Contra Celso - Livro IV 1
A providência divina e a descida de Deus aos homens
O ilustre Celso, tomando ocasião não sei do quê, levanta em seguida uma objeção adicional contra nós, como se afirmássemos que o próprio Deus descerá aos homens. Ele imagina também que disso decorre que ele deixou a sua própria morada; pois não conhece o poder de Deus, nem que o Espírito do Senhor enche o mundo, e que aquele que sustenta todas as coisas tem conhecimento da voz. Nem é capaz de entender as palavras: Por acaso não encho eu o céu e a terra? diz o Senhor. Nem percebe que, segundo a doutrina do cristianismo, todos nós nele vivemos, e nos movemos, e existimos, como Paulo também ensinou em seu discurso aos atenienses; e por isso, ainda que o Deus do universo descesse, pelo seu próprio poder, com Jesus para a vida dos homens, e ainda que o Verbo que estava no princípio com Deus, que também é o próprio Deus, viesse até nós, ele não cede o seu lugar nem desocupa o seu próprio assento, de modo que um lugar ficasse vazio dele e outro, que antes não o continha, fosse preenchido. Mas o poder e a divindade de Deus vêm por meio daquele que Deus escolhe, e residem naquele em quem encontram lugar, sem mudar de posição, nem deixar o seu próprio lugar vazio e preencher outro: pois, ao falarmos de ele deixar um lugar e ocupar outro, não pretendemos que tais expressões sejam tomadas no sentido espacial; mas dizemos que a alma do homem mau, e daquele que está mergulhado na maldade, é abandonada por Deus, ao passo que dizemos que a alma daquele que deseja viver virtuosamente, ou daquele que progride (numa vida virtuosa), ou que já vive de acordo com ela, é preenchida pelo Espírito Divino ou se torna participante dele. Não é necessário, então, para a descida de Cristo, ou para a vinda de Deus aos homens, que ele abandone um assento maior, e que as coisas na terra sejam alteradas, como Celso imagina quando diz: Se você mudasse uma única, mesmo a menor, das coisas na terra, todas as coisas seriam derrubadas e desapareceriam. E se devemos falar de uma mudança em alguém pelo aparecimento do poder de Deus, e pela entrada do verbo entre os homens, não relutaremos em falar de mudar de uma vida má para uma virtuosa, de uma dissoluta para uma comedida, e de uma supersticiosa para uma religiosa, a pessoa que permitiu ao verbo de Deus encontrar entrada em sua alma.