Confissões - Livro XI 31

Livro XI: o tempo e a eternidade, e o início do comentário ao Gênesis

Senhor, meu Deus, que profundeza é essa do recesso de vosso alto segredo, e quão longe dele me lançaram as consequências de meus delitos? Curai os meus olhos, e que eu me regozije com a vossa luz. Por certo, se existe um espírito dotado de tão vasta ciência e presciência, que conheça todas as coisas passadas e futuras assim como eu conheço um cântico mui conhecido, esse espírito é por demais admirável e estupendo até o horror, pois que dele de modo nenhum se oculta tudo o que se cumpriu e tudo o que dos séculos resta, assim como de mim, cantando aquele cântico, não se oculta o que é quanto dele se passou desde o início, o que é quanto resta até o fim. Mas longe esteja que Vós, criador do universo, criador das almas e dos corpos, longe esteja que de tal modo conheceis todas as coisas futuras e passadas. Muito mais longe, muito mais admiravelmente e muito mais secretamente. Pois não como o afeto daquele que canta o que conhece, ou que ouve um cântico conhecido, é variado, e o sentido se distende pela expectação das palavras futuras e pela memória das passadas, assim algo vos acontece, a Vós imutavelmente eterno, isto é, verdadeiramente eterno criador das mentes. Assim como, pois, no princípio conhecestes o céu e a terra sem variedade do vosso conhecimento, assim no princípio fizestes o céu e a terra sem distensão da vossa ação. Quem entende, confesse-vos; e quem não entende, confesse-vos. Oh, quão excelso sois, e os humildes de coração são a vossa casa! Pois Vós erguei os abatidos, e não caem aqueles cuja altura sois Vós.