aquele que haveria de nascer de uma mulher, ou seja, da Virgem, à semelhança de Adão, estaria à espreita da cabeça da serpente. Esta é a descendência de quem o apóstolo fala na Epístola aos Gálatas, dizendo que a lei das obras foi estabelecida até que viesse a descendência a quem a promessa fora feita. Esse fato é exposto com luz ainda mais clara na mesma Epístola, onde ele assim fala: "Mas, quando veio a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher." De fato, o inimigo não teria sido vencido de modo justo se não tivesse sido um homem nascido de mulher a derrotá-lo. Pois foi por meio de uma mulher que ele levou vantagem sobre o homem no início, pondo-se como adversário do homem. E por isso o Senhor declara ser ele mesmo o Filho do homem, abrangendo em si aquele homem original do qual a mulher foi formada ( ex quo ea quæ secundum mulierem est plasmatio facta est ), para que, assim como a nossa espécie desceu à morte por meio de um homem vencido, também voltássemos a subir à vida por meio de um homem vitorioso; e assim como por meio de um homem a morte recebeu a palma da vitória contra nós, também de novo por meio de um homem recebêssemos a palma contra a morte. Ora, o Senhor não teria recapitulado em si aquela inimizade antiga e primordial contra a serpente, cumprindo a promessa do Criador ( Demiurgi ) e executando o seu mandamento, se ele tivesse vindo de outro Pai. Mas, sendo ele um e o mesmo que nos formou no princípio e enviou o seu Filho no fim, o Senhor de fato executou o seu mandamento, nascido de mulher, ao mesmo tempo destruindo o nosso adversário e aperfeiçoando o homem segundo a imagem e semelhança de Deus. E por essa razão ele não buscou o meio de confundi-lo em nenhuma outra fonte senão nas palavras da lei, e usou o mandamento do Pai como auxílio para a destruição e a confusão do anjo apóstata. Tendo jejuado quarenta dias, como Moisés e Elias, ele depois teve fome, primeiro para que percebêssemos que ele era um homem real e de verdade, pois é próprio do homem sentir fome ao jejuar; e em segundo lugar, para que o seu adversário tivesse a oportunidade de atacá-lo. Pois, assim como no princípio foi por meio do alimento que o inimigo persuadiu o homem, ainda que este não passasse fome, a transgredir os mandamentos de Deus, assim no fim ele não conseguiu persuadir aquele que tinha fome a tomar o alimento que não procedia de Deus. Pois, ao tentá-lo, disse: "Se tu és o Filho de Deus, manda que estas pedras se tornem pães." Mas o Senhor o repeliu pelo mandamento da lei, dizendo: "Está escrito: nem de pão viverá o homem." Quanto àquelas palavras do seu inimigo, "Se tu és o Filho de Deus", o Senhor não fez comentário algum; mas, reconhecendo assim a sua natureza humana, frustrou o seu adversário e esgotou a força do seu primeiro ataque por meio da palavra do seu Pai. A corrupção do homem, portanto, que ocorreu no paraíso pelo fato de ambos os nossos primeiros pais terem comido, foi desfeita pela abstinência de alimento do Senhor neste mundo. Mas ele, sendo assim vencido pela lei, tentou de novo fazer um ataque, citando ele mesmo um mandamento da lei. Pois, levando-o ao ponto mais alto do templo, disse-lhe: "Se tu és o Filho de Deus, lança-te daqui para baixo. Porque está escrito que Deus dará ordens aos seus anjos a teu respeito, e eles te susterão nas mãos, para que nunca tropeces com o em alguma pedra", ocultando assim uma mentira sob a aparência da Escritura, como fazem todos os hereges. Pois de fato estava escrito que ele deu ordens aos seus anjos a respeito dele; mas "lança-te daqui para baixo" nenhuma Escritura disse a seu respeito: esse tipo de persuasão o diabo produziu de si mesmo. O Senhor, portanto, o refutou com base na lei, quando disse: "Está escrito também: não tentarás o Senhor teu Deus", indicando, pela palavra contida na lei, qual é o dever do homem, isto é, que ele não deve tentar a Deus; e, a respeito de si mesmo, uma vez que apareceu em forma humana, declarando que não tentaria o Senhor seu Deus. O orgulho da razão, portanto, que havia na serpente, foi reduzido a nada pela humildade encontrada no homem Cristo, e agora pela segunda vez o diabo foi