Confissões - Livro XI 20
Livro XI: o tempo e a eternidade, e o início do comentário ao Gênesis
O que agora, porém, está líquido e claro é que nem as coisas futuras nem as passadas existem, e que não se diz com propriedade: "os tempos são três, o passado, o presente e o futuro"; mas talvez se dissesse com propriedade: "os tempos são três: um presente das coisas passadas, um presente das coisas presentes, um presente das coisas futuras". Pois estes três existem de algum modo na alma, e em outra parte não os vejo: presente das coisas passadas, a memória; presente das coisas presentes, a visão; presente das coisas futuras, a expectação. Se nos é permitido dizê-lo assim, vejo três tempos e confesso que são três. Diga-se também: "os tempos são três, o passado, o presente e o futuro", como abusa o costume; diga-se. Eis que não me importo, nem resisto, nem repreendo, contanto que se entenda o que se diz: que nem aquilo que é futuro já é, nem aquilo que é passado. Pois poucas são as coisas que dizemos com propriedade, e muitas sem propriedade, mas reconhece-se o que queremos dizer.