Contra as Heresias - Livro I 2
Exposicao dos sistemas gnosticos
A Igreja, embora dispersa pelo mundo inteiro, até os confins da terra, recebeu dos apóstolos e de seus discípulos esta fé: [Ela crê] em um só Deus, o Pai Todo-Poderoso, Criador do céu, e da terra, e do mar, e de tudo o que neles há; e em um só Cristo Jesus, o Filho de Deus, que se encarnou para a nossa salvação; e no Espírito Santo, que proclamou por meio dos profetas as dispensações de Deus, e as vindas, e o nascimento de uma virgem, e a paixão, e a ressurreição dentre os mortos, e a ascensão em carne ao céu do amado Cristo Jesus, nosso Senhor, e a sua [futura] manifestação desde o céu, na glória do Pai, para reunir todas as coisas em um só, e para ressuscitar de novo toda a carne de toda a raça humana, a fim de que, diante de Cristo Jesus, nosso Senhor, e Deus, e Salvador, e Rei, segundo a vontade do Pai invisível, se dobre todo joelho, dos que estão no céu, e na terra, e debaixo da terra, e toda língua o confesse, e ele execute justo juízo sobre todos; e envie as maldades espirituais, e os anjos que transgrediram e se tornaram apóstatas, juntamente com os ímpios, e os injustos, e os perversos, e os profanos entre os homens, ao fogo eterno; mas, no exercício de sua graça, confira imortalidade aos justos, e santos, e àqueles que guardaram os seus mandamentos e perseveraram no seu amor, alguns desde o princípio [de sua caminhada cristã], e outros desde [a data de] seu arrependimento, e os cerque de glória eterna. Como já observei, a Igreja, tendo recebido esta pregação e esta fé, embora espalhada pelo mundo inteiro, contudo, como se ocupasse uma só casa, a preserva cuidadosamente. Ela também crê nestes pontos [de doutrina] como se tivesse uma só alma, e um só e o mesmo coração, e os proclama, e os ensina, e os transmite, em perfeita harmonia, como se possuísse uma só boca. Pois, embora as línguas do mundo sejam diferentes, o conteúdo da tradição é um só e o mesmo. Pois as Igrejas que foram plantadas na Germânia não creem nem transmitem nada de diferente, nem o fazem as da Espanha, nem as da Gália, nem as do Oriente, nem as do Egito, nem as da Líbia, nem as que foram estabelecidas nas regiões centrais do mundo. Mas, assim como o sol, essa criatura de Deus, é um só e o mesmo no mundo inteiro, também a pregação da verdade brilha em toda parte e ilumina todos os homens que estão dispostos a chegar ao conhecimento da verdade. Nem qualquer um dos que governam nas Igrejas, por mais dotado que seja em eloquência, ensinará doutrinas diferentes destas (pois ninguém é maior do que o Mestre); nem, por outro lado, aquele que é deficiente no poder de expressão infligirá dano à tradição. Pois, sendo a fé sempre uma só e a mesma, nem aquele que é capaz de discorrer longamente sobre ela lhe faz qualquer acréscimo, nem aquele que pode dizer pouco a diminui. Não se segue, porque os homens são dotados de graus maiores e menores de inteligência, que devam, por isso, mudar o próprio conteúdo [da fé], e conceber algum outro Deus além daquele que é o Formador, o Criador e o Preservador deste universo (como se ele não lhes bastasse), ou outro Cristo, ou outro Unigênito. Mas o fato a que se faz referência implica simplesmente isto: que alguém pode [com mais exatidão que outro] trazer à tona o significado daquilo que foi dito em parábolas, e acomodá-lo ao esquema geral da fé; e explicar [com clareza especial] a operação e a dispensação de Deus relacionadas com a salvação humana; e mostrar que Deus manifestou longanimidade tanto em relação à apostasia dos anjos que transgrediram quanto em relação à desobediência dos homens; e expor por que é que um só e o mesmo Deus fez algumas coisas temporais e outras eternas, algumas celestiais e outras terrenas; e compreender por que razão Deus, embora invisível, se manifestou aos profetas não sob uma só forma, mas de modos diferentes a indivíduos diferentes; e mostrar por que mais de uma aliança foi dada à humanidade; e ensinar qual era o caráter particular de cada uma dessas alianças; e investigar por que razão Deus encerrou todo homem na incredulidade, para que tivesse misericórdia de todos; e descrever com gratidão por que motivo o Verbo de Deus se fez carne e sofreu; e relatar por que a vinda do Filho de Deus se deu nestes últimos tempos, isto é, no fim, e não no princípio [do mundo]; e desdobrar o que está contido nas Escrituras a respeito do fim [em si] e das coisas vindouras; e não se calar quanto ao modo como Deus fez dos gentios, de cuja salvação se desesperava, co-herdeiros, e do mesmo corpo, e participantes com os santos; e discorrer sobre como é que este corpo mortal se revestirá de imortalidade, e este corruptível se revestirá de incorrupção; e proclamar em que sentido [Deus] diz: Aquele que não era povo é povo; e ela, que não era amada, é amada; e em que sentido ele diz que são mais os filhos da que estava desolada do que os da que tinha marido. Pois, em referência a esses pontos, e a outros de natureza semelhante, o apóstolo exclama: Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis os seus caminhos! Mas [a habilidade superior de que se falou] não se encontra nisto: que alguém deva, acima do Criador e Formador [do mundo], conceber a Enthymesis de um Éon errante, mãe dela e dele, e assim chegar a tamanho cúmulo de blasfêmia; nem consiste nisto: que ele deva, novamente, imaginar falsamente, como estando acima deste [ser fantasiado], um Pleroma que ora se supõe conter trinta, ora um número incontável de Éons, como sustentam esses mestres que são destituídos de sabedoria verdadeiramente divina; ao passo que a Igreja Católica possui uma só e a mesma fé no mundo inteiro, como já dissemos.