vencido pela Escritura, quando foi flagrado aconselhando coisas contrárias ao mandamento de Deus e foi mostrado ser inimigo de Deus pela expressão de seus pensamentos. Então, tendo sido assim claramente derrotado, e em seguida, por assim dizer, concentrando suas forças, dispondo em ordem todo o seu poder disponível para a mentira, em terceiro lugar mostrou-lhe todos os reinos do mundo e a glória deles, dizendo, como relata Lucas: "Eu te darei todos estes, pois a mim me foram entregues, e a quem eu quiser os dou, se, prostrando-te, me adorares." O Senhor então, expondo-o em seu verdadeiro caráter, diz: "Retira-te, Satanás; porque está escrito: adorarás o Senhor teu Deus, e a ele servirás." Ele tanto o revelou por esse nome quanto mostrou, ao mesmo tempo, quem ele próprio era. Pois a palavra hebraica Satanás significa um apóstata. E assim, vencendo-o pela terceira vez, repeliu-o de si definitivamente, como a um que fora vencido com base na lei; e foi desfeita aquela violação do mandamento de Deus que havia ocorrido em Adão, por meio do preceito da lei, que o Filho do homem observou, e que não transgrediu o mandamento de Deus. Quem, então, é este Senhor Deus de quem Cristo testemunho, a quem nenhum homem deve tentar, a quem todos devem adorar e a quem somente devem servir? É, sem qualquer espécie de dúvida, aquele Deus que também deu a lei. Pois essas coisas haviam sido preditas na lei, e pelas palavras ( sententiam ) da lei o Senhor mostrou que a lei de fato declara o Verbo de Deus vindo do Pai; e o anjo apóstata de Deus é destruído pela voz dela, sendo desmascarado em sua verdadeira face e vencido pelo Filho do homem que guarda o mandamento de Deus. Pois, assim como no princípio ele seduziu o homem a transgredir a lei do seu Criador, e por isso o colocou em seu poder, ainda que o seu poder consista em transgressão e apostasia, e com estas tenha amarrado o homem a si, assim de novo, por outro lado, era necessário que, por meio do próprio homem, ele, quando vencido, fosse amarrado com as mesmas correntes com que havia amarrado o homem, para que o homem, sendo libertado, pudesse voltar ao seu Senhor, deixando a ele, Satanás, aqueles laços com que ele próprio fora preso, isto é, o pecado. Pois, quando Satanás é amarrado, o homem é libertado; que ninguém pode entrar na casa de um homem forte e saquear os seus bens, a menos que primeiro amarre o próprio homem forte. O Senhor, portanto, o expõe como quem fala contrariamente à palavra daquele Deus que fez todas as coisas, e o subjuga por meio do mandamento. Ora, a lei é o mandamento de Deus. O Homem prova que ele é um fugitivo e um transgressor da lei, e também um apóstata de Deus. Depois que o Homem fez isso, o Verbo o amarrou firmemente como um fugitivo dele mesmo, e saqueou os seus bens, ou seja, aqueles homens que ele mantinha em cativeiro e que ele injustamente usava para os seus próprios fins. E justamente, de fato, é levado cativo aquele que havia injustamente levado os homens ao cativeiro; enquanto o homem, que no passado fora levado cativo, foi resgatado das garras do seu possuidor, segundo a terna misericórdia de Deus, o Pai, que teve compaixão da sua própria obra e lhe deu salvação, restaurando-a por meio do Verbo, isto é, por Cristo, para que os homens aprendessem por prova concreta que ele recebe a incorruptibilidade não de si mesmo, mas pelo dom gratuito de Deus.
Assim, portanto, o Senhor mostra claramente que era o verdadeiro Senhor e o único Deus que havia sido apresentado pela lei; pois aquele a quem a lei proclamava como Deus, o mesmo Cristo apontou como o Pai, a quem aos discípulos de Cristo convém servir. Por meio das afirmações da lei, ele lançou o nosso adversário em total confusão; e a lei nos ordena que louvemos a Deus, o Criador ( Demiurgum ), e que a ele sirvamos. Sendo este o caso, não devemos buscar outro Pai além dele, nem acima dele, uma vez que um Deus que justifica a circuncisão pela e a incircuncisão por meio da fé. Pois, se houvesse algum outro Pai perfeito acima dele, ele, Cristo, de modo algum teria derrubado Satanás por meio de suas palavras e mandamentos. Pois uma ignorância não pode ser desfeita por meio