Confissões - Livro III 6

Livro III: Cartago, a leitura do Hortênsio de Cícero e a sedução do maniqueísmo

Caí, pois, entre homens soberbamente delirantes, carnais em demasia e palradores, em cuja boca estavam os laços do diabo e o visco preparado com a mistura das sílabas do vosso nome, e do Senhor Jesus Cristo, e do Paráclito, nosso consolador, o Espírito Santo. Esses nomes não saíam de sua boca, mas apenas no som e no ruído da língua; quanto ao mais, o coração vazio de verdade. E diziam: 'a verdade, a verdade', e muito ma falavam, e em parte alguma ela estava neles, mas falavam coisas falsas, não de Vós, que verdadeiramente sois a Verdade, mas também desses elementos deste mundo, criatura vossa, acerca dos quais, ainda que os filósofos digam coisas verdadeiras, eu devia tê-los ultrapassado por amor de Vós, meu Pai sumamente bom, beleza de todas as belezas. Ó Verdade, Verdade, quão intimamente, mesmo então, as medulas de minha alma suspiravam por Vós, quando eles vos faziam soar a mim frequente e multiplicadamente, com a voz e com muitos e ingentes livros! E aqueles eram os pratos em que, a mim que tinha fome de Vós, se me servia, em vez de Vós, o sol e a lua, belas obras vossas, mas todavia obras vossas, não Vós, nem sequer as primeiras. Pois antes destas obras corpóreas estão as vossas obras espirituais, ainda que estas sejam luminosas e celestes. Mas eu nem mesmo daquelas primeiras obras vossas, e sim de Vós mesma, de Vós, ó Verdade, em quem não mudança nem sombra de variação, é que tinha fome e sede. E ainda se me punham diante, naqueles pratos, fantasmas esplêndidos, do que era melhor amar este mesmo sol, ao menos verdadeiro para estes olhos, do que aquelas coisas falsas que iludem a alma por meio dos olhos. E todavia, porque vos julgava aquilo, eu o comia, não com avidez, é certo, porque não tínheis para mim na boca o sabor que tendes (pois Vós não éreis aquelas vãs ficções), nem por elas era nutrido, mas antes esgotado. O alimento em sonhos é muito semelhante aos alimentos dos que velam, mas com ele os que dormem não se nutrem, pois estão dormindo. Ora, aquelas coisas de modo algum eram semelhantes a Vós, tal como agora me falastes, porque eram fantasmas corporais, corpos falsos, do que são mais certos estes corpos verdadeiros que vemos com a vista carnal, sejam celestes ou terrestres, juntamente com os animais e as aves. Vemos estas coisas, e elas são mais certas do que quando as imaginamos. E, por sua vez, com mais certeza as imaginamos do que, a partir delas, conjeturamos outras maiores e infinitas, que de modo algum existem. De tais vãs ilusões me apascentava eu então, e não me apascentava. Mas Vós, meu amor, em quem desfaleço para que seja forte, nem sois esses corpos que vemos, ainda que no céu, nem aqueles que ali não vemos, porque Vós os criastes e nem os tendes entre as vossas mais altas criaturas. Quão longe, pois, estais daqueles meus fantasmas, fantasmas de corpos que de modo algum existem! Do que são mais certas as imagens dos corpos que existem, e do que estas são mais certos os próprios corpos, que todavia Vós não sois. Mas nem sequer sois a alma, que é a vida dos corpos (e por isso a vida dos corpos é melhor e mais certa do que os corpos), mas Vós sois a vida das almas, vida das vidas, vivente por Vós mesma, e não vos mudais, ó vida de minha alma.
Onde estáveis Vós então para mim, e quão longe? E para longe de Vós eu peregrinava, excluído até das bolotas dos porcos, que eu com bolotas apascentava. Pois quanto melhores as fabulazinhas dos gramáticos e dos poetas do que aquela armadilha! De fato, os versos, e o poema, e a Medeia voadora são por certo mais úteis do que os cinco elementos variadamente disfarçados por causa das cinco cavernas de trevas, que de modo algum existem e matam quem nelas crê. Pois o verso e o poema eu até os transponho para verdadeiros manjares; quanto à Medeia voadora, ainda que a cantasse, não a afirmava, e ainda que a ouvisse cantar, não a cria. Mas naquelas coisas cri, ai, ai! Por que degraus fui levado às profundezas do inferno, trabalhando e ardendo na falta da verdade, quando a Vós, meu Deus (a Vós me confesso, que tivestes misericórdia de mim quando eu ainda não me confessava), quando a Vós eu buscava não segundo o entendimento da mente, pelo qual quisestes que eu superasse os animais, mas segundo o sentido da carne. Vós, porém, éreis mais interior do que o meu mais íntimo e mais alto do que o meu mais alto. Tropecei naquela mulher audaz, falta de prudência, o enigma de Salomão, sentada sobre a cadeira às portas e dizendo: 'comei de bom grado os pães ocultos, e bebei a água doce furtada.' Ela me seduziu, porque me achou habitando fora, no olho da minha carne, e ruminando em mim tais coisas quais por ele eu havia devorado.