Confissões - Livro VII 10

Livro VII: a libertação do materialismo e a leitura dos livros dos platônicos

E daí, admoestado a voltar para mim mesmo, entrei no íntimo de mim, sob a vossa direção; e o pude, porque vos fizestes meu auxílio. Entrei, e vi, com o olho qualquer que fosse de minha alma, acima desse mesmo olho de minha alma, acima de minha mente, a Luz imutável. Não esta luz comum e visível a toda carne, nem como que do mesmo gênero, porém maior, como se este brilho resplandecesse muito e muito mais claramente e tudo ocupasse com sua grandeza. Não era isto aquela Luz, mas outra, outra muito diferente de todas estas. Nem estava acima de minha mente como o azeite está acima da água, nem como o céu acima da terra, mas era superior porque ela mesma me fez, e eu inferior porque por ela fui feito. Quem conhece a verdade, conhece esta Luz; e quem a conhece, conhece a eternidade; o amor a conhece. Ó eterna Verdade, e verdadeiro Amor, e amada Eternidade! Vós sois o meu Deus; por Vós suspiro dia e noite. E quando primeiro vos conheci, Vós me erguestes para que eu visse que havia o que ver, e que eu ainda não era tal que pudesse ver. E repelistes a fraqueza de meu olhar, irradiando sobre mim veementemente, e estremeci de amor e de pavor. E descobri que eu estava longe de Vós, na região da dessemelhança, como se ouvisse a vossa voz do alto: 'Sou o alimento dos grandes; cresce, e me comerás. E não me hás de transformar em ti como ao alimento de tua carne, mas tu serás transformado em mim.' E conheci que, por causa da iniquidade, instruís o homem, e fizestes definhar como teia de aranha a minha alma; e disse: 'Será então a verdade um nada, visto que não se difunde nem por espaços finitos nem por espaços infinitos de lugar?' E clamastes de longe: 'Ao contrário, eu sou Aquele que sou.' E ouvi, como se ouve no coração, e de modo algum havia por que duvidar; e mais facilmente duvidaria de que vivo do que de que não existe a verdade, que pelas coisas que foram feitas se contempla, sendo compreendida.