de outra ignorância, tampouco um defeito por outro defeito. Se, portanto, a lei se deve à ignorância e ao defeito, como poderiam as afirmações nela contidas reduzir a nada a ignorância do diabo e vencer o homem forte? Pois um homem forte não pode ser vencido nem por um inferior nem por um igual, mas por alguém dotado de maior poder. Mas o Verbo de Deus é o superior acima de tudo, aquele que é proclamado em alta voz na lei: "Ouve, ó Israel, o Senhor teu Deus é um Deus"; e: "Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração"; e: "A ele adorarás, e a ele servirás." Então, no Evangelho, derrubando a apostasia por meio dessas expressões, ele tanto venceu o homem forte pela voz do seu Pai quanto reconhece que o mandamento da lei exprime os seus próprios sentimentos, quando diz: "Não tentarás o Senhor teu Deus." Pois ele não confundiu o adversário com a palavra de qualquer outro, mas com a que pertence ao seu próprio Pai, e assim venceu o homem forte. Ele ensinou, por seu mandamento, que nós, que fomos libertados, devemos, quando famintos, tomar aquele alimento que é dado por Deus; e que, quando colocados na posição elevada de toda graça que se possa receber, não devemos, nem por confiar em obras de justiça, nem quando adornados com dons sobre-eminentes de ministério, de modo algum nos deixar levantar com orgulho, nem devemos tentar a Deus, mas devemos sentir humildade em todas as coisas e ter prontamente à mão estas palavras: "Não tentarás o Senhor teu Deus." Como também ensinou o apóstolo, dizendo: "Não cuidando de coisas altas, mas condescendendo com as humildes"; de modo que não devemos ser apanhados nem pelas riquezas, nem pela glória mundana, nem pelo capricho presente, mas devemos saber que devemos adorar o Senhor teu Deus, e a ele servir, e não dar ouvidos àquele que falsamente prometeu coisas que não eram suas, quando disse: "Eu te darei todos estes, se, prostrando-te, me adorares." Pois ele próprio confessa que adorá-lo e fazer a sua vontade é cair da glória de Deus. E de que coisa, agradável ou boa, pode participar o homem que caiu? Ou que outra coisa pode tal pessoa esperar ou aguardar, senão a morte? Pois a morte é a vizinha mais próxima daquele que caiu. Daí também se segue que ele não dará o que prometeu. Pois como pode ele fazer concessões a quem caiu? Além disso, uma vez que Deus reina sobre os homens e também sobre ele, e sem a vontade do nosso Pai que está no céu nem mesmo um pardal cai por terra, segue-se que a sua declaração, "Todas estas coisas me foram entregues, e a quem eu quiser as dou", procede dele quando está inchado de orgulho. Pois a criação não está sujeita ao seu poder, que ele mesmo é apenas um entre as coisas criadas. Tampouco entregará ele o domínio sobre os homens a outros homens; mas tanto todas as outras coisas quanto todos os assuntos humanos são dispostos segundo a determinação de Deus, o Pai. Ademais, o Senhor declara que o diabo é mentiroso desde o princípio, e a verdade não está nele. Se, então, ele é um mentiroso e a verdade não está nele, ele certamente não falou a verdade, mas uma mentira, quando disse: "Pois todas estas coisas me foram entregues, e a quem eu quiser as dou."
Ele de fato estava acostumado a mentir contra Deus, com o propósito de desviar os homens. Pois no princípio, quando Deus havia dado ao homem uma variedade de coisas para alimento, ao mesmo tempo em que lhe ordenou que não comesse de uma árvore, como nos conta a Escritura que Deus disse a Adão: "De toda árvore que está no jardim comerás alimento; mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, desta não comerás; porque no dia em que dela comeres, morrerás de morte"; ele então, mentindo contra o Senhor, tentou o homem, como diz a Escritura que a serpente disse à mulher: "Foi mesmo isto que Deus disse, que não comereis de toda árvore do jardim?" E quando ela expôs a falsidade e simplesmente relatou o mandamento, como ele havia dito: "De toda árvore do jardim comeremos; mas do fruto da árvore que está no meio do jardim Deus disse: não comereis dele, nem o tocareis, para que não morrais"; quando ele assim aprendeu da mulher o mandamento de Deus, tendo posto em