Confissões - Livro VIII 9

Livro VIII: a crise interior, a cena no jardim e a conversão ("toma e lê")

Donde vem este monstro? E por que isto? Resplandeça a vossa misericórdia, para que eu indague, se porventura me podem responder os esconderijos das penas dos homens e as tenebrosíssimas aflições dos filhos de Adão. Donde vem este monstro? E por que isto? A alma ordena ao corpo, e logo é obedecida; a alma ordena a si mesma, e encontra resistência. A alma ordena que se mova a mão, e tão grande é a facilidade que dificilmente se distingue a ordem da obediência; e a alma é alma, mas a mão é corpo. A alma ordena que a alma queira, e não é outra, e contudo não o faz. Donde vem este monstro? E por que isto, pergunto, que ela ordene a quem não ordenaria se não quisesse, e não faça o que ordena? Mas não quer por inteiro: logo, não ordena por inteiro. Pois ordena na medida em que quer, e na medida em que não quer não se faz o que ordena, porque a vontade ordena que haja vontade, e não outra, mas ela mesma. Não ordena, pois, plenamente; por isso não o que ela ordena. Pois, se fosse plena, nem sequer ordenaria que houvesse, porque haveria. Não é, portanto, monstruosidade querer em parte e não querer em parte, mas é doença da alma, que não se ergue toda inteira erguida pela verdade, oprimida pelo peso do costume. E por isso duas vontades, porque uma delas não é inteira, e o que falta a uma está presente na outra.