Confissões - Livro III 9

Livro III: Cartago, a leitura do Hortênsio de Cícero e a sedução do maniqueísmo

Mas entre as torpezas e os crimes e tantas iniquidades, pecados dos que progridem, os quais, pelos que bem julgam, são tanto censurados segundo a regra da perfeição quanto louvados pela esperança do fruto, como a erva da seara. E certas coisas semelhantes ou à torpeza ou ao crime, e não são pecados, porque nem Vos ofendem, Senhor Deus nosso, nem ao convívio social, quando se ajuntam algumas coisas para o uso da vida, próprias e adequadas ao tempo, e é incerto se por cobiça de possuir; ou então são punidas pelo zelo de corrigir, mediante autoridade ordenada, e é incerto se por desejo de prejudicar. Assim, muitos feitos que aos homens pareceriam reprováveis foram aprovados pelo Vosso testemunho, e muitos louvados pelos homens são condenados, sendo Vós testemunha, pois muitas vezes diferente se mostra a aparência do feito e diferente é o ânimo de quem o faz e a circunstância de um tempo oculto. Mas quando Vós, de súbito, ordenais algo insólito e imprevisto, ainda que outrora o tenhais proibido, e embora oculteis por algum tempo a causa do Vosso mandamento, e embora seja contra o pacto de alguma sociedade de homens, quem duvidará que se deve fazer, visto que é justa aquela sociedade de homens que Vos serve? Mas bem-aventurados os que sabem que Vós o ordenastes. Pois tudo é feito pelos que Vos servem, ou para manifestar o que ao presente é necessário, ou para anunciar de antemão as coisas futuras.