ação a sua astúcia, finalmente a enganou com uma falsidade, dizendo: "Não morrereis de morte; pois Deus sabia que no dia em que dele comerdes se abrirão os vossos olhos, e sereis como deuses, conhecendo o bem e o mal." Em primeiro lugar, então, no jardim de Deus ele disputou acerca de Deus, como se Deus não estivesse ali, pois ele ignorava a grandeza de Deus; e depois, em segundo lugar, após ter aprendido da mulher que Deus dissera que eles morreriam se provassem da referida árvore, abrindo a boca, proferiu a terceira falsidade: "Não morrereis de morte." Mas que Deus era verdadeiro, e a serpente, uma mentirosa, foi provado pelo resultado, tendo a morte recaído sobre aqueles que comeram. Pois, junto com o fruto, eles também caíram sob o poder da morte, porque comeram em desobediência; e a desobediência a Deus acarreta a morte. Por isso, ao se tornarem dívida da morte, desde aquele momento foram entregues a ela. Assim, então, no dia em que comeram, no mesmo morreram, e se tornaram devedores da morte, uma vez que era um dia da criação. Pois está dito: "Houve tarde e houve manhã, um dia." Ora, neste mesmo dia em que comeram, nele também morreram. Mas, segundo o ciclo e a progressão dos dias, conforme os quais um é chamado primeiro, outro segundo e outro terceiro, se alguém busca diligentemente saber em qual dia dos sete foi que Adão morreu, ele o descobrirá examinando a dispensação do Senhor. Pois, resumindo em si toda a raça humana, do princípio ao fim, ele também resumiu a sua morte. Disto fica claro que o Senhor sofreu a morte, em obediência ao seu Pai, naquele dia em que Adão morreu ao desobedecer a Deus. Ora, ele morreu no mesmo dia em que comeu. Pois Deus disse: "No dia em que dela comeres, morrerás de morte." O Senhor, portanto, recapitulando em si esse dia, sofreu os seus padecimentos no dia anterior ao sábado, isto é, no sexto dia da criação, dia em que o homem foi criado; concedendo-lhe assim uma segunda criação por meio de sua paixão, que é aquela criação que vem da morte. E ainda alguns que situam a morte de Adão no milésimo ano; pois, uma vez que um dia do Senhor é como mil anos, ele não ultrapassou os mil anos, mas morreu dentro deles, cumprindo assim a sentença do seu pecado. Quer, portanto, no que diz respeito à desobediência, que é morte; quer consideremos que, por causa disso, eles foram entregues à morte e feitos devedores dela; quer no que diz respeito ao fato de que, no mesmo e único dia em que comeram, também morreram, pois é um dia da criação; quer consideremos este ponto, que, no que diz respeito a este ciclo de dias, eles morreram no dia em que também comeram, isto é, o dia da preparação, que é chamado de ceia pura, isto é, o sexto dia da festa, no qual o Senhor também o demonstrou quando sofreu naquele dia; quer reflitamos que ele, Adão, não ultrapassou os mil anos, mas morreu dentro do seu limite, segue-se que, em relação a todos esses significados, Deus é de fato verdadeiro. Pois morreram aqueles que provaram da árvore; e a serpente é provada mentirosa e homicida, como o Senhor disse a respeito dele: "Pois ele é homicida desde o princípio, e a verdade não está nele."
Assim como, portanto, o diabo mentiu no princípio, assim também mentiu no fim, quando disse: "Todos estes me foram entregues, e a quem eu quiser os dou." Pois não é ele quem designou os reinos deste mundo, mas Deus; pois o coração do rei está na mão de Deus. E o Verbo também diz, por meio de Salomão: "Por mim reinam os reis, e os príncipes administram a justiça. Por mim os chefes são elevados, e por mim os reis governam a terra." Paulo, o apóstolo, também fala sobre este mesmo assunto: "Sujeitai-vos a todas as autoridades superiores; pois não autoridade que não venha de Deus; ora, as que existem foram ordenadas por Deus." E de novo, a respeito delas, ele diz: "Pois não traz a espada em vão; pois é ministro de Deus, vingador para castigar quem faz o mal." Ora, que ele falou essas palavras não a respeito de poderes angélicos, nem de governantes invisíveis, como alguns se atrevem a interpretar a passagem, mas a respeito das autoridades humanas reais, ele o mostra quando diz: "Por esta causa pagai