Confissões - Livro XI 24

Livro XI: o tempo e a eternidade, e o início do comentário ao Gênesis

Mandais que eu aprove, se alguém disser que o tempo é o movimento de um corpo? Não o mandais. Pois que nenhum corpo se move senão no tempo, eis o que ouço: sois Vós quem o diz. Mas que o próprio movimento do corpo seja o tempo, isto não ouço: não sois Vós quem o diz. Pois quando um corpo se move, é pelo tempo que meço quanto tempo ele se move, desde quando começa a mover-se até que cesse. E se não vi de quando começou, e persiste em mover-se de modo que eu não veja quando cessa, não posso medi-lo, a não ser, talvez, desde quando começo a ver até que deixe de ver. Que se vejo por muito tempo, anuncio tão somente que é um tempo longo, mas não quanto seja, porque também o quanto, quando o dizemos, dizemo-lo por comparação, como: este tanto, quanto aquele, ou: este é o dobro daquele, e outras coisas deste modo. Mas se pudermos notar os espaços dos lugares, donde e para onde vem o corpo que se move, ou as partes dele, se se move como num torno, podemos dizer quanto tempo se gastou desde que, daquele lugar até aquele outro lugar, se efetuou o movimento do corpo ou de parte dele. Sendo, portanto, uma coisa o movimento do corpo, e outra aquilo por que medimos quanto ele dura, quem não percebe qual destes deva antes ser chamado tempo? Pois ainda que um corpo ora se mova de modos vários, ora pare, não o seu movimento mas também a sua parada medimos pelo tempo, e dizemos: parou tanto quanto se moveu, ou: parou o dobro ou o triplo do que se moveu, e qualquer outra coisa que a nossa medição houver ou comprovado ou estimado, como se costuma dizer, mais ou menos. Não é, pois, o tempo o movimento de um corpo.