Contra as Heresias - Livro I 1
Exposicao dos sistemas gnosticos
Eles prosseguem dizendo-nos que o Propátor de seu esquema era conhecido apenas pelo Unigênito, que dele brotou; em outras palavras, apenas por Nous, ao passo que para todos os demais ele era invisível e incompreensível. E, segundo eles, somente Nous tinha prazer em contemplar o Pai e em exultar ao considerar sua grandeza imensurável; e ele também meditava em como poderia comunicar aos demais Éons a grandeza do Pai, revelando-lhes quão vasto e poderoso ele era, e como ele era sem princípio, além de toda compreensão e absolutamente incapaz de ser visto. Mas, de acordo com a vontade do Pai, Sige o reteve, porque era o desígnio dele conduzir todos eles ao conhecimento do referido Propátor e criar neles o desejo de investigar a sua natureza. De igual modo, os demais Éons também, de certo modo silencioso, tinham o desejo de contemplar o Autor de seu ser, e de contemplar aquela Causa Primeira que não tinha princípio. Mas houve um que se lançou à frente dos demais, aquele Éon que era de longe o último deles, e o mais novo da Duodécada que brotou de Anthropos e Ecclesia, a saber, Sophia, e sofreu paixão à parte do abraço de seu consorte Theletos. Essa paixão, de fato, surgiu primeiro entre os que estavam ligados a Nous e Aletheia, mas passou como por contágio a esse Éon degenerado, que agiu sob o pretexto de amor, mas na verdade foi movido por temeridade, porque ela não havia, como Nous, gozado de comunhão com o Pai perfeito. Essa paixão, dizem eles, consistia em um desejo de pesquisar a natureza do Pai; pois ela quis, segundo eles, compreender a grandeza dele. Quando não pôde atingir o seu fim, visto que mirava uma impossibilidade, e assim se envolveu em uma agonia extrema da mente, ao mesmo tempo que, por causa da vasta profundidade e da natureza insondável do Pai, e por causa do amor que lhe tinha, ela se esticava cada vez mais para a frente, houve o perigo de que ela enfim fosse absorvida pela doçura dele e dissolvida em sua essência absoluta, caso não tivesse encontrado aquele Poder que sustenta todas as coisas e as preserva fora da indizível grandeza. A esse poder eles chamam de Horos; por meio do qual, dizem, ela foi contida e sustentada; e que então, tendo com dificuldade sido trazida de volta a si mesma, ela se convenceu de que o Pai é incompreensível, e assim deixou de lado o seu propósito original, juntamente com aquela paixão que havia surgido dentro dela a partir da influência avassaladora de sua admiração. Mas outros entre eles descrevem fabulosamente a paixão e a restauração de Sophia da seguinte forma: dizem que ela, tendo se empenhado em uma tentativa impossível e impraticável, gerou uma substância amorfa, tal como a sua natureza feminina lhe permitia produzir. Quando olhou para ela, seu primeiro sentimento foi de tristeza, por causa da imperfeição daquela geração, e depois de medo, para que isso não pusesse fim à sua própria existência. Em seguida, perdeu, por assim dizer, todo o controle de si mesma, e ficou na maior perplexidade, ao tentar descobrir a causa de tudo isso e de que modo poderia ocultar o que havia acontecido. Profundamente atormentada por essas paixões, ela enfim mudou de ideia e tentou retornar de novo ao Pai. Quando, no entanto, fez de algum modo a tentativa, as forças lhe faltaram, e ela se tornou suplicante do Pai. Os demais Éons, Nous em particular, apresentaram suas súplicas junto com ela. E daí declaram que a substância material teve seu princípio a partir da ignorância, da tristeza, do medo e da confusão. O Pai depois produz, à sua própria imagem, por meio do Unigênito, o já mencionado Horos, sem conjunção, masculino-feminino. Pois sustentam que às vezes o Pai age em conjunção com Sige, mas que em outras ocasiões ele se mostra independente tanto do masculino quanto do feminino. A esse Horos eles chamam tanto de Stauros como de Lytrotes, e de Carpistes, e de Horothetes, e de Metagoges. E por meio desse Horos eles declaram que Sophia foi purificada e estabelecida, ao mesmo tempo que foi restaurada à sua devida conjunção. Pois a sua enthymesis (ou ideia inata), tendo sido tirada dela, juntamente com a paixão que a acompanhava, ela própria certamente permaneceu dentro do Pleroma; mas a sua enthymesis, com sua paixão, foi separada dela por Horos, cercada e expulsa daquele círculo. Essa enthymesis era, sem dúvida, uma substância espiritual, possuindo algumas das tendências naturais de um Éon, mas ao mesmo tempo informe e sem forma, porque nada havia recebido. E por essa razão dizem que era uma produção débil e feminina. Depois que essa substância foi colocada fora do Pleroma dos Éons, e a sua mãe restaurada à sua devida conjunção, dizem-nos que o Unigênito, agindo de acordo com a prudente providência do Pai, deu origem a outro par conjugal, a saber, Cristo e o Espírito Santo (para que nenhum dos Éons caísse em uma calamidade semelhante à de Sophia), com o propósito de fortalecer e robustecer o Pleroma, e que ao mesmo tempo completaram o número dos Éons. Cristo então os instruiu sobre a natureza de sua conjunção, e ensinou que os que possuíam uma compreensão do Ingênito bastavam a si mesmos. Ele também anunciou entre eles o que se referia ao conhecimento do Pai, a saber, que ele não pode ser entendido nem compreendido, nem sequer visto ou ouvido, exceto na medida em que é conhecido somente pelo Unigênito. E a razão pela qual os demais Éons possuem existência perpétua encontra-se naquela parte da natureza do Pai que é incompreensível; mas a razão de sua origem e formação situava-se naquilo que pode ser compreendido a respeito dele, isto é, no Filho. Cristo, então, que acabara de ser produzido, realizou essas coisas entre eles. Mas o Espírito Santo ensinou-os a dar graças por terem sido todos tornados iguais entre si, e os conduziu a um estado de verdadeiro repouso. Assim, então, dizem-nos que os Éons foram constituídos iguais uns aos outros em forma e sentimento, de modo que todos se tornaram como Nous, e Logos, e Anthropos, e Christus. Os Éons femininos, também, tornaram-se todos como Aletheia, e Zoe, e Spiritus, e Ecclesia. Tudo, então, estando assim estabelecido e trazido a um estado de perfeito repouso, contam-nos em seguida que esses seres entoaram louvores com grande alegria ao Propátor, que ele mesmo participou da abundante exaltação. Então, por gratidão pelo grande benefício que lhes fora concedido, todo o Pleroma dos Éons, com um só desígnio e desejo, e com a concordância de Cristo e do Espírito Santo, tendo também o seu Pai posto o selo de sua aprovação sobre a conduta deles, reuniu tudo o que cada um tinha em si de mais belo e precioso; e, unindo todas essas contribuições de modo a mesclar habilmente o conjunto, produziram, para a honra e a glória de Bythos, um ser de beleza perfeitíssima, a própria estrela do Pleroma e o fruto perfeito dele, a saber, Jesus. A ele também se referem sob o nome de Salvador, e Cristo, e, patronimicamente, Logos, e Tudo, porque foi formado das contribuições de todos. E então nos é dito que, em sinal de honra, anjos da mesma natureza que ele foram simultaneamente produzidos, para servirem como sua guarda pessoal.