também tributo; pois eles são ministros de Deus, servindo precisamente a isto." Isto também o Senhor confirmou, quando não fez aquilo a que era tentado pelo diabo; mas deu instruções de que se pagasse tributo aos cobradores de impostos por ele mesmo e por Pedro, porque eles são ministros de Deus, servindo precisamente a isto. Pois, uma vez que o homem, ao se afastar de Deus, chegou a tal grau de fúria a ponto de olhar até para o próprio irmão como inimigo, e se entregou sem temor a toda espécie de conduta inquieta, e a homicídio, e a avareza, Deus impôs sobre a humanidade o temor do homem, que eles não reconheciam o temor de Deus, a fim de que, sujeitos à autoridade dos homens e mantidos sob controle por suas leis, atingissem algum grau de justiça e exercessem mútua tolerância pelo pavor da espada suspensa bem à vista deles, como diz o apóstolo: "Pois não traz a espada em vão; pois é ministro de Deus, vingador para castigar quem faz o mal." E por esta razão também, os próprios magistrados, tendo leis como vestimenta de justiça sempre que agem de modo justo e legítimo, não serão chamados a prestar contas por sua conduta, nem ficarão sujeitos a punição. Mas tudo o que fizerem para subverter a justiça, de modo iníquo, ímpio, ilegal e tirânico, nessas coisas também perecerão; pois o justo juízo de Deus vem igualmente sobre todos, e em nenhum caso é deficiente. O governo terreno, portanto, foi instituído por Deus para o benefício das nações, e não pelo diabo, que jamais está em repouso, e que nem sequer gosta de ver as nações se conduzindo de maneira tranquila, de modo que, sob o temor do governo humano, os homens não se devorem uns aos outros como peixes; mas que, por meio do estabelecimento das leis, eles refreiem um excesso de maldade entre as nações. E, considerados deste ponto de vista, aqueles que cobram tributo de nós são ministros de Deus, servindo precisamente a este propósito. Sendo, então, as autoridades que existem ordenadas por Deus, fica claro que o diabo mentiu quando disse: "Estes me foram entregues, e a quem eu quiser os dou." Pois é pela lei do mesmo Ser que chama os homens à existência que também os reis são designados, adequados àqueles homens que então são colocados sob o seu governo. Alguns desses governantes são dados para a correção e o benefício de seus súditos, e para a preservação da justiça; mas outros, para fins de temor, punição e repreensão; outros, conforme os súditos o merecem, são para engano, vergonha e orgulho; ao passo que o justo juízo de Deus, como observei, recai igualmente sobre todos. O diabo, contudo, sendo o anjo apóstata, pode ir até este ponto, como fez no princípio, isto é, enganar e desviar a mente do homem para a desobediência aos mandamentos de Deus, e gradualmente escurecer os corações daqueles que se empenhassem em servi-lo, levando-os a esquecer o verdadeiro Deus, mas a adorar a ele próprio como Deus. Tal como, se alguém, sendo um apóstata e tomando de modo hostil o território de outro homem, oprimisse os habitantes dele a fim de reivindicar para si a glória de rei entre aqueles que ignoram a sua apostasia e o seu roubo; assim também o diabo, sendo um entre aqueles anjos que estão postos sobre o espírito do ar, como declarou o apóstolo Paulo em sua Epístola aos Efésios, tendo-se tornado invejoso do homem, foi feito apóstata da lei divina, pois a inveja é algo estranho a Deus. E, como a sua apostasia foi exposta pelo homem, e o homem se tornou o meio de devassar os seus pensamentos ( et examinatio sententiæ ejus, homo factus est ), ele se dedicou a isto com determinação cada vez maior, em oposição ao homem, invejando a sua vida e desejando envolvê-lo em seu próprio poder apóstata. O Verbo de Deus, contudo, o Criador de todas as coisas, vencendo-o por meio da natureza humana e mostrando que ele é um apóstata, colocou-o, ao contrário, sob o poder do homem. Pois ele diz: "Eis que vos confiro o poder de pisar sobre serpentes e escorpiões, e sobre todo o poder do inimigo", para que, assim como ele obteve domínio sobre o homem pela apostasia, assim de novo a sua apostasia ficasse privada de poder por meio do homem que volta de novo para